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Diretor de ‘Luz, Anima, Ação!’ conta história da animação brasileira e atesta boa fase

Filme, em cartaz no festival Anima Mundi, pediu a animadores que refizessem filme pioneiro perdido

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2013 | 19h33

Em Luz, Anima, Ação! o que se vê é uma bela história, a do cinema de animação brasileiro. Dirigido pelo estreante, em longas-metragens, Eduardo Calvet, o filme traça um surpreendentemente amplo painel desse gênero no Brasil, vindo dos primórdios, com o pioneiro desenho Kaiser, de 1917 até o momento presente, que parece bastante promissor com a vitória de Uma História de Amor e Fúria, de Luis Bolognesi no Festival de Annecy (França).

Num estilo ágil, Calvet mescla imagens de desenhos animados com entrevistas dos principais diretores, como Mauricio de Souza, Walbercy Ribas, Otto Guerra e outros. Passa pelos diversos módulos em que a animação modula a cultura nacional, da publicidade aos temas corrosivos, como os caubóis gays de Otto Guerra que, como lembra o diretor, foram "precursores" do badalado O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, que introduz a homossexualidade no Oeste americano.

Criando uma linha bastante visível que liga os diversos pontos do filme, Calvet pede a diversos animadores contemporâneos que recriem o pioneiro de todos eles, Kaiser, o desenho perdido de Alvaro Marins, conhecido como Seth. Luz, Anima, Ação! é divertido e consistente. Dá ao espectador uma visão bastante ampla do que foi a saga dos animadores brasileiros. Abaixo, a entrevista com o realizador Eduardo Calvet.

O longa será exibido nesta quarta (14), às 16h30, no Espaço Itaú de Cinema Augusta (R. Augusta, 1.475, 3288-6780), dentro do festival Anima Mundi.

Gostaria que você me dissesse como surgiu o projeto para o filme.

O projeto surgiu de uma vontade antiga de me envolver com a animação brasileira. As propagandas da Sharp, Homenzinho Azul do Cotonete (Walbercy Ribas) e Frango da Sadia (Daniel Messias) sempre fizeram parte de um mundo mágico da minha infância vendo televisão. Com o passar dos anos, ao me tornar cineasta, essa proximidade com a animação voltou. Eu já havia feito alguns curtas documentais e uma série documental para o Canal Brasil e em 2010 tive a idéia de contar a história da animação brasileira.

Você teve muita dificuldade para pesquisar as imagens. Quais foram os principais desafios?

A pesquisa foi intensa, liderada pela pesquisadora da PUC-Rio, Cláudia Bolshaw. A maior dificuldade foi de contar a história dos pioneiros da animação brasileira pois são filmes que datas das primeiras décadas do século passado e alguns, até mesmo o nosso filme pioneiro chamado O Kaiser, de 1917, havia sido perdido. Nossa estratégia então foi procurar toda a documentação histórica e jornais de época para ajudar a resgatar essas histórias. A pesquisa de um dos entrevistados, Antônio Moreno, que escreveu um livro nos anos 80 sobre a animação brasileira, foi muito importante para ajudar a contar essas aventuras desbravadoras.

Como fez para selecionar os pontos mais relevantes numa história vasta como é a animação brasileira?

A seleção foi feita através da importância histórica e através do depoimento dos historiadores da animação brasileira como o próprio Antônio Moreno, Marcos Magalhães e Arnaldo Galvão. Conseguimos contar a história de boa parte dos longa-metragens brasileiros, a nata dos filmes publicitários, a produção regional liderada por Otto Guerra no Rio Grande do Sul e Chico Liberato na Bahia, assim como valorizar artistas vanguardistas como Roberto Miller e a importância do Núcleo do CTAV nos anos 80. Mesmo assim, certamente muitos filmes relevantes ficaram de fora do longa-metragem, visto que a animação brasileira cresceu muito nos últimos 20 anos.

Quais na sua opinião os pontos fortes dessa história?

A animação brasileira pode ser considerada heróica em toda a sua primeira metade, com animadores quase que sozinhos produzindo suas obras. A publicidade teve um papel chave pois foi a primeira vez que a animação passou a ser rentável, uma legião de animadores começou a ser formada e foram produzidos centenas de filmes que se tornaram clássicos, alguns deles até recebendo prêmios internacionais como a Barata Rodox (Leão de Veneza em 1972). Outro ponto bem marcante da animação brasileira é a trajetória de Otto Guerra que possui mais de 30 anos como animador e era o único animador a produzir um longa-metragem durante a pior crise que viveu a animação brasileira durante o governo Collor. É incrível rever a trajetória brava deste animador que este ano lança seu novo filme Até que a Sbórnia nos Separe.

O presente sucesso desse gênero no Brasil sugere que estamos entrando em uma era de ouro da animação ou este pode ser um fenômeno passageiro?

Eu diria que o recente prêmio ganho em Annecy com "Uma história de Amor e Fúria", dirigido por Luiz Bolognesi, abre uma Era de Prata para a animação brasileira e mais prêmios virão. Tanto O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, quanto Até que a Sbórnia nos Separe são filmes que prometem, assim como as novas séries brasileiras estão tendo ótima receptividade no Brasil e no exterior. Historietas Assombradas é o programa mais assistido por crianças de 4 a 11 anos na TV a cabo, por exemplo.

Como teve a ideia de pedir para animadores brasileiros reconstruírem o primeiro filme de animação, uma espécie de grau zero da animação brasileira?

Como a primeira animação brasileira O Kaiser foi perdida e só haviam as matérias de jornal de 1917, decidi fazer uma espécie de homenagem ao pioneiro brasileiro. Seria uma forma dos animadores conversarem sobre como teria sido essa produção do Álvaro Marins (também conhecido como Seth). Convidamos os animadores Marão, Marcos Magalhães, Stil, Fábio Yamaji, Pedro Iuá, Diego Akel, Rosana Urbes e Zé Brandão para fazer essa obra animada coletiva que assina o longa-metragem.

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