David McNew/Reuters
David McNew/Reuters

Diretor criativo da Pixar  fala sobre novos caminhos da animação

 Na sequência do sucesso de 'Toy Story' – há 20 anos –, a Pixar consolidou-se como marca e conceito

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de junho de 2015 | 18h00

Foi há 12 anos, em maio de 2003, que o repórter se encontrou pela primeira vez com John Lasseter. Embora ele não tenha sido creditado como diretor de Procurando Nemo (Andrew Stanton e Lee Unkrich), já era chefe de criação da Pixar e o estúdio já revolucionara a animação com Toy Story e outros sucessos. Agora, em outro maio, o repórter se encontrou de novo com Lasseter – em Cannes. O maior festival do mundo foi a vitrine para o lançamento de Inside Out – Vice-Versa na França e Divertida Mente, no Brasil. O filme tem estreia prevista no Brasil em 18 de junho. Pete Docter é o diretor, e em Cannes ele era chamado de Docter Pixar. O homem que está salvando a Pixar. Mas é preciso salvar o estúdio?

Na sequência do sucesso de Toy Story – há 20 anos –, a Pixar consolidou-se como marca e conceito. Roteiros elaborados e técnica apurada a serviço de grandes histórias. Já há algum tempo a Pixar tem investido em sequências. Nada mais de histórias originais? Docter, com Up e Divertida Mente, é o que insiste com seus novos projetos. Divertida Mente nasceu do seu olhar de pai. Olhando para a filha pequena, ele imaginava o que se passava na sua cabeça. E criou essa história sobre uma garota cuja vida sofre uma brusca mudança. Os protagonistas da história passam a ser seus sentimentos – Alegria, Tristeza, Ansiedade, etc. A Alegria está sempre no comando – pais querem sempre ver os filhos felizes –, até dar-se conta de que precisa da Tristeza para fazer a vida da menina funcionar.

Nos mais de dez anos decorridos entre os dois encontros, Lasseter ficou maior e mais gordo. O entusiasmo não diminuiu, o gosto pelas camisas floridas e largas. Com o genial Divertida Mente, a Pixar (re)engrena, de novo? “Estou/estamos muito felizes de voltar aqui a Cannes, Pete (Docter) e eu, onde Up teve uma acolhida entusiástica. Cannes nos estendeu de novo o tapete vermelho. A sessão de imprensa e a oficial foram consagradoras. Up terminou sendo sucesso de público e crítica, ganhou prêmios. Tomara que a acolhida prenuncie essa trajetória também para Divertida Mente.” Ele admite que ocorreram ‘coisas’ na Pixar. Uma delas foi um projeto que se revelou complicado e precisou ser redirecionado, com troca de diretor. A Viagem de Arlo estrearia no Natal (passado), mas chega agora como Divertida Mente. E, no ano que vem, outra sequência, O Mundo de Dory, a peixinha de Nemo. Talvez para 2017 ou 18, outra sequência – Toy Story 4.

A fonte da originalidade secou? “Não, em absoluto. Nossa prioridade continua sendo contar boas histórias. Fizemos o pacto de não produzir outra Toy Story se a história não fosse grande. Depois de muita relutância e também de reuniões em busca de ideias, eureka!, fez-se a luz. Toy Story 4 já vai entrar em produção. E será diferente, uma comédia romântica. Quanto a Dory, de todas as personagens de Nemo, sempre achamos que, se houvesse um dia uma sequência, teria de ser a viagem dela. As técnicas que criamos para reproduzir a vida debaixo d’água evoluíram. Prepare-se para o visual arrojado.”

Para Lasseter, acertos foram necessários para enfrentar os avanços desses 20 anos. “Surgimos como um grupo básico, os quatro mosqueteiros. Andrew (Stanton), Brad (Bird), Pete (Docter) e eu. Andrew e Brad foram para o cinema live, mas estão voltando. Pete, de todos, é quem tem mais autonomia para desenvolver projetos. E eu acumulo a chefia de criação da Pixar e da Disney Toon.”

Sua mente é a mais aberta possível. “Acolhemos na Pixar criadores de todo o mundo. O elogio mais belo que ouvi sobre Divertida Mente veio de um pai que nos agradeceu por termos lhe aberto os olhos para a importância da tristeza e da perda na vida das crianças.” Os estúdios, e aí não é só a Pixar, passam por modificações. “Antigamente, era um universo masculino. Hoje, temos cada vez mais mulheres na animação e elas trazem um novo olhar sobre família e sociedade.” Existem muitas personagens femininas nas animações de Hayo Myiazaki, um dos faróis da Pixar. 

Como é ser chefe de dois estúdios diferentes? “A Disney tem uma história que precisamos respeitar.” Mas foi com ele que o estúdio do velho Walt conheceu seu maior sucesso. A aceitação de Frozen o surpreendeu? “Achava que poderia ser sucesso, mas só tive certeza quando encontramos a canção certa, Lei It Go (que ganhou o Oscar).” 

O respeito à diferença ele aprendeu a exercitar com dor, em casa. “Tenho um filho que, muito cedo, foi diagnosticado como diabético. Sofreu muito, e sofria por ser diferente. Isso nos fortaleceu como família e também abriu meus olhos. O direito à diferença não é só um conceito politicamente correto. Somos todos diferentes, e sem a aceitação desse fato nunca haverá solidariedade e justiça.”


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