Diretor de "Vodka Lemon" marca diferença sem medo

Na coletiva de apresentação da Mostra BR, o diretor do evento Leon Cakoff disse que Vodka Lemon era o candidato a O Estado do Cão deste ano, referindo-se ao filme que passou há alguns anos e tinha o perfil do que ele gosta de exibir. Alternativo, ousado, é o tipo do filme pequeno mas imenso pelo que revela sobre culturas pouco ou nada conhecidas. Vodka Lemon ficou entre os preferidos do público e pode receber amanhã, no encerramento do evento, o prêmio Bandeira Paulista. Seu diretor é Hiner Saleem. Ele é educado, um pouco reservado, talvez. Veste-se de uma maneira que não chama a atenção. Você não o associaria ao movimento punk. Mas Saleem é punk, no sentido figurado que o Aurélio atribui ao termo, para designar coisa forte e provocativa. Ele nasceu em Akkra, na parte curda do Iraque, em 1964. Integrou a resistência curda, participando de ações de sabotagem contra o regime de Saddam Hussein. Teve de exilar-se, primeiro na Itália, depois na França, onde reside. Saleem ficou escandalizado, no começo do ano, com aquelas multidões de franceses que saíram às ruas para bradar slogans contra a guerra de George W. Bush no Iraque. Ele apoiou a política do presidente americano, o que o transforma num punk total. Não é um entreguista, não é pelego dos americanos. Mas tinha esse ódio profundo por Saddam Hussein. Compara: "Se o seu filho caiu dentro do poço e alguém se oferece para ajudar você não exige o currículo da pessoa para ver se pode aceitar a ajuda dela. Você só quer tirar seu filho do poço." O apoio à política guerreira de George W. Bush, ele reconhece, foi uma opção desesperada. "Hussein destruiu o Iraque, matou ou exilou 5 milhões de curdos, num verdadeiro genocídio praticado sob o silêncio de todas as democracias ocidentais. Não sou eu que apóio Bush no Iraque. Até o Partido Comunista - você consegue imaginar comunistas gritando palavras de apoio aos americanos? - foram pela intervenção, para acabar com aquele terrorismo medonho." Já seu filme é pura magia. O protagonista é um velho que conversa com a mulher morta. Saleem não se inspirou em Legião Invencível, do mestre John Ford, de 1949, que também mostra John Wayne numa conversa parecida, no cemitério. Inspirou-se na sua gente. Viu muita gente conversando com seus mortos, nos cemitérios. Viu como os funerais viram festas, com muitas canções para celebrar os mortos. Saleem pode viver na Europa, mas com certeza mantém suas raízes curdas.Vodka Lemon - Amanhã, às 21 horas, Morumbi 3. Duração: 88 minutos.

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