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Diretor Benjamín Naishtat capta o medo que precede a explosão social na Argentina

Benjamín Naishtat fala de ‘Bem Perto de Buenos Aires’, que dialoga com ‘Relatos Selvagens’ e ‘O Som ao Redor’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo)

27 de fevereiro de 2015 | 03h00

Assim como Sr. Kaplan remete a Ida, Bem Perto de Buenos Aires – outra estreia da semana – não deixa de se referir a Relatos Selvagens. São dois filmes argentinos. O de Damián Szifron foi indicado para o Oscar e bateu recordes na Argentina. Benjamín Naishtat, que dirigiu Bem Perto, admite que torceu por Relatos. “Outro Oscar teria sido importante para a indústria nacional”, reflete.

Relatos Selvagens virou um fenômeno social e comportamental porque, de repente, críticos, público, pensadores passaram a ver no filme um reflexo da crise argentina sob Cristina Kirchner. Relatos é sobre gente insatisfeita que perde o controle e explode – consigo mesma e o mundo ao redor. “Acho que se pode ver no meu filme outro sintoma da crise, mas o que escolhi mostrar é o momento que precede o estouro.” Relatos abriu oficialmente o Festival de Cannes do ano passado, Bem Perto havia sido apresentado em Berlim, meses antes.

Numa entrevista por telefone, Naishtat admite que não conhece as particularidades do mercado brasileiro. Foi cooptado pelos distribuidores para mudar o título porque Bem Perto de Buenos Aires definiria um local, um tom e o público daqui ama o cinema argentino. No original é Historia del Miedo/ História do Medo. Tem tudo a ver com o clima de insegurança/paranoia que se apossa dos moradores de um condomínio fechado, ‘perto de Buenos Aires’, quando um rombo aparece na cerca que isola o terreno e eles se sentem como se já estivessem sendo invadidos pelo mundo externo.

Como o filme uruguaio Sr. Kaplan, que nasceu de histórias contadas pelo avô do diretor, Bem Perto também tem origem doméstica. Acompanhando familiares mais velhos em atendimentos hospitalares de urgência, Naishtat deu-se conta de como o sistema de saúde exclui os pobres. Uma história de contrastes sociais começou a rondar sua cabeça, mas ele não queria só bater na tecla da desigualdade. Queria interiorizar os pobres e os ricos – “contextualizar”, como diz.

O filme foi muito bem acolhido pela crítica e ganhou prêmios importantes. O público não chegou nem de longe aos números superlativos de Relatos Selvagens, mas Naishtat não se queixa. “Estreamos na metade do ano (passado) e até agora Historia del Miedo ainda está rodando pelo interior da Argentina.” Ele misturou não profissionais com atores. Ficou particularmente satisfeito com a preparação do seu protagonista, um garoto de periferia, Jonathan Da Rosa, que tem emendado um filme depois do outro. “Jonathan é muito bom, muito sério. Fico feliz que tenha encontrado seu caminho.” Bem Perto de Buenos Aires tem algo de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, você vai ver, mas Naishtat se sente mais próximo de outro jovem autor brasileiro – Felipe Barbosa, de Casa Grande. “Ficamos amigos de festivais e hoje trocamos ideias sobre nossos processos criativos. Casa Grande é excepcional."

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