Amazon Prime
Amazon Prime

Diretor de 'Evangelion' explica como finalmente encontrou o final da saga

'Evangelion:3.0+1.0: Thrice Upon a Time' é o filme que os fãs de animação esperavam há 25 anos; leia entrevista de Hideaki Anno

Charles Solomon, The New York Times

10 de agosto de 2021 | 17h00

Finalmente. Evangelion:3.0+1.0: Thrice Upon a Time,  de Hideaki Anno, começa a ser exibido no Amazon Prime em 13 de agosto, é o filme que  os fãs da animação esperavam há 25 anos. O quarto e último episódio da “recriação” da série de TV de 1995-96, Neon Genesis Evangelion, traz a aventura épica a uma conclusão definitiva.

É um trabalho complexo e emocionante que mistura batalhas de robôs gigantes com símbolos cristãos apocalípticos, misticismo judeu, e a angústia adolescente, Evangelion está entre as séries mais debatidas na história da animação. Sua influência é ampla e inclui fantasias animadas japonesas e a aventura de ficção científica de 2013 de Guillermo del Toro, Círculo de Fogo. E os fãs continuam a debater o significado, o subtexto e detalhes da série.

“Minha influência de outros criadores não é alguma coisa sobre a qual eu penso quando estou dirigindo um filme”, disse-me Hideaki Anno em uma entrevista. “Eu decido o que fazer com base no que melhor me adapto e no que mais me interessa no momento. O projeto do Evangelion voltou à minha mente muitas vezes e assim  realizei os novos filmes. Não acho que esse tipo de oportunidade surja novamente”.

Na série, que acontece num futuro não muito distante, a humanidade está presa numa batalha mortal com bizarras criaturas assombrosamente poderosas conhecidas como Anjos. As únicas armas eficazes que possuem contra eles são os Evangelions, ou Evas, ciborgues gigantescos pilotados por adolescentes. O herói é Shinji Ikari, um alienado garoto de 14 anos que é recrutado pelo seu brutal pai para pilotar o Eva 01.

Apesar de sua popularidade, Evangelion nunca teve um final satisfatório. A série original não solucionou a trama intrincada, com suas implicações teológicas e ontológicas. Pouco antes de seu lançamento, Anno escreveu que o havia criado depois de quatro anos de uma grave depressão, quando estava “um trapo, incapaz de fazer qualquer coisa” e que “a história não tinha chegado ao fim na minha cabeça”.

“Não sei o que sucederá com Shinko ou os outros personagens, ou para onde irão”, ele escreveu na ocasião.

Claramente, Anno não estava satisfeito e continuou sua busca por uma conclusão, reeditando os últimos episódios e reformulando-os em Death & Rebirth (1997), e depois no segundo longa de 1997, The End of Evangelion.

Em 2002, Hideaki Anno anunciou planos de uma série de quatro capítulos, reconstruindo e reimaginando a história, agora livre dos limites financeiros e tecnológicos que havia enfrentado antes. Evangelion: 1.0 Your Are Not Alone, de 2007, foi um novo relato exuberante dos seis primeiros episódios de TV. Evangelion: 2.0: You Can (Not) Advance, em 2009, e Evangelion: 3.0 You Can (Not) Redo, em 2012, levaram os personagens e a história para direções totalmente novas. Nove anos depois, Thrice Upon a Time leva a saga a uma conclusão surpreendentemente otimista.

Falando de Tóquio pelo Zoom, Anno disse que “para a recriação da série quis que o primeiro Evangelion fosse similar à série de TV, no segundo a história mudaria aos poucos e o terceiro e no quarto seriam completamente diferentes. Desde o primeiro não queria fazer a mesma coisa da série de TV.

Esses quatro filmes mostram as habilidades de Anno no uso da tecnologia gráfica da computação para criar iterações poderosas das suas ideias originais. Na série de TV, quando tropas atacaram o Anjo Ramiel, elas destruíram os humanos e suas armas numa série de explosões comuns; em You are (Not) Alone, o público quase consegue sentir o calor quando o Anjo reduz os tanques e os mísseis a um monte de entulho reluzente.

Na recriação, Anno também se aprofunda na psique frágil dos seu herói fracassado e traumatizado e as excêntricas personalidades em torno dele. Quando descreveu seu enfoque dos personagens, ele falou com uma intensidade que atravessou as fronteiras linguísticas.

“Na animação nada é real. Mas eu quis trazer um sentido de realidade para este mundo imaginário - quis tornar os personagens mais humanos”, explicou. “Há uma discrepância entre o que as pessoas falam na vida real e o que realmente elas querem dizer. Na animação, a menos que os personagens estejam mentindo intencionalmente, eles sempre deixam clara a sua intenção. Quis reverter isso: quando os personagens de Evangelion falam, eles não deixam claro o que estão querendo dizer. Quis acrescentar esse comportamento humano à animação”.

“As pessoas percebem que Shinji é um herói inusitado. Acho que isso se deve à sensação de realidade que eu quis inserir, com base na minha experiência e conhecimento. Mas Shinji e os outros personagens não são apenas um reflexo da minha pessoa; há outros elementos das personalidades de todos os artistas na equipe de criação”.

O Evangelion original foi um enorme sucesso que ajudou a reverter um colapso do setor de animação japonês. Quando o episódio final foi lançado em março de 1996, mais de 10% de todos os aparelhos de TV no Japão estavam ligados na série. Evangelion continua popular, com centenas de milhões de dólares em vendas de vídeos e merchandising relacionado a ele. Os filmes mais recentes continuam esse sucesso: Thrice Upon a Time, lançado no Japão em 3 de março e exibido por mais de 135 dias nos cinemas japoneses, rendeu mais de US$ 93 milhões - apesar da pandemia.

Refletindo sobre essa popularidade que continua, Anno disse: “Como criador, desejo produzir coisas que entretenham, mas também tenham profundidade. Não queria que nosso filme fosse um tipo de entretenimento que fosse uma fuga da realidade. Meu desejo é de que as pessoas o vejam e se sintam encorajadas a seguir sua própria vida”.

Anno está mudando para filme de ação no seu próximo projeto. Em abril a Toei Co. anunciou que ele dirigirá Shin Kamen Rider, como parte da comemoração do 50º aniversário do popular super-herói, com lançamento planejado para março de 2023.

Indagado como se sentiu ao dizer adeus a Evangelion depois de mais de 25 anos, Anno declarou: “Não sinto necessidade de ver Shinko e os outros personagens tão cedo. Mas isso não significa que não quero vê-los nunca mais: chegará um momento em que nos encontraremos de novo”. / Tradução de Terezinha Martino 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.