Diretor comenta ida de 'Praia do Futuro' à Berlinale

Karim Ainouz afirma que queria que filme voltasse à cidade que o originou e sediou

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2014 | 19h11

Seis anos depois de ganhar o Urso de Ouro por Tropa de Elite, o Brasil volta à competição de Berlim e com o mesmo Wagner Moura, tão poderoso como o Capitão Nascimento do thriller já clássico de José Padilha. Só que agora muda tudo – Wagner estrela (com Clemens Shick e Jesuíta Barbosa) o longa Praia do Futuro, de um diretor mais acostumado a enfocar o universo feminino – Karim Ainouz. É um filme que Ainouz já vinha gestando há um certo tempo. Começou a nascer depois de O Céu de Suely (2006), embolado com a minissérie Alice. Portanto, antes de Abismo Prateado (2012).

O diretor já participou de mostras paralelas nos festivais de Cannes e Veneza. Não é propriamente um estreante em Berlim – “Muitos anos atrás, meu primeiro curta foi selecionado para Roterdã e Berlim e eu terminei confirmando o primeiro. Com isso, perdi a chance de ir à Berlinale, mas desenvolvi uma relação muito forte com a cidade e o próprio festival. Wielland Speck (do Panorama) virou um amigo e tem acompanhado meu trabalho. Praia do Futuro se passa 30% em Fortaleza e 70% em Berlim, ou 40% no Brasil e 60% na Alemanha. Para mim, era importante que o filme voltasse à cidade que o originou e sediou.”

 

 

 

Ainouz conversa com o repórter de Fortaleza, onde assiste a mãe doente e ministra uma oficina de desenvolvimento de roteiros para televisão. “Embora tenha aquelas passagens por grandes festivais, é a primeira vez que participo da competição de um evento como Berlim. Dá um friozinho na barriga”, ele admite. Acostumado a falar sobre mulheres, Ainouz queria mudar o tom, abordando o universo masculino. “Meu cinema se faz mais de personagens que de dramas, e queria colocar na tela um aspecto importante da minha geração na faixa dos 40 anos. A gente vive muito com medo – de perder o emprego, de ficar sozinho, de envelhecer. Eu queria justamente fazer um filme sobre o medo e seu reverso, a coragem. Um filme sobre a coragem de ousar.”

Filho único, o diretor também queria falar sobre a relação entre irmãos. E assim foi gestando a história de Jesuíta Barbosa – o premiado ator de Tatuagem, de Hilton Lacerda –, mostrado em dois momentos de sua vida, criança e adulto. Ele parte em busca do irmão mais velho, que desapareceu na Alemanha. Estará vivo? “E chega, não vou mais contar a história para que você tenha o impacto do que acontece com os irmãos.” O terceiro vértice da história é ocupado pelo ator alemão Clemens Shick. “É um grande ator de teatro”, explica Ainouz. Ele faz o turista que está se afogando na praia do futuro. Salvo por Wagner, leva-o para a Alemanha.

“Assim como queria falar sobre homens e sobre irmãos, queria falar sobre super-heróis. No filme, Jesuíta se cria achando que o irmão salva-vidas é um herói. Há um mito da força, da virilidade, mas eu queria justamente mostrar o momento em que o super-herói se fragiliza e deixa cair a máscara. É um filme de homens, mas delicado, não é coisa de brucutus”, adverte o diretor. O anúncio de que Praia do Futuro estará na competição de Berlim foi feito ontem pelo site do festival, que deve se realizar entre 6 e 16 de fevereiro. A Berlinale tem divulgado os filmes que concorrerão ao Urso de Ouro a conta-gotas. A coletiva que vai anunciar toda a programação está marcada para o dia 28, mas no anúncio de ontem veio a informação de que a wettbewerb (competição) está completa, embora ainda faltem três dos 23 filmes que vão compor a seleção oficial. Serão exibições fora de concurso.

Além de Praia do Futuro, a América Latina (do Sul) concorre ao Urso com mais dois filmes – História do Medo, de Benjamin Naiushat, do Uruguai; e La Tercera Orilla,de Celina Murga, da Argentina. Todos esses filmes serão avaliados pelo júri presidido pelo produtor James Schamus, de As Aventuras de Pi, de Ang Lee. E o Brasil participa com mais dois filmes da mostra paralela Panorama – Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, e O Homem das Multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, parceiro de Karin Ainouz em projetos de TV (Alice) e cinema (Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo).

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