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Diretor de 'Canastra Suja', Caio Sóh finaliza 'filme reality' feito com celulares

Ainda com filme em cartaz, cineasta prepara 'Hashtag', seu quinto longa, captado inteiramente por celulares

Amilton Pinheiro  , Especial para o Estado

26 Junho 2018 | 06h00

Em um dos trechos da música Índios da Legião Urbana, Renato Russo já profetizava: “Mas nos deram espelho / E Vimos um mundo doente”. É sobre o mundo doente das redes sociais que o diretor Caio Sóh vai falar no seu quinto longa, Hashtag, que será lançado em 2019. “O celular engoliu nosso relógio, cartas, GPS, calculadora, máquina de escrever, banco, vitrola, etc., e incorporou um protagonista na vida de todos; a câmera”, diz o diretor.

Outros longas captados por celulares (iPhone e smartphone) já foram lançados, como Tangerine do diretor Sean B. Baker e o último filme do prestigiado Steven Soderbergh, o suspense Unsane, e Charlote SP, de Frank Mora. Mas a proposta do cineasta Caio Sóh é mais radical. Não é somente rodar um filme com celular, mas usar a vida real dos próprios atores na história do longa, filmados por eles mesmos.

Nas filmagens, o diretor procurou entender em que momento o ator com um celular na mão passa a ser personagem. “Propus que os atores investigassem os próprios celulares para observar o que poderia ter na vida deles que serviria para exibir uma origem mais reservada do personagem”, diz.  

Mesmo tendo quatro filmes na bagagem – Teus Olhos Meus, de 2011, ainda não lançado nos cinemas, Minutos Atrás, de 2013, Por Trás do Céu, de 2017, e Canastra Suja, em cartaz (leia texto abaixo) –, o diretor Caio Sóh é pouco conhecido no meio cinematográfico. Seus filmes, com exceção de Por Trás do Céu, que teve um aporte financeiro da prefeitura de João Pessoa, foram rodados sem nenhuma Lei de Incentivo. São trabalhos independentes que contaram com a colaboração das pessoas envolvidas, da equipe e, principalmente, dos atores. 

“Não me considero um cineasta no termo restrito da palavra, sou mais um artista de rua envolvido com a arte”, afirma. Como ele consegue convencer tantos artistas conhecidos para seus projetos com pouquíssima grana, como Adriana Esteves, Marco Ricca, Paloma Duarte, Vladimir Brichta, Paulinho Moska, Otávio Müller, Nathália Dill, Renato Góes e a cantora Maria Gadú?

“Faço com que todos participem ativamente dos meus projetos, que acreditem neles como proposta artística de um coletivo”, receita ele.

Hashtag aborda uma celebridade oriunda do mundo virtual. É a história de uma jovem, Bia, vivida pela modelo Rhay Polster, uma digital influencer, que tem 5 milhões de seguidores, mas que perde todos eles, sofrendo um verdadeiro linchamento virtual. Enquanto a mãe da jovem (Paula Burlamaqui) e a filha vivem em função desse universo digital, o resto da família passa por problemas reais, que não as sensibilizam. Um dos filhos (Léo Rosa) tem um câncer e só consegue contar para a mãe por e-mail. 

Caio Sóh filmou com cinco aparelhos de celulares, dois deles simultaneamente. Os outros eram dos próprios atores. No meio do processo, um dos atores descobriu que estava com câncer. Então, Caio decidiu incorporar a doença na vida do personagem e filmou o doloroso processo de tratamento. Entre outras histórias da vida dos atores que foram aproveitadas no filme estão o fim de um longo relacionamento amoroso, um implante capilar e o salvamento de gatos.

Fotografia e roteiro foram realizados dentro do processo, quando os atores filmavam passagens de suas vidas que poderiam ser usadas na história de Hashtag. “A ideia de multiplicar telas, de usar celulares, era para desconstruir o padrão retangular de projeção. Tentei tirar tudo do suporte como uma nova experiência”, explica.

Além de lançar Canastra Suja e de finalizar Hashtag, Sóh já começou a pré-produção de Otela, inspirado em Shakespeare. “Um Shakespeare anárquico, no qual Otelo será uma mulher negra, linda e homossexual. Shakespeare continua gritando”, finaliza o cineasta.

‘Canastra Suja’ exige dos atores uma entrega sem concessão

Quando filmou Canastra Suja, no segundo semestre de 2015, Caio Sóh só tinha um nome em mente para viver Maria, a mãe inconformada e infeliz de uma família suburbana carioca de classe baixa, Adriana Esteves. Ele falou com a empresária da atriz para entregar o roteiro a ela. Mas não acreditava que seria bem-sucedido. Adriana estava saindo em férias depois de vários trabalhos seguidos na Globo

Adriana leu o roteiro e, em seguida, ligou para Caio Sóh para dizer que ia adiar as férias para fazer o filme. “Essa personagem é minha, não chame mais ninguém. Vou me jogar nesse projeto, pode esperar. Tiro férias depois”, afirmou a atriz por telefone ao Estado no intervalo das gravações da novela de João Emanuel Carneiro, Segundo Sol, em que vive mais uma vilã, Laureta.

Em Canastra Suja, o pai, Batista (Marco Ricca), procura um tratamento para o alcoolismo, enquanto tenta, sem êxito, se relacionar amigavelmente com o filho Pedro (Pedro Nercessian). A mãe, Maria (Adriana Esteves), passa o dia em casa cuidando de uma filha autista (Cacá Ottoni), num cotidiano massacrante e infeliz. A filha mais velha, Emília (Bianca Bin), busca um relacionamento seguro entre seu patrão, dono da clínica onde trabalha, e o mecânico Tatu (David Junior).

O drama exige dos atores uma descida ao inferno. Maria usa anabolizante em busca do corpo perfeito e amarra a filha autista para poder encontrar o mecânico com quem tem um caso e que namora com sua filha Emília. Batista tenta se afastar do álcool para conviver melhor com seu filho, mas não consegue nem uma coisa nem outra. 

Com mão segura, o diretor Caio Sóh extrai dos atores interpretações realistas que captam toda a desumanidade em que vivem seus personagens. 

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