Diretor de 'A Imagem que Falta' diz que fazer filme o deixou aliviado

Cambojano Rithy Panh é conhecido pelos documentários, concorre ao título de melhor estrangeiro

Ubiratan Brasil, Los Angeles - O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 23h00

O diretor cambojano Rithy Panh é conhecido pelos documentários, mas também se exercita na ficção. É o caso de A Imagem que Falta, filme com forte cunho documental, que concorre à melhor produção estrangeira no Oscar 2014. A mistura se justifica pelo fato de A Imagem que Falta narrar os horrores que Panh, então um adolescente, sofreu com a ascensão do Khmer Vermelho, regime ditatorial comandada pelo sanguinário Pol Pot, entre 1975 e 1979.

O filme mostra como os parentes do diretor vão pouco a pouco sucumbindo à fome e ao trabalho obrigatório excessivo. Como não há quase nenhuma imagem da época, Pahn compensou com idílicas cenas em que bonecos de cerâmica recontam importantes passagens, o que serve para amenizar o horror da época.

Animado com a indicação ao Oscar ("Já me sinto totalmente feliz"), ele conversou com o Estado dias antes da cerimônia.

Foi muito doloroso fazer um filme que recupera sua fase mais crítica da vida?

Era necessário. Todo genocídio tem de ser contado para as gerações futuras, na esperança de não se repitam mais. Foi o que fez, por exemplo, o escritor italiano Primo Levi, que narrou suas experiências no campo de concentração durante a 2.ª Guerra Mundial e sua jornada de volta à pátria em livros como É Isso um Homem? e A Trégua. Levi, aliás, foi corajoso, pois publicou seus relatos quando a humanidade ainda não estava preparada para reenfrentar aquele martírio - a ferida ainda estava aberta. Por conta disso, seus livros não venderam quase nada. As pessoas queriam enterrar o assunto.

Por isso que o senhor também esperou um certo tempo para contar sua história e a de seu país?

Sem dúvida. Era necessário esperar um pouco, pois seria muito mais doloroso fazer esse filme nos anos 1980 ou 1990, por exemplo.Os espectadores não conseguiriam aguentar. E talvez eu não tivesse a maturidade suficiente para avaliar aquele período tão intenso no calor da emoção.

Por que o momento atual despontou como ideal para o senhor filmar a história?

Sou um cineasta que faço muitas experiências em meus filmes e queria utilizar a técnica de filmar bonecos de barro como reforço na narrativa. Também porque eu me sentia um tanto sufocado por aquele passado, que precisava ser contado. Da união disso tudo, nasceu o filme.

O senhor acredita que sua carreira muda depois de A Imagem que Falta?

Sim, não especialmente por causa desse filme. Como disse antes, gosto de experimentar no cinema e, por isso, estou sempre me renovando. O que pode ser diferente agora é a sensação de alívio por ter relembrado aquela fase horrenda.

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