Cena de 'Numa Escola de Havana'
Cena de 'Numa Escola de Havana'

Diretor de ‘Numa Escola de Havana’, Ernesto Daranas diz que o filme é parábola sobre o país sonhado

Sala de aula seria 'um espaço onde se respeitem as diferenças e o critério de todos conta e o sentido comum supera as manipulações do burocratismo e da política'

Entrevista com

Ernesto Daranas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2015 | 04h00

Tem havido uma forte presença do cinema latino-americano neste ano, em São Paulo. Um dos mais belos filmes de 2015 – um dos dez mais –, até agora, com certeza foi o peruano Casadentro, de Joanna Lombardi. A ele soma-se o cubano Numa Escola de Havana, de Ernesto Daranas. São dois centrados em personagens femininas, e idosas. A velha que vive com a doméstica e o cachorro, e que recebe a visita da filha, no peruano. A velha professora e o aluno rebelde que ela tenta defender, no cubano.

Na entrevista realizada por e-mail, Ernesto Parano destasca o aspecto político de seu filme. E diz – “A aula de Marcela (a maestra) talvez seja uma parábola sobre uma Cuba possível, um espaço onde se respeitem as diferenças e o critério de todos conta e o sentido comum supera as manipulações do burocratismo e da política. Carmela enfrenta um bloqueio interno tão grave como aquele que os EUA nos impuseram durante mais de meio século.”

Seu filme apresenta dois personagens que são universais e marginais. O garoto que sofre as consequências de sua família disfuncional e a professora que não se enquadra mais num mundo em processo de mudança. Como você chegou a essas figuras?

 Através da própria realidade e do trauma que provoca em fiolhos, pais e professores uma crise econômica que, no caso de Cuba, dura um quarto de século. Está sendo um longo processo de deterioração, com inevitáveis repercussões na família, na escola e na sociedade. Nesse sentido, as mudanças que ocorrem em Cuba não oferecem respostas reais às inquietudes, necessidades e expectativas da maioria dos cidadãos.

O filme faz uma crítica social muito forte, mas tenta ir além, ao retratar a interioridade das figuras em cena, sejam a velha professora, o garoto ou a mãe dele. Houve algum tipo de pesquisa na criação desses personagens?

 Com efeito, no desenvolvimento do roteiro e dos personagens pesou muito o trabalho de campo que fizemos em escolas nos bairros mais populares de Havana. A isso é preciso somar as vivências dos próprios garotos e garotas do filme e também as dos alunos da Faculdade de Cinema, com os quais trabalhamos. Isso permitiu dispor de pontos de vista diversos, incluindo diferentes gerações. A história e os personagens terminaram sintetizando tudo isso.

A estrutura da escola – a professora, a diretora, a assistente social etc –  revela como funciona a burocracia educacional de Cuba. A professora é velhas, as outras, mais jovens. A mudança de gerações, a eficiência do mercado também chegou a Cuba? De que maneira o filme reflete as mudanças recentes e a própria reaproximação com os EUA?

O sistema educional é apenas um pretexto para falar de problemas que são inerentes a quase todas as instituições oficiais, e não apenas de Cuba. A aula de Carmela é um contraponto ao estado das coisas – talvez uma parábola sobre uma Cuba possível, um espaço onde se respeitem as diferenças e o critério de todos conta e o sentido comum supera as manipulações do burocratismo e da política. Carmela enfrenta um bloqueio interno tão grave como aquele que os EUA nos impuseram durante mais de meio século.

A história do santo que a garota põe no quadro é muito interessante. A religião segue sendo um tema tabu em Cuba?

Não é. Nesse momento existe liberdade de credo em Cuba. Depois de muito tempo de um ateísmo imposto, o regime terminou por se render à evidência de que as coisas que estão na essência da consciência de um povo não podem ser abolidas por decreto. Isso é coisa que os brasileiros entende um uma forma muito parecida, dadas as similaridades de nossas formações culturais. Como em quase toda parte, o ensino em Cuba é laico e, por consequência, não se permitem imagens religiosas nas escolas. Mas o santinho chega ao mural de aula numa circunstância muito específica que Carmela entende que tem de respeitar, contra todo o dogma educacional.  Nossa Senhora da Caridade do Cobre é santa protetora de Cuba, é um símbolo de união. Uma imagem que apela à importância de tradições e valores reais de uma nação, muito além das manipulações e conjunturas da política.

Temos de um lado a religião no filme e, de outras, a violência das brigas de cachorros. Seriam essas últimas mais aceitáveis para o regime?

As brigas de cães são algo relativamente novo. Quando eu era jovem, isso não existia e eu vivi sempre no mesmo bairro do filme. É algo que está proibido, mas que prolifera no âmbito urbano como expressão de uma violência contida e da ausência de alternativas e referências adequadas.

Temos o problema do garoto no filme, e o da professora. Do ponto de vista dramatúrgico, você considerou outras possibilidades de desfecho para o seu drama? O filme provocou algum tipo de debate?

