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Diretor argentino acerta o tom em ‘A Sorte em Suas Mãos’

Novo filme de Daniel Burman é muito mais que uma boa comédia romântica

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2013 | 19h44

Produtor de Tese Sobre Um Homicídio, em cartaz nos cinemas brasileiros, produtor e diretor de A Sorte em Suas Mãos, mais novo parceiro internacional da Total Entertainment. Daniel Burman finaliza, no Rio, a rodagem de seu novo longa, El Misterio de la Felicidad, que vai estrear no ano que vem. É um dos mais interessantes diretores de sua geração no cinema argentino – a de Pablo Trapero. Ambos, para só citar os dois, são recém-entrados nos 40. Não se iluda com o formato de comédia romântica de A Sorte em Suas Mãos. É só fachada. O filme, na realidade, é sobre outra coisa.

Jorge Drexler, o cantor e compositor que descolou um Oscar de canção na trilha de Diários de Motocicleta, de Walter Salles, faz o protagonista, e bem. Uriel começa o filme num momento de impasse. Jogador compulsivo de pôquer, ele tem problemas com a ex, está sobrecarregado de encargos com os filhos. Uriel radicaliza. Mulherengo – está sempre blefando para pegar mulheres –, ele faz como o próprio filme e utiliza a fachada de um torneio de pôquer em Córdoba, no interior da Argentina, para fazer uma vasectomia. O urologista lhe prescreve um