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Diretor de 'Star Trek – Sem Fronteiras' diz que série o ensinou muito sobre família

"Quando faço filmes, espero que pessoas de qualquer lugar do mundo entendam a história e saibam que a todo momento tínhamos elas em mente"

Entrevista com

Justin Lin

Cleide Klock, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Julho 2016 | 20h59

Justin Lin pode ainda não ser muito conhecido do grande público, mas o novo ‘piloto’ da USS Enterprise é o raio X de tudo o que Hollywood hoje espera de um cineasta. Quem resume as habilidades dele é o outro poderoso nome do momento, J.J. Abrams: “Lin sabe como trabalhar com um grande elenco, tem senso de humor e de ação e fala com diferentes culturas”. 

Depois de comandar duas aventuras de Star Trek, J.J. deixou a direção da franquia para assumir outra, Star Wars, mas continua como produtor e foi quem convidou Lin para ocupar sua cadeira. E o Star Trek – Sem Fronteiras de Justin Lin deve estrear no Brasil em 1.º de setembro.

Lin é a própria personificação do sonho americano. O taiwanês, de 44 anos, chegou aos EUA quando tinha 8, sem falar inglês e sem documentação. Os pais trabalhavam 12 horas por dia, 364 dias por ano. Só paravam no Dia de Ação de Graças. Conseguiram o visto de permanência quase dez anos depois, quando o presidente Ronald Reagan deu anistia aos imigrantes ilegais. 

Cresceu sendo um dos poucos asiáticos dos arredores de Anaheim, pertinho da Disneylândia, na Califórnia, mas nunca tiveram dinheiro para pisar no parque. Nem para ter brinquedos, o que o fazia construí-los. Na infância, só viu dois filmes no cinema E.T. e Rocky III. Era a diversão de graça, a TV, que o fazia viajar e ter companhia: de Spock, Kirk, Dr. McCoy, Sulu, Chekov...

Justin Lin falou com o Estado sobre sua jornada, influências, Star Trek e Star Wars e sobre como é fazer um filme para uma franquia que faz 50 anos. 

Qual é a primeira lembrança de Star Trek e que tipo de sentimentos traz para você?

A mudança para os Estados Unidos foi um momento assustador e solitário. Vim com meus pais e dois irmãos, não tínhamos nenhum parente por perto e ainda a barreira da língua. Meus pais trabalhavam até as 10 da noite, esperávamos eles para jantar e tentávamos convencê-los a deixar a gente assistir a Star Trek na TV, que começava às 11. Minhas maiores lembranças são sobre o que o seriado me ensinou sobre família, que não é preciso ser irmão de sangue para ter esses laços e foi assim que cresci em uma terra estrangeira, assim que crio meu filho, mostrando que família é sobre conexão, experiência compartilhada.

Qual é o maior desafio em fazer um filme para uma franquia que comemora 50 anos?

Tem que ter certeza de que vai capturar a essência da grandiosidade dessa data e de tudo que já foi feito, e não é uma coisa fácil. Além de tudo, precisava ousar, inovar, sem duplicá-la ou copiá-la. Se vai funcionar ou não? Tinha que experimentar, já que esse universo é tão grande. Isso me atraiu muito no início, mas também tenho que ser honesto, foi assustador. Poderia fazer o que quisesse, mas por onde começar? Essa era a grande questão.

Começou por onde?

É engraçado, mas o que temos de mais inovador é que voltamos aos primórdios da série.

Qual a maior diferença entre fazer Star Trek 50 anos atrás para aquela geração, e agora?

Star Trek tem sido sempre um grande espelho do mundo e do momento que vivemos. Então, senti que meu trabalho era conseguir um espelho nosso, de agora, para que daqui a 50 anos, você fale, quando assistir a Star Trek – Sem Fronteiras: “Uau, isso era ter sensibilidade em 2016”. Era minha missão. 

Você fez quatro filmes de Velozes e Furiosos (do 3 ao 6) quando a franquia ainda era pequena. Agora, o desafio de fazer um filme de uma franquia famosa no mundo todo. O que é mais difícil?

É difícil comparar, cada uma tem seus desafios. Quando peguei Velozes, ainda tinha que construir um relacionamento com a audiência. Aqui, já existe esse laço e a gente tem que respeitá-lo. Parte do meu trabalho é tentar algo novo e espero que as pessoas entendam a direção que estamos tomando.

Você vê alguma similaridade entre Velozes e Trek?

Nem sabia que havia uma conexão, depois que me dei conta. Os dois filmes têm a mesma base de família nada tradicional. Quando fiz Velozes, eu o levei para esse lado, construí essa família que eles são hoje. Depois, cheguei à conclusão que isso sou eu, por causa da minha relação com Trek.

Star Wars – O Despertar da Força foi um grande sucesso no ano passado. Há alguma relação entre as duas franquias? Uma pode impulsionar a outra?

São muito diferentes. Star Trek é mais sobre exploração e essa relação dos personagens com os outros e com eles mesmos. Já Star Wars sempre foi um exercício de construção de uma mitologia. Mas são semelhantes no poder de atrair multidões de fãs. Acho que são irmãs, mas como todos os irmãos, também são diferentes.

Você é fã de Star Wars?

Eu não cresci assistindo a Star Wars. Todos os meus amigos eram fãs, mas eu vivia em uma família de classe operária. Não íamos ao cinema, a TV era meu único entretenimento. Minha experiência com Star Wars veio muito mais tarde, não tenho a mesma conexão. 

J.J. Abrams disse que você tem essa capacidade de contar histórias para diferentes culturas. Como você trabalha isso?

Acho que tem relação com minha história de vida. Nos últimos 12 anos, filmei em vários lugares do planeta. Nunca disse que tinha que ser do meu jeito, sempre respeitei as culturas locais, sei como isso é valioso e cria empatia. Não gosto de ir de férias. Gosto de viajar e trabalhar com as pessoas de outras culturas. Quando faço filmes, espero que pessoas de qualquer lugar do mundo entendam a história e saibam que a todo momento tínhamos elas em mente.

Você acha que Hollywood é multicultural? Tivemos toda essa discussão no Oscar deste ano.

Não sabemos ainda se é uma moda passageira ou vai ser algo concreto, mas gosto da direção para onde o cinema está indo. Virou uma discussão mundial e é bom ver todos envolvidos com Hollywood, mostra uma evolução. Nosso mundo está se tornando menor de uma maneira que me agrada. Esse meu ponto de vista sempre quero ter certeza que seja refletido em meus filmes. 

Recentemente, Hollywood tem como alvo a Ásia. Como vê essa aproximação com o mercado asiático?

Não sei ainda se é uma coisa boa ou ruim. Acho que é apenas um negócio de corporações que querem ganhar mais dinheiro. Quando fiz os filmes de Velozes e Furiosos me disseram: “Vamos fazer em 3D para que possamos ganhar mais dinheiro”. Eu disse que não, porque isso não justifica mudar a concepção de um filme. A menos que tenha uma razão para fazer 3D. Star Trek fizemos em 3D para que você fique imerso nesse mundo. Essa é a mesma relação com o fato de investirem na Ásia como mercado. Se for um projeto inclusivo, sou a favor. Mas muitos pensam: vamos colocar um ator chinês lá e ganharemos mais dinheiro. Isso está errado. Você coloca um bom ator que é o melhor para o papel. É a única maneira de fazer isso direito. 

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