Bryan Denton/The New York Times
Bryan Denton/The New York Times

Diretor de 'O Insulto' fala da importância de chegar à disputa do Oscar de filme estrangeiro

Longa conta a história de um mecânico cristão e um mestre de obras palestino que se enfrentam no tribunal

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2018 | 06h00

Ziad Doueiri está vivendo num turbilhão, e tudo por conta do Oscar. Já desde a shortlist, quando O Insulto foi pré-indicado para o prêmio da Academia de Hollywood, a vida do autor libanês mudou radicalmente. Com o filme entre os cinco finalistas que vão concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, tudo ficou ainda mais agitado. “São muitas entrevistas, muitos compromissos oficiais, mas estou feliz porque fizemos esse filme achando que seria importante. Se nada ocorresse, aí, sim, teria sido decepcionante”, ele avalia, em uma entrevista por telefone de Los Angeles.

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Na verdade, toda essa agitação começou em setembro, quando O Insulto foi premiado em Veneza - Copa Volpi de interpretação para Kamel El-Basha - e, ao regressar ao Líbano, Doueiri foi detido no aeroporto e a polícia confiscou seu passaporte, por conta de uma antiga pendência. Doueiri havia filmado parte de seu longa anterior - O Atentado, de 2012 - em Israel, país com o qual o Líbano está oficialmente em guerra. Como cidadão libanês, seu governo não lhe autoriza visitar o inimigo. “Estava voltando com o prêmio, todo mundo feliz. Foi desagradável, mas passou.” E agora? “Tem havido em toda parte uma torcida muito grande por O Insulto no Oscar.”

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São Paulo tem, talvez, a maior comunidade libanesa fora do Líbano no mundo, e a torcida é grande, desde que O Insulto inaugurou o Festival de Cinema Libanês da cidade, no ano passado. “Sei disso. É um carinho muito grande.”

O Insulto conta a história de um mecânico cristão e um mestre de obras palestino que se enfrentam no tribunal. Tudo começa por uma coisa pequena - uma discussão envolvendo o funcionamento de uma calha - e, de repente, as coisas escapam ao controle e não são só os litigiantes. O país inteiro está de novo dividido pela questão, evocando velhos fantasmas da Guerra Civil. Doueiri tem sua interpretação para o sucesso do filme. “Ele é sincero, fala ao coração das pessoas. É totalmente autobiográfico, mas não toma partido.”

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Como assim? “É autobiográfico, não no sentido de que esteja contando minha história, ou que tenha vivido essa situação no tribunal. Mas a Guerra Civil fez parte da minha formação, essa cultura do ódio que radicaliza as pessoas. Vivi mais da metade da minha vida no Líbano, depois estudei e fui filmar nos EUA (trabalhou como diretor de fotografia de Quentin Tarantino). Hoje me divido também entre a França. O Líbano é esse país explosivo que não consigo entender completamente. Esse dilaceramento faz a universalidade de O Insulto. Em Veneza, na América, não duvido que no Brasil. Em toda parte estamos vivendo situações de confronto, e ninguém está disposto a recuar pelo bem comum.”

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No filme, a juíza emite sua sentença - Doueiri é filho de juiz com advogada -, mas bem antes disso há um momento, a história de um carro avariado que já sinaliza para alguma coisa. Um entendimento? O filme é uma utopia? A crise do Oriente Médio tem solução? “É o que mais me perguntam. Sou cineasta, não analista político. Conto histórias. Se o Oriente Médio tem solução, não sei, mas a minha vida já mudou, e não é só por estar no Oscar, ou por estar ao telefone com você, falando essas coisas para o Brasil.” Tem a ver com a própria gênese de O Insulto. “Sempre pensei no filme como uma história simples que se torna complexa, simplesmente porque as coisas escapam ao controle. De conflitos domésticos a guerras entre nações, muita coisa começa assim.”

E Doueiri prossegue. “Minha ex-mulher e roteirista (Joëlle Touma) escreveu o filme e eu lhe devo muito. Partiu dela a ideia de que escrevesse as partes do refugiado e eu, por ser de família árabe, escreveria as cenas do cristão. Deu certo. Cada um de nós se colocou no lugar do outro e isso deu aos personagens sua humanidade visceral. Podem dizer tudo de nosso filme, menos que é maniqueísta.” Ex-mulher roteirista, mãe advogada, a presença feminina é forte no filme. A juíza só fala o estritamente necessário. Vive mais pelo olhar. “Pouca gente nota ou me fala, mas é uma das personagens mais construídas. Não podemos esquecer que O Insulto é um filme de tribunal, e que se trata de um gênero específico. Há que seguir certas regras, e ao mesmo tempo subvertê-las, retirar o público da sua zona de conforto. Quentin (Tarantino) faz isso muito bem.”

Os atores - o premiado Kamel El-Basha e Adel Karam. Na visão do diretor, não teria sido mais justo dividir o prêmio, em Veneza? “Fiquei feliz por Kamel, mas concordo totalmente. E vou lhe dizer: após a premiação, a jurada Annette Bening me disse que, pelo júri, o prêmio teria sido tríplice. Para Kamel, Adel e o ator que faz o advogado de acusação. Foi a organização do festival que pediu que o prêmio fosse individual, e isso beneficiou Kamel.”

 

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