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Diretor de 'A Família Bélier' reflete sobre situação política do país

Filme francês já teve 3,2 milhões de espectadores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2015 | 19h38

Durante três anos, Eric Lartigau se dedicou ao projeto de A Família Bélier. O filme estreou simultaneamente com o Brasil, no finalzinho do ano, ele estava, como diz, ‘superansioso’ e aí veio o horror - o ataque brutal, a carnificina na sede do Charlie Hebdo. “Durante três dias, fiz como toda a França. Fiquei parado diante da TV. Dormia com ela ligada, acompanhando cada lance da caçada aos terroristas. Foi horrível, o que se passou aqui foi muito grave”, reflete.

Em cerca de duas semanas, e com o público fazendo como ele, fugindo do cinema para acompanhar a trama mirabolante na televisão, A Família Bélier fez mais de 3 milhões de espectadores. Seria um sucesso para comemorar, mas Lartigau não se sente muito animado para isso. “Teria até vergonha de ficar soltando foguetes, mesmo que esse filme signifique muito para mim e o seu sucesso tire um peso das minhas costas. O que posso dizer é que o mundo virou um lugar muito complicado para se viver, e tentar compreender.”

O repórter lembra a amarga ironia disso tudo - foi na França que Khomeini, exilado no país, comandou o movimento que resultou na deposição do Xá do Irã e no alvorecer da república dos aiatolás. Depois disso, o Islã só se fortaleceu. “O que ocorreu aqui foi muito mais do que um ataque à liberdade de expressão”, ele diz.

 

Lartigau conta que A Família Bélier foi um filme de gestação muito longa. Ele nem se lembra quando começou a pensar na história. “Tenho uma prima que não ouve nem fala e sempre me impressionou muito o fato de que, quando éramos crianças, isso não era problema. A gente conseguia se comunicar, brincar. Foi só depois que ela ficou adulta que a comunicação foi ficando mais difícil. Ela se isolou, mas eu acho que é uma situação até certo ponto normal. As pessoas mudam de interesses, distanciam-se com o tempo. Mas sempre ficou aquela coisa comigo, A questão da diferença, a da comunicação.”

O filme conta a história dessa família de surdos-mudos. O pai, a mãe e o filho. Só a filha ouve e fala perfeitamente e, mais, tem um dom - ela canta. O pai, insatisfeito com a administração municipal, resolve se candidatar a prefeito. Um deficiente pode ser candidato? Ele protesta - ser surdo e mudo não constitui deficiência, é uma identidade. E não desiste da candidatura. É uma questão muito interessante, mas para Lartigau não é o tema de seu filme, nem a diferença nem a linguagem. “Para mim, o tema de A Família Bèlier é o ‘départ’, a partida. A garota chega a um momento em que precisa fazer escolhas, viver sua vida. Ela tem um dom, pode seguir uma carreira como cantora. Mesmo se eles não fossem surdos-mudos seria uma escolha difícil. Tem gente que tem medo, e até colocaria a culpa nessa identidade dos pais para desistir e, quem sabe, justificar o próprio medo do fracasso.”

O diretor sabia que não seria fácil encontrar a protagonista de seu filme. A par da capacidade de representar as hesitações de qualquer adolescente, ela precisaria aprender a linguagem dos sinais e teria de cantar. “Nunca encarei a possibilidade de filmar com uma garota que não cantasse. Me parecia que não seria honesto escolher uma atriz e, depois, dublá-la. Fizemos casting (seleção de elenco). Entrevistei centenas de garotas. Em desespero, mudei a tática. Existe na TV francesa um programa de calouros, de jovens que cantam. Foi lá que descobri Louane (Emera). Mas ela não queria fazer o filme, não se considerava capaz. Tive de fazer um trabalho de persuasão, convencendo-a de que, sim, ela era capaz. Quando se convenceu, ela foi fundo. Aprendeu a linguagem dos sinais, formou com François (Damiens) e Karin (Viard) uma verdadeira família.”

O repórter elogia uma cena, em particular. No filme, Paula (Louane Emera) é uma adolescente que compartilha as atividades da família na granja em que os Bélier produzem seu queijo (que depois vendem na feira). Mas, justamente por serem os pais surdos e mudos, ela também lhes serve de intérprete, em múltiplas circunstâncias. Numa dessas ocasiões, os acompanha no médico. Mamãe tem uma problema vaginal, o tratamento não progride. A filha fica traduzindo o que o médico e o casal diz, e o pai não está seguindo o tratamento porque não quer parar com o sexo. A cena é perfeitamente natural, e ao mesmo tempo seria difícil imaginá-la num filme de Hollywood. Os norte-americanos talvez invocassem a correção política, mas ela seria uma desculpa para seu puritanismo. O diretor concorda com o repórter.

“Essa foi uma proposta da minha roteirista, e eu embarquei porque se há uma coisa que aprendi com as minhas pesquisas com surdos-mudos é que eles são muito francos, mais até do que as pessoas ditas normais. As pessoas sussurram quando querem dizer determinadas coisas, eles usam os sinais, que, para quem entende, podem ser entendidos a distância. Aliás, isso foi outra coisa que aprendi - não é por que usam a linguagem dos sinais que todos os surdos-mudos se comunicam, do mesmo jeito. Existem sutilezas que personalizam o sinal. É maravilhoso como o ser humano consegue ser original, não importam as circunstâncias.”

Dividido entre dois projetos - “os dois tratam de famílias, mas são muito diferentes” -, Lartigau sente que precisa parar um pouco. “Quero um tempo para mim, para minha família, para refletir sobre essas coisas todas que estão ocorrendo na França. Qual é meu papel, como cineasta? O que posso fazer?” O repórter não se furta a comparar - vivemos num mundo de surdos-mudos, onde as diferenças culturais, religiosas, muitas vezes criam barreiras intransponíveis. “Você tem razão. O fanatismo cria verdadeiros autistas, pessoas que se fecham para tudo e todos, e na sua insana certeza produzem a barbárie. Sonho com um cinema que nos ajude a nos entendermos, que seja um instrumento do humanismo.” A Família Bélier é.

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