Chris Pizzello/Invision/AP, File
Chris Pizzello/Invision/AP, File

Diretor de ‘Birdman’ fala sobre o filme e diz que processo foi confessional

Indicado para 9 Oscars, incluindo melhor filme e melhor diretor, longa com Michael Keaton é um dos favoritos

Entrevista com

Alejandro González Iñárritu

Melena Ryzik - Hollywood Watch, HOLLYWOOD WATCH

16 de fevereiro de 2015 | 03h00

O público poderá sentir vertigens para acompanhar a metanarrativa de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). O filme de Alejandro González Iñárritu é sobre um astro do cinema hoje decadente, Riggan Thomson (Michael Keaton), que tenta recuperar um pouco do antigo prestígio com uma peça na Broadway - suas brigas com atores exibicionistas que interpretam atores exibicionistas - e que, ao longo do processo, perde o contato com a realidade.

“O que eu gosto é a pergunta: o que é arte e o que é o seu caráter comercial?”, questiona Iñárritu, que fez o thriller psicológico 21 Gramas e o drama em língua espanhola Biutiful. “Quantos ‘curtiu’ a gente precisa receber para saciar aquela necessidade de confirmação?” A linha do argumento, que se desenrola numa espiral, reflete-se no trabalho da câmera, coreografado por Iñárritu e seu cameraman, Emmanuel Lubezki, numa única tomada do tamanho do filme semelhante a um mergulho.

A ousadia técnica e a profundidade criadora colocaram Iñárritu, o cineasta de origem mexicana; seu elenco (que inclui Edward Norton e Emma Stone); e Lubezki em várias listas dos 10 melhores. Keaton, principalmente, muito apreciado por seu desempenho fantástico: a volta com a qual Riggan sonharia. “Honestamente, para mim a metarrealidade do filme foi algo muito divertido”, afirmou Iñárritu, rindo. Mas como já experimentou o carrossel do Oscar com Babel, em 2007, ele se mostra tranquilo com a batalha deste ano.

“Sempre considero a coisa de um lado um pouco diferente, porque o feliz indicado pode se frustrar em um segundo”, afirmou ainda. “A única coisa que aprendi é que estou muito grato pelo fato de o filme ter sido um experimento, em que todos nós tentamos expandir os limites do cinema, sua gramática, e por ele ter sido tão bem recebido.”

Iñárritu, de 51 anos, agora trabalha em The Revenant, um western épico estrelado por Leonardo Di Caprio. “Nunca houve um cavalo na minha carreira. Eles me apavoram, não sei como filmá-los”, revelou. “E é isso que me atiça.” Recentemente, durante uma pausa das filmagens em Los Angeles, ele falou de como superou seus medos em Birdman

Você já disse que se trata de uma história pessoal e que Birdman é o símbolo de sua voz interior. Foi uma terapia fazê-lo?

Pois é (ri), acho que foi uma espécie de terapia, um exorcismo, até certo ponto. E não é apenas o personagem de Riggan. Eu me identifico com cada um desses personagens, porque fui como eles ou os observei ou trabalhei com eles. Todos esses personagens fizeram parte da minha vida nos primeiros 50 anos.

O filme se afasta de suas outras obras em termos estilísticos, e é sua primeira comédia. Por que mudar de novo? 

Não acho que esteja mudando de assunto; acho que mudo a maneira de tratá-lo. Aprendi que posso ser muito tétrico, mas tenho um senso de humor muito aguçado, também. Ser inteligente é poder ter duas ideias ao mesmo tempo - você pode sentir felicidade e depressão, simultaneamente. Acho que este sujeito, na realidade, combate isto; é a dualidade que todos temos em nós. Às vezes, nos sentimos os reis do mundo e, meia hora depois, não somos nada. Faz tempo que penso nesta pergunta: “Você parece uma pessoa muito feliz. Por que você faz todas essas coisas lúgubres?” Eu sou o dia e a noite, todos os dias. Aceito isso.

Como foi trabalhar com outros três roteiristas sobre o argumento? 

Sempre gostei muito de trabalhar em colaboração. Convidei Nicolás (Giacobone), Armando (Bo) e Alexander (Dinelaris), e, se você conhece o que fizemos no nosso trabalho, jamais consideraria esta uma boa ideia. Eu disse: “Gente, vou propor para vocês a pior ideia do mundo”. Contei, e eles adoraram. Fomos para Nova York e fizemos juntos em San Miguel de Allende, em LA, sessões de uma semana ou dez dias, e depois, por mais de dois anos, nos reunimos pelo Skype. Foi um processo fascinante, engraçado, foi confessional. Foi um metaprocesso. Se alguém quisesse o crédito - “eu disse isso”, “eu fiz aquilo” - quando essas indicações do ego começaram a despontar, o roteiro se materializou. Eu queria trabalhar o tempo todo: não escrevi este argumento para atender à maior fonte de cultura popular agora, que é a ironia e o cinismo. Vejo isso nos meus adolescentes; tudo o que é sério, tudo o que é primitivo, é absolutamente rejeitado. Tudo tem que ser levado intelectualmente e com comentário sobre isso. Estou cansado disso. Tentei ser verdadeiro e honesto diante da questão. Seriamente engraçado significa ser verdadeiro.

