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Diretor de 'Guerra nas Estrelas', George Lucas analisa o futuro dos efeitos especiais

Há três anos, ele vendeu seu império, Lucasfilm, à Disney por US$ 4 bilhões para se dedicar à filantropia e paternidade; veja vídeos

Marco R. della Cava/São Francisco, USA Today

22 de junho de 2015 | 03h00

Pergunte a George Lucas o que ele acha do próximo filme da saga Guerra nas Estrelas - o primeiro em que o criador da série não teve participação direta - e ele se transforma no sagaz Obi-Wan Kenobi.

“Estou muito ansioso para ver o que fizeram com ele”, diz Lucas. “Sabe, não vou estar por aqui por 100 anos. Você chega aos 70 e compreende que levará uma década para fazer um grupo desses novos filmes. Portanto, é hora de perceber que Guerra nas Estrelas precisa de outras pessoas.” 

Três anos atrás, Lucas, de 71 anos, largou direção e produção para se dedicar à filantropia e paternidade - ele e sua mulher, a empresária Mellody Hobson, de 46 anos, tiveram uma filha, Everest, que nasceu de barriga de aluguel em 9 de agosto de 2013 - depois de vender seu império, Lucasfilm, à Disney por US$ 4 bilhões.

Mas o ícone da Califórnia do Norte tem outro legado capaz de rivalizar com Guerra nas Estrelas: a Industrial Light & Magic (ILM), a companhia de efeitos especiais que ele fundou há 40 anos para mover uma saga do espaço sideral de sua imaginação para a telona. 

Em quatro décadas, a ILM não só forneceu efeitos mais e mais bem acabados para a série de seis filmes, como também criou momentos cinematográficos inesquecíveis, dos dinossauros enfurecidos de Parque dos Dinossauros à onda monstruosa de Mar em Fúria. Até agora, a ILM contribuiu com efeitos para cerca de 320 filmes e ganhou 16 Oscars.

Nossa conversa exclusiva com Lucas, que está editada por causa do espaço, variou da aurora dos efeitos especiais (uma necessidade dispendiosa na época) a seu estado comercial corrente (frágil nos EUA).

Descreva o papel da tecnologia na produção de cinema.

É um meio para um fim, que é contar uma história. Considere as primeiras pinturas de caverna. Havia alguém fazendo desenhos com carvão, depois alguém acrescentou cor com uma pedra ocre. No cinema, a mais tecnológica das formas de arte, havia histórias que não se conseguiam contar. Aí, você procura e acha solução.

Qual foi o desafio no primeiro filme de 'Guerra nas Estrelas'? 

Naquela época, o ápice tecnológico era 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas o problema é que não se podia fazer uma panorâmica. Agora (o diretor Stanley), Kubrick queria um filme silencioso, mas eu estava contando uma fantasia espacial. De modo que (o pioneiro de efeitos especiais) John Dykstra teve de criar uma nova tecnologia que permitisse uma porção de movimentos de câmera - panorâmicas, cortes, inclinações. Tive de começar uma companhia do zero para fazer Guerra nas Estrelas.

Temia que sua visão de tecnologia não pudesse ser realizada? 

Claro. Tinha colocado todos os meus lucros de Loucuras de Verão na ILM, mas, quando voltei da filmagem (de 'Guerra nas Estrelas') em Londres, eles ainda não haviam completado nenhuma tomada. Era agosto, e o filme estava programado para sair em maio. Foi um drama, para dizer o mínimo.

Quando percebeu que a ILM seria mais do que um projeto pessoal favorito? 

Logo que terminei Guerra nas Estrelas. Steven (Spielberg) estava trabalhando em alguns filmes, e eu estava fazendo Caçadores da Arca Perdida, e tudo parecia depender de efeitos especiais. Quando meus amigos (cineastas) ficavam me dizendo, ‘ei, pode fazer isso para mim?’, foi que eu percebi.

Os dinossauros de 'Parque dos Dinossauros' foram uma espécie de marco para a ILM.

Começamos a visualizar as coisas nos primeiros computadores da Pixar (a gigante de animação que hoje pertence à Disney), mas o Santo Graal era fazer alguma coisa bem acabada e real. Fizemos (a criatura de água) em O Segredo do Abismo e criaturas toscas em Willow - Na Terra da Magia, mas nada como fazer um dinossauro que parecesse filmado em locação. Esta foi a grande jogada.

Esse salto levou a mais flexibilidade na narração de 'Guerra nas Estrelas'.

Certo, depois de Parque dos Dinossauros, eu poderia fazer um Yoda em tamanho real capaz de falar e atuar, o que levou a criaturas como Jar Jar Binks e outras, que foi o desenvolvimento de atores fotorrealistas, que podiam ser usados em trabalhos de dublês.

Muitas empresas de efeitos especiais americanas estão enfrentando uma dura concorrência de empresas do exterior. Quais são as suas perspectivas para o futuro? 

Temo que, nos próximos 10 a 20 anos, não haverá mais empresas de efeitos especiais nos Estados Unidos. É como as coisas são, as pessoas migram para onde podem fazer o melhor negócio. É difícil competir com companhias que podem lhe oferecer 30% de desconto (para um projeto de efeitos especiais) quando, em geral, a margem desse trabalho é da ordem de 5%. Todos buscam a mais alta qualidade que podem conseguir, pelo mínimo de dinheiro. A ILM ainda tem sua sede aqui, em Bay Area. 

Você parece muito orgulhoso da cabeça de ponte cinematográfica que criou aqui. 

Quando mudei a ILM (Industrial Light & Magic) de Van Nuys (em Los Angeles) para Bay Area (em 1978), estávamos dizendo que não é preciso estar em Hollywood para fazer filmes. As pessoas nos diziam que não se poderia fazer isso, mas eu e meus amigos (de Francis Ford Coppola a Chris Columbus) pensávamos diferente. Fizemos alguns dos maiores e mais bem-sucedidos filmes da época, os filmes tecnologicamente mais avançados de todos os tempos, conquistando muitos prêmios da Academia. Tudo foi feito aqui.

Os efeitos especiais provocaram uma explosão dos filmes de ficção científica e fantasia?

As pessoas sempre foram interessadas em filmes de fantasia, tanto é que o cinema começou como um ato de mágica. Elas adoram ver coisas que não veem na vida real, e isso remonta a Viagem à Lua (1902) de Georges Méliès. De muitas maneiras, a tecnologia permitiu a volta dos épicos. Nos velhos tempos (de filmes de Cecil B. DeMille), era possível contratar 10 mil extras. Hoje, porém, com os efeitos especiais você pode ter mil Stormtroopers correndo, ou trazer de volta Troia.

Você já era apaixonado por tecnologia quando estava estudando cinema?

Não. Eu era interessado por cinema mesmo enquanto fazia (seu filme de estudante) THX-1138. Eu só terminei gastando o dinheiro para ajudar a construir efeitos especiais melhores para poder fazer filmes melhores. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

 

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