Diretor chega aos 90 lançando um filme por ano

Manoel de Oliveira já era um veterano com mais de 40 anos de carreira quando foi descoberto pela crítica internacional. Seu curta Douro, Faina Fluvial, de 1931, e o longa Aniki-Bobó, de 1942, possuem traços neo-realistas, antes mesmo que o movimento se desenvolvesse na Itália. Mas a grande fase do artista só começou em 1976, com Amor de Perdição, ao qual se seguiram, em 1981, Francisca e, em 1985, Le Soulier de Satin.A carreira, de qualquer maneira, só deslanchou nos 90, quando Oliveira, nascido no Porto, em 1908, já tinha passado dos 80 anos. Desde então, e sempre em parceria com o produtor Paulo Branco, ele tem conseguido rodar um filme por ano, todos os anos. Numa época em que a maioria já está aposentada, Oliveira é um fenômeno de vitalidade. Renova-se a cada filme e (re)descobre sua juventude no ato de aprimorar sua visão do mundo e do cinema.É um grande autor, o que não significa que seus filmes despertem admiração incondicional. Nos últimos anos, Oliveira tem até submetido seu público a um ritmo binário. Um filme muito bom, outro menos, mas todos expressões de uma busca que não é só formal, mas também existencial e humana. Há quem diga que são filmes estáticos e aborrecidos. Não é verdade.Há uma teatralidade assumida no cinema de Oliveira, que passa necessariamente pela palavra. É até um dos fatores que o tornam "difícil", já que Brasil e Portugal são separados pela barreira da mesma língua. Não surpreende ver o autor chamar de Palavra e Utopia seu filme sobre o Padre Antonio Vieira, que deve abrir a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Uma iniciativa ousada do organizador do evento, Leon Cakoff, que a faz escudado no apoio que Oliveira sempre recebeu do público da mostra. Ele foi descoberto no Brasil pela mostra. É amigo de Cakoff e já prometeu que virá para a festa da abertura, no dia 18.Cada um é livre para escolher seu filme preferido do mestre português, mas é pouco provável que essa escolha não passe por obras como Os Canibais, Non ou a Vã Glória de Mandar, Vale Abraão e Viagem ao Princípio do Mundo. Os Canibais é uma ópera (opereta?) que mistura farsa e até horror para investir contra os poderosos de Portugal. Non é uma obra definitiva sobre a saudade, esse sentimento tão lusitano, que o autor discute a partir da reconstituição de momentos decisivos da história portuguesa, para criticar não o fracasso histórico de Portugal enquanto potência colonial, mas o fato de o país ter-se mantido preso, durante séculos, a esse vão sonho de glória.Vale Abraão é o Flaubert de Oliveira e Leonor Silveira a sua magnífica Bovarinha. E Viagem ao Princípio do Mundo, novamente discutindo a saudade, é o tributo de Oliveira à grande arte de Marcello Mastroianni. Por falar em Marcello, ele dirigiu a ex-mulher do ator, Catherine Deneuve, em O Convento e a filha (com Catherine), Chiara Mastroianni, em A Carta, que não estão entre seus melhores filmes. Até no pior deles, Oliveira tem a marca da inquietude. É o título de outra de suas obras-primas, inédita no Brasil.

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