Um filme não resolve problema nenhum, mas pode contribuir para a toma de consciência que qualquer solução verdadeira exige. Não podia dfar a Chala, o garoto, e Carmela, a maestra, um final que a realidade não me oferece. O máximo que podemos fazer é destacar o enorme valor das coisas que se perdem, e entre elas está com certeza a honestidade e dignidade de uma professora como ela. E, na verdade, longe de se sentir atingido, o Ministério de Educação de Cuba se apossou do filme e promoveu debates em todas as escolas do país. Apesar da crise, o sistema de ensino de Cuba continua tendo um nível elevado ao de muitas nações e, nesse momento, há o interesse expresso de resgatar muitas das coisas de que o filme trata. Lamentavelmente, a maioria dos problemas de Cuba e do mundo têm origem nas desigualdades crescentes,m na corrupção e numa crise que se reflete (e rebaixa) o sistema educativo.

Você diria que seu retrato da escola e da sociedade cubanas é acurado? Realista?

O realismo não me interessa, a realidade é o que vemos quando saímos à rua. Não é preciso ir a um cinema para isso. A veracidade é muito mais complexa e interessante. O que buscamos com Numa Escola de Havana foi uma aproximação verídica em relação a algumas de nossas inquietações enquanto povo. A empatia que o filme logrou estabelecer com o público está ,muito relacionada com isso e com a maneira que as pessoas sentiram que suas vidas, e conflitos, e sonhos estavam refletidos nos personagens.

O menino com as pombas evoca Kes, de Ken Loach; o menino e a mãe, e a escola, tem tudo a ver com Os Incompreendidos, de François Truffaut; e também se pode evocar Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, que ganhou a Palma de Ouro. Você conhece todos esses filmes? Serviram como referências?

Você cita três filmes que são excelentes referências sobre a importância da veracidade sobre o realismo chato. As três destacam-se pela compreensão da complexidade de crianças e adolescentes, e pelo rigor na abordagem da construção da identidade e das causas de sua rebeldia. Era isso o que buscávamos.  Mas não posso omitir que tive também duas grandes referências de filmes brasileiros, e foram Cidade de Deus (de Fernando Meirelles) e Central do Brasil (de Walter Salles).

O menino Armando Valdés Brito é extraordinário. Como o encontrou? E como foi trabalhar com todo o elenco jovem?

Enquanto escrevias o roteiro, pensava em crianças vindas do mesmo lugar em que se passa a história. Crianças que, por suas vivências, fossem capazes de acrescentar o tipo de verdade que a história exige. Em função disso, os alunos da Faculdade de Cinema de Havana fizeram uma busca imensa entre muitas escolas dos bairros populares da cidade. No toptal, mais de 7 mil garotos e garotas passaram por nossa sala de casting. O grupo que resultou foi arduamente preparado por nossa diretora de elenco, Mariela López. Criamos uma oficina para que eles trabalhassem muito com improvisações e escrevemos cenas que não estão no filme, mas permitiram que os jovens entrassem no mundo interior dos personagens. Só depois disso começamos a trabalhar com o roteiro, e sempre com o cuidado de não viciar nossos garotos e garotas, para que chegassem frescos ao set. Em  função dos personagens, recebiam treinamento de dança, boxe, natação e até de manejo de animais. E só se encontraram com o elenco adulto no set, quando se pode dizer que houve um duplo impacto, de ambos os lados. Nossos jovens estavam tão preparados que o desafio para os adultos era entrar em seu jogo, de igual para igual. No que se refere a Armando, que faz Chala, ele apareceu no último dia do processo e não foi selecionado. Mas algo que nunca consegui explicar me fez pedir que voltasse. Armando parecia ter muito pouco a ver com o Chala que buscava, mas sua inteligência, sensibilidade e o talento me revelaram facetas que eu ignorara do próprio Chala. Foi como se o ator e o personagem avançassem em direção um ao outro, até se converterem numa unidade. Armando acaba de Entrar na Escola Nacional de Arte. Estou muito feliz por ele.

A velha professora merece todos os prêmios do mundo. Me deu muita tristeza saber que Alina Rodriguez morreu há algumas semanas. Como foi o trabalho com ela?

Alina sempre foi, e isso muito antes de interpretar Carmela, uma das atrizes mais queridas de Cuba, com atuações antológicas na televisão e no cinema. Como qualquer diretor cubano, eu sonhava poder contar algum dia com ela. De cara ela revelou imensa habilidade para se relacionar com as crianças, e com Armando. As cenas de aula foram muito complexas porque, embora preparados, os niños eram tão inquietos e pícaros como os personagens. Alina soube ser uma verdadeira Carmela para eles, irradiando a autoridade que a professora tem sobre eles. Era uma mulher alegre, honesta e rebelde. Mais de uma vez, disse que Carmela lhe permitia expressar muitas de suas inquietações e convicções pessoais sobre Cuba. Isso talvez ajude a entender porque era tão querida, e porque sua morte nos doeu tanto. 

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