Diretor de 'A Separação' lança seu filme mais difícil

Asghar Farhadi compara 'O Passado' a seu longa anterior: 'Um é feminino, o outro é masculino'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2014 | 18h21

Embora não escreva pensando nos atores, Asghar Farhadi é o primeiro a reconhecer – O Passado teria saído muito diferente, se tivesse prevalecido sua primeira escolha para o papel de protagonista feminina. Ele queria fazer o filme com Marion Cotillard, mas houve um problema na agenda da atriz e ela terminou declinando quase em cima do começo da filmagem. Bérénice Bejo a substituiu e, no Festival de Cannes do ano passado, ganhou o prêmio de melhor atriz justamente pelo filme de Farhadi.

Numa entrevista realizada em um hotel de luxo da Croisette, o diretor refletiu, para um grupo de jornalistas: "Não mudei uma linha do diálogo nem das anotações que havia feito para acomodar Bérénice, mas sua simples presença mudou tudo." O repórter observou – claro, pois o cinema começa e se dilata na presença dos atores. "Exato", ele concordou.

É fácil dizer que O Passado não é tão bom quanto A Separação, o longa precedente de Asghar Farhadi, pelo qual ele colecionou uma bateria de prêmios importantes. Urso de Ouro, Globo de Ouro, Oscars de melhor roteiro e melhor filme estrangeiro. O Passado é da mesma família de A Separação. O que tem de melhor é quase a repetição do outro filme, mas Farhadi, como autor, faz uma ressalva decisiva. "Um é feminino, o outro é masculino." E vai nisso uma diferença e tanto. O curioso é que O Passado é o filme de gestação mais longa (difícil?) da carreira de Farhadi. Começou a nascer antes mesmo de Procurando Elly, pelo qual recebeu o Urso de Prata em Berlim, em 2009.

A história lhe foi contada há muitos anos por um amigo, que já vivia separado da mulher, mas teve de se reaproximar dela por causa do processo de divórcio. O tema da ruptura do casal percorre Elly e A Separação, e segundo o diretor "engloba todos os outros". Ele explica: "Pode-se falar de amor, de casamento, de família, e a família é base da organização social. Num país como o meu (o Irã), a questão religiosa do casamento termina por se superpor à social." Sobre o fato de haver filmado na França, esclareceu: "Essa história não faz sentido, se fosse filmada no Irã. É sobre um homem que volta para um outro mundo, do qual se afastou. A França se impôs porque há uma tradição de intelectuais iranianos se asilarem no país, e também porque seu mercado tem acolhido muito bem nossos filmes. Abbas (Kiarostami) já filmara com parceiros franceses."

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Na história, Ali Mousaffa volta à França para oficializar o divórcio. A mulher, Bérénice Bejo, vive com outro (Tahar Rahim, de O Profeta) e o cara também é casado – sua esposa está em coma no hospital. Apesar do título, o filme se passa todo no presente.

"Queria que o filme fosse realista, e por isso evitei o flash-back, que seria uma quebra na continuidade tempo/espaço. Mas isso é só meia-verdade. O verdadeiro objetivo talvez seja despertar a curiosidade do espectador, para que ele crie, no imaginário, sua visão do passado. Sou um narrador, e acho que o drama é fundamental numa boa história. O fato de haver um mistério incrementa a dramaturgia." É outro filme inconclusivo – "A Separação apontava para o futuro, por causa da menina. Aqui, a referência é o passado, que pesa sobre os personagens. Não gosto de filmes com finais fechados. Prefiro deixar o público no meio de muitas interrogações. Só assim acredito que será estimulado a sair do cinema pensando."

Sobre seu elenco, Farhadi só tece elogios. "Pensava inicialmente em fazer o filme com Marion Cotillard, que é uma atriz a quem admiro, mas Bérénice (Bejo) terminou por se revelar a escolha perfeita. Tenho muito prazer em todas as etapas da realização de um filme. Gosto do roteiro, gosto da realização, justamente porque é interessante ver como os atores se apropriam dos personagens e dão vida àquilo que está idealizado na cabeça da gente. Bérénice foi maravilhosa." Não admira que o júri presidido por Steven Spielberg tenha lhe dado o prêmio de melhor atriz.

‘Diretor prevê tudo, mas deixa a gente livre’, diz a atriz Bérénice Bejo

Mulher do diretor Michel Hazanavicius e coestrela de O Artista, de 2011, a franco/argentina Bérénice Bejo explica como chegou a O Passado.

Incomoda saber que você não era a primeira escolha de Asghar Farhadi?

Nãããooo. Quando Michel ganhou o Oscar, encontramos Asghar em vários eventos nos EUA e eu sempre dizendo quanto amava A Separação. Quando Marion (Cotillard) desistiu, meu agente se mobilizou. Tive novo encontro com Asghar e acertamos rapidamente.

E como foi esse encontro?

Pensei que ia me mostrar o roteiro, ou discutir a personagem, mas ele estava mais interessado na minha família. Michel e eu temos dois filhos, e temos outros dois do primeiro casamento dele. Asghar estava mais interessado no feedback da minha vida familiar.

Ele mudou alguma coisa no roteiro?

Por minha causa? Asghar escreve roteiros detalhados, mas fornece um tempo para que a gente se aposse dos personagens e fuja do roteiro na imaginação. Está tudo lá – o cansaço físico, as roupas meio desgrenhadas, o cabelo. Mas ele deixa a gente muito livre para criar. 

O PASSADO

Título original: Le Passé. Direção: Asghar Farhadi. Gênero: Drama (França–Itália/2013, 130 min.). Classificação: 12 anos.

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