Diretor de 'O Carteiro e o Poeta' assina o remake de 'Elsa & Fred'

Longa é protagonizado por Shirley MacLaine e Christopher Plummer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2014 | 03h00

Algo se passa em Elsa & Fred, mas é só na segunda metade do filme, quando o espectador está-se perguntando se faz sentido um remake da produção argentina de Fred Carnevale. Você se lembra. O casal de velhos, e Manuel Alexandre, que realiza o sonho de China Zorrilla, que idolatra o clássico de Federico Fellini, A Doce Vida, e sempre se imaginou dentro da Fontana di Trevi, como a mítica Anita Ekberg. Tudo isso vai se repetir na versão norte-americana, e algum cinéfilo há de se perguntar - por quê? O filme argentino, afinal, era tão bom.

Michael Radford é o diretor, e ele tem familiaridade com a cultura latina, com a italiana. Radford foi quem assinou O Carteiro e o Poeta, adaptado do livro de Antonio Skármeta e, para falar a verdade, na entrevista que deu ao Estado esta semana, a musa Maria Grazia Cucinotta deixou subentendido que a alma do filme é Massimo Groisi (o carteiro) e que Radford se apropriou do trabalho do ator, quando ele morreu. Groisi não só animara com sua extraordinária presença o filme cultuado. Também teria sido, foi o que sugeriu Maria Grazia, o diretor de fato. Ela não há de ter feito nenhuma intriga, mas Radford é um diretor apreciável, e ama a Itália - sua paisagem, seu cinema.

Elsa & Fred já era uma apropriação pós-moderna do filme com que Fellini captou as mudanças comportamentais que iriam marcar toda a década de 1960, os chamados anos que mudaram tudo. Radford não apenas refilma Elsa & Fred. Mais até do que Carnevale, ele quer fazer seu comentário sobre o gênio de Fellini, notório mitômano e um mentiroso que, à força de tanto tecer fantasias, terminava por acreditar nelas. É o que faz o ex-marido de Elsa, quando visita Fred em sua casa. O que ele fala sobre a ex-mulher é, na verdade, o que os críticos sempre disseram de Fellini. Il grande buggiardo/o grande mentiroso. Elsa é mitômana, e o ex-marido alerta Fred - perdê-la foi a pior coisa que aconteceu em sua vida. Isso fortalece em Fred a convicção de que tem de realizar o sonho de Elsa. E ambos partem para a Itália, para uma Roma feita de cinefilia (e encantamento).

Em 1960, quando Anita Ekberg entrou naquela fonte acariciada pelo olhar de Marcello Mastroianni, uma certa Shirley MacLaine, que se iniciara anos antes com Alfred Hitchcock (O Terceiro Tiro), também fazia história em seu primeiro Billy Wilder - Se Meu Apartamento Falasse. Para muita gente, é o maior Wilder, e talvez seja mesmo. Se Fellini ganhou a Palma de Ouro em Cannes, Wilder, com The Apartment, venceu seu segundo Oscar (após Farrapo Humano, de 1945). Shirley fazia a ascensorista da firma. Levava Jack Lemmon em sua irresistível ascensão dentro da empresa, e ele, que secretamente a ama, empresta a chave do apartamento para que o chefe leve a ‘sua’ garota. A subserviência é o segredo do seu sucesso.

Radford sabe de todas essas coisas. Não foi por acaso que escolheu Shirley MacLaine para substituir China Zorrilla - nem Christopher Plummer para ocupar a vaga de Manuel Alexandre. É como se ele quisesse passar uma ‘mensagem’. Alexandre China, os dois velhos, já não deixavam de ser a versão paródica de A Doce Vida. Como é mesmo que dizia aquele Marx? Karl, não Groucho. A história, que se faz como tragédia, repete-se como farsa. Somente pelos olhos de Alexandre China pode ser Anita, que, no filme de Fellini, aliás, se chama ‘Sílvia’. Com aquela roupa, o preto básico, a estola branca, Shirley é quase uma caricatura, mas, na fantasia que é o cinema, Christopher Plummer a olha com a ternura de Marcello.

Talvez Elsa & Fred não seja bom como o filme argentino, que não era bom como o de Fellini. Mas ao falar de uma mitômana (Elsa), para iluminar outro mitômano (Fellini), Radford fecha seu filme da maneira mais bela que há. O filme todo Elsa fala do desenho que Pablo (Picasso) teria feito dela. Para Fred é outra de suas mentiras, mas será? O grande luxo de Elsa & Fred está numa assinatura, a da trilha. Quando Nino Rota, seu ouvido musical, morreu, Fellini apelou a Luis Enriquez Bacalov para substituí-lo. Bacalov compôs a trilha de O Carteiro e o Poeta para Radford. Faz a trilha ‘felliniana’ de Elsa & Fred. E ah, sim, num álbum do começo dos anos 1990, Bacalov já reinventara Nino (Luis Bacalov Plays Nino Rota). Um filme com esse grau de carinho merece respeito.

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