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Diretor de Taiwan usa os cultuados atores Denis Lavant e Lee Keng-shang para investigar o tempo

O belo e misterioso corpo estranho de Tsai Ming-liang se faz em 'Jornada ao Oeste'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2015 | 03h00

Tsai Ming-liang ama o plano-sequência porque, como disse ao repórter, lhe permite controlar o tempo. Em Good-bye, Dragon-Inn, ele colocou a câmera no ponto de bifurcação do metrô e mostrou a velhinha que vem claudicando, por causa do defeito na perna, faz a curva e segue caminhando até desaparecer. Nada ocorre e, quando ela sai de cena, a imagem permanece mais um pouco – vazia. Há uma cena semelhante em Jornada ao Oeste, o novo longa do diretor de Taiwan, sobre um monge oriental nas ruas de Marselha.

O autor já fez outro filme na França, mais exatamente, no Louvre. E lá, ele recorreu a mulheres míticas dos filmes de François Truffaut – Jeanne Moreau e Fanny Ardant. Aqui, antes mesmo que apareça o monge, quem ocupa a tela é Denis Lavant, o ator fetiche de Leos Carax. Jornada ao Oeste abre-se na cara do ator, que ocupa integralmente a tela e fica ali um tempão. Denis faz um vagabundo da rua. Seu caminho se cruza com o do monge. Não acontece nada de muito especial. Nada de grandes diálogos, apenas a fisicalidade dos atores em cena.

Lee Kang-sheng, o ator que dá cara ao cinema de Tsai, caminha numa escada. Parece andar em câmera lenta, como a velhinha do metrô. As pessoas que descem e sobem rapidamente parecem incomodadas pelo estranho e pela câmera, porque Tsai não esconde que está filmando. Sem dúvida que o filme está propondo uma espécie de choque entre Oriente e Ocidente. Mas não se trata de dizer, didaticamente, com todas as letras, qual estilo é melhor.

O enunciado é muito mais sutil, porque nenhum dos ‘personagens’ que se movem no espaço e no tempo parece inserir-se na vida social. Denis Lavant tem sido sempre o que não se enquadra nos filmes de Leos Carax. E Kang-sheng possui uma coragem comovente, pelo desprendimento com que cede seu corpo aos experimentos de Tsai. Diante de filmes com muitos efeitos, muitas reviravoltas – e bons filmes: Jurassic Park e Terminator – Gênesis –, Jornada é um belo e misterioso corpo estranho. O que representa? Tudo, se você se dispuser a preencher os vazios criados por Tsai Ming-liang.

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