O filme tem sido celebrado como um dos poucos que retiram a aparência de um take contínuo.

Tem sido objeto de muita atenção, tecnicamente. Não havia um monte de ciência ou realizações técnicas envolvidas nisso. O tecnicismo disso era muito primitivo. O verdadeiro desafio foi como executar a ideia. O que eu queria realizar era a ampliação do estado emocional do personagem, sustentar a emoção, o ritmo interno, o ponto de vista. Quando faço filmes de modo convencional, faço muita porcaria, que depois fico sem graça de mostrar - eu apenas ponho para fora. Neste caso, minha porcaria terá de ficar lá fora para sempre. E eu jamais conseguirei excluí-la porque está tudo relacionado - um mau desempenho ou uma cena ruim ou algo que não funciona porque você não consegue captar o momento emocional. Mas eu sabia que se fazemos a coisa bem feita, se eu for bem-sucedido, sabia que significa que tenho o público na mente do meu personagem. Ele vive uma dupla realidade, e o único jeito de fazer isso é pôr o público naquela mente. Estou satisfeito com os resultados.

Por que resolveu usar apenas percussão na trilha sonora? 

Em primeiro lugar, não tenho dinheiro para guitarras e violinos. O orçamento estava estourado. Desde que decidi que faria tudo numa única sequência contínua, achei que a percussão seria minha aliada. Adoro percussão. Meu pai sempre nos acordava com Gene Krupa aos sábados. Costumo ficar o tempo todo martelando algum ritmo sobre a mesa. A percussão me ajudaria - um metrônomo praticamente nos auxiliaria a encontrar o ritmo interno, a fala dos atores. Minha teoria era essa. E, no final, as batidas se tornaram um personagem. Elas se tornaram a pulsação e são fundamentais quando a ansiedade chega ao ápice. Sabia que funcionaria. Eu já tocava algumas das faixas que Antonio (Sánchez, o compositor) gravou antes de começar a rodar durante os ensaios, por isso os atores as conheciam - quando você caminha de acordo com um ritmo, anda com alguma velocidade.

Você estudou teatro no México, alguma vez atuou? 

Estudei três anos com Ludwik Margules, um polonês. Ele destrói mais vidas do que qualquer outro. Ele me lembra o professor de Whiplash. Eu o considero meu mentor. É extremamente minimalista e nos desafiava a fazer mais com menos. Sempre me dizia: “Se você não pode transmitir uma ideia e convencer o público sem nenhuma ferramenta, nada, então não é um diretor. Se você precisa de muitas coisas para convencer as pessoas, você é um administrador”. Eu fiz algumas coisas, mas sou um ator horrível. Minha mulher nunca acredita nas minhas mentiras, porque não consigo esconder minhas emoções.

Você é amigo de outros diretores, como Alfonso Cuarón e Michael Mann. Como é quando estão juntos? 

Alfonso e eu somos amigos há 20 anos, somos muito cruéis um com o outro. Temos uma língua muito afiada, mas nos admiramos. Ele é uma pessoa muito importante na minha vida. E Michael foi muito atencioso comigo. É um grande homem. Da última vez que nos reunimos, quase um ano atrás, foi num jantar da Academia. Havia um outro diretor, Christopher Nolan. Tomamos vinho e fomos expulsos do restaurante, porque éramos os dois mexicanos típicos que não queriam sair, e Michael foi delicado e nos disse: “Tá bom, gente, vocês precisam sair”. É que estávamos esperando que os mariachis chegassem.

Procurou a opinião de outros diretores a respeito de Birdman?

Um dos caras que tentaram me animar, Deus o tenha, foi Mike Nichols (1931-2014). Fui almoçar com ele. Falei: “É minha primeira comédia e estou apavorado”. Contei como pretendia filmá-lo. Ele estava com uma azeitona na boca, tirou-a e colocou-a no prato, depois disse: “Você caminha para o desastre. Deveria parar agora”. E tinha razão, mas eu não tinha outra escolha, porque faltava uma semana para começar a rodar. Mas acho que a experiência funcionou. Foi um laboratório.

Ele chegou a ver o filme? 

Não. Até Alexander (Dinelaris) fez uma brincadeira: “Acho que ele viu e depois morreu”. Nunca saberemos se ele o viu e pensou estar vendo a comédia destruída para sempre. Talvez eu tenha matado Mike Nichols e jamais soube disso. Ele era uma pessoa de grande sabedoria e foi péssimo ele me dizer aquilo, mas eu o abracei e agradeci. A melhor coisa que ele me disse foi: “Alejandro, quando fizer, faça depressa”. E ele estava certo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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