Diretor de "O Tambor" estréia novo filme em Locarno

O cineasta alemão Volker Schloendorf - Palma de Ouro de 1979, em Cannes, com O Tambor, e internacionalmente conhecido pelo filme A Honra Perdida de Katharina Blum ? reservou para Locarno a estréia mundial de seu último filme O Nono Dia, exibido no telão da Piazza Grande, fora de competição. A exibição desse filme para o grande público, diante de sete mil expectadores, confirma a tradição do Festival de provocar o debate e mostrar o grande cinema."O que aconteceu na Alemanha continuará a justificar livros e filmes, mesmo dentro de cem anos", disse Schloendorf, para a imprensa, quando lhe perguntaram se o tema já não estava esgotado. O imponente cineasta, que fisicamente é pequeno e mesmo franzino, trata desta vez de um episódio esquecido da época nazista ? a da resistência de uma parcela do clero católico europeu ao nazismo, mesmo se, no Vaticano, o Papa Pio XII tenha adotado uma posição ambígua, já denunciada como cúmplice em filmes de outros cineastas.Scholoendorf tem a paixão do livro e se tornou conhecido, na Alemanha, como o melhor adaptador dos grandes livros da atualidade. Foi assim como O Tambor, de Günter Grass, e com os filmes inspirados em livros de Margueritte Yourcenar, Proust e Tournier. Formado em cinema pelo IDHEC de Paris, Schloendorf foi um dos líderes da nouvelle vague do cinema alemão junto com Fassbinder e Wenders."É importante acentuar que, durante o nazismo, um certo número de clerigos, cerca de 20 mil, estiveram em campos de concentração e se recusaram a se submeter. Meu filme quer saudar essa coragem", afirma o cineasta. No Nono Dia é a historia verdadeira de padre Jean Bernard (Henri Kremer, no filme), de Luxemburgo, preso no campo de concentraçao de Dachau com outros religiosos católicos, que se vê, repentinamente, libertado e mandado de volta para casa.Lá, um jovem oficial da Gestapo, ex-seminarista, lhe informa ter nove dias para convencer o bispo de Luxemburgo a colaborar com as forças nazistas. Caso se negue, sera reenviado a Dachau.A seqüência do filme é a luta de consciência e a discussão entre o padre e o jovem oficial. O nazista se declara entusiasmado com a figura de Judas, o discípulo cuja traição deu a Jesus a possibilidade do sacrifício e tornou possivel a dimensão do cristianismo. Para Schlondoerf, ex-seminarista que hoje não sabe se Deus existe, afirma que esse desafio permitiu ao jovem padre se realizar como homem, no conceito do escritor Primo Levi. "Nao havia lugar para compromissos, diz o cineasta. A questão não era de saber o que se devia fazer, mas de saber se havia a coragem de se fazer. Como num pacto de Mefistófeles, o oficial alemão oferecia ao padre a tentação, que era a liberdade, tão logo escrevesse uma carta de apoio aos nazistas. Quando a pessoa se encontra numa situação de fraqueza, é fácil se esconder com desculpas para não se tomar decisões".Schlondoert acha que o aparente idealismo do oficial nazista só se poderia entender num jovem fanatizado. Transpondo para a atualidade, o cineasta alemão acha que não se pode generalizar diante do atual risco de conflito de religiões. "Os perigosos são os jovens fanatizados, não a religião em si mesma. Mesmo que os altos dignatários possam assumir posições duvidosas, como foi no caso do Vaticano, cada pessoa, cada padre em separado, podia assumir sua posição individualmente". Refutando que o nazismo seja um tema esgotado, Schloendorf argumenta que nem cem anos serão suficientes para se fazer esquecê-lo. Na Alemanha de hoje, diz ele, depois dos livros e filmes sobre os crimes dos nazistas, agora se começa a dar atenção ao que sofreram as vítimas, não só na Alemanha, mas nos países vizinhos, como Luxemburgo.

Agencia Estado,

06 de agosto de 2004 | 13h58

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