Bruno Machado
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Diretor brasileiro Karim Aïnouz leva filme à mostra Un Certain Regard, em Cannes

Cineasta volta ao festival francês para apresentar o longa 'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão', inspirado nas mulheres de sua família e baseado em livro de Martha Batalha; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2019 | 03h00

Para Karim Aïnouz, é como uma repetição da história, mas não como farsa. Nesta segunda, 20, ele estará de volta a Cannes para apresentar seu novo filme, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, na mostra Un Certain Regard.

“Em 2002, estreei meu primeiro longa, Madame Satã, em Cannes, também em Um Certo Olhar, e foi numa segunda-feira.” Ao longo desses 17 anos, Aïnouz firmou-se como um dos grandes autores brasileiros de sua geração, com filmes como O Céu de Suely e o visceral Praia do Futuro. Agora, ele volta com outro retrato de mulher, ou mulheres, no plural. Embora baseado num romance – de Martha Batalha –, o filme tem muito de autobiográfico.

Quando sua mãe morreu, vendo-a ser pranteada pelas amigas, Aïnouz não pôde deixar de pensar como teria sido a vida daquelas mulheres. Como era a primeira vez de uma mulher nos anos 1950? “Minha mãe me criou sozinha, e você pode imaginar o que isso representava numa sociedade machista. Por um momento, em meio à tristeza que me consumia, pensei que todas aquelas mulheres podiam ter histórias similares, senão iguais.”

A ideia do filme impôs-se quando ele leu o livro. “Parece a história de minha mãe e minha tia.” Duas irmãs. Uma delas dá o mau passo, ou pelo menos era assim que as coisas eram vistas. As irmãs separam-se e muito tempo depois, uma delas, viúva, descobre as cartas que o marido nunca permitiu que chegassem até ela. 

“Quando li o livro me caiu a ficha de que aquela poderia ser a história da minha família, e que aquelas irmãs poderiam ser minha mãe e minha tia. É um filme de época, mas creio que a questão da mulher continua muito presente, no Brasil e no mundo. Não creio que seja um filme feminista, porque não me cabe, como homem, fazer uma obra militante. Mas sei que é um filme profundamente antipatriarcal, isso sim.”

Aïnouz não mede elogios a suas atrizes, Carol Castro e Júlia Stockler. Fez um melodrama rasgado. Promete ao repórter – “Vai fazer você chorar.” Por mais que a história tenha o pé na realidade, trata-se de uma obra de cinema, e de gênero. Aïnouz encarou o desafio de emular os grandes mestres do melodrama – Douglas Sirk, Douglas Sirk, Douglas Sirk. Mas ele também tem uma ligação muito forte com a cultura alemã. Tem casa em Berlim. Logo, nada de estranho que tenha pensado também em Rainer Werner Fassbinder.

“Tudo isso, essas referências, pode parecer pretensioso, mas meu desafio era o mesmo que Fassbinder enfrentou nos anos 1970 e 80. No fundo, no fundo, a origem estética de Eurídice Gusmão talvez esteja nas novelas de Janete Clair, que não tinha medo de ser exagerada. A questão é como trazer esses códigos para um outro público, como atrair o jovem de 2019? Fassbinder reinventou Sirk e falou sobre as mulheres alemãs do pós-guerra e do milagre econômico. Eu falo de mulheres num Brasil agrário e patriarcal, mulheres como a minha mãe, que, sem bandeira nenhuma, enfrentaram o preconceito e o autoritarismo.”

Impossível não trazer a conversa para o Brasil atual, com tudo o que está ocorrendo, e não apenas com a cultura, no País. “Acho muito irônico que, justamente quando eles estão tentando, de novo, destruir as estruturas do cinema brasileiro, exista uma presença tão maciça de nossos filmes em Cannes. Quer maior prova de criatividade? Mas o cinema é crítico, os cineastas são considerados de esquerda, e portanto inimigos, então o cinema deve ser destruído. Isso já ocorreu com Collor, e quanto tempo demorou para chegarmos ao momento atual? Se destruírem tudo de novo, quanto tempo demorará para que o cinema, a cultura, se reerga novamente?”

Quando fala na presença brasileira em Cannes, em 2019, Aïnouz refere-se a Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, muito bem recebido na competição, ao filme dele, em Un Certain Regard, e a Sem Seu Sangue, de Alice Furtado, na Quinzena dos Realizadores.

O Brasil, por meio da produtora dos irmãos Gullane, também está associado ao italiano O Traidor, de Marco Bellocchio, com Maria Fernanda Cândido, na competição, e Rodrigo Teixeira, que produz o filme de Aïnouz, tem outros dois participando do evento. “A tentativa de desmontagem do cinema brasileiro só pode ter motivação ideológica. De falta de competência e seriedade não nos podem acusar.”

Parceria. Karim Aïnouz manifesta sua preocupação, e até indignação. Como no governo de Fernando Collor de Mello, quando extinguiu a Embrafilme, ele vê agora uma nova tentativa de desmontagem do cinema brasileiro. “Não conseguiram uma vez, e estão tentando de novo. Mas essa gente vai passar e o que nos define, como brasileiros, não são eles, que não têm grandeza nenhuma. O que nos define é a Fernanda Montenegro, essa grande atriz com quem tive o privilégio de trabalhar.”

Fernanda faz uma das irmãs, muitos anos depois, na atualidade. “Ela é maravilhosa, uma atriz excepcional e uma pessoa humana generosa. Fernanda não prega o ódio, é toda amor. É a expressão de tudo de bom que o Brasil tem a oferecer. Prefiro me ligar nela, que engrandece meu filme.”

Karim Aïnouz tem feito filmes que abordam o universo trans (Madame Satã) e o gay (Praia do Futuro). Ofereceu grandes papéis a Lázaro Ramos, no primeiro, e a Wagner Moura, no segundo. Mas ele não seria um grande cineasta sensível às questões femininas se não tivesse feito também O Céu de Suely e O Abismo Prateado, em que Hermila Guedes e Alessandra Negrini estão excepcionais.

Aïnouz e Fernanda Montenegro andaram trocando mensagem sobre a reciprocidade da troca em A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. O filme dá visibilidade às mulheres anônimas, sofridas, guerreiras. “Para mim, dirigir um ator é um ato de comunhão”, explica Aïnouz.

“Na verdade, essa comunhão é algo próximo a uma paixão avassaladora que dura o período do trabalho. Digo paixão, pois para mim só faz sentido se for assim, se puder ser incansável, arrebatador e potente. Acho que nesse sentido, também, como a paixão, isso não tem nenhuma particularidade em relação a ser no Brasil ou na Alemanha, ou onde mais for. Meu trabalho enquanto diretor existe na medida em que existe esse lugar-comum de entrega e confiança, se eu não suscitei isso no ator, arrisco a dizer que nem o dirigi. Por isso, também, minha alegria, tendo a certeza que eu tive o prazer de experienciar esse filme com você. O filme para mim é um processo vivo que se nutre muito desse lugar onde as entregas todas se encontram, minha, dos atores e de toda equipe, dirigir para mim é, em algum sentido, organizar todas esses potências.”

 

 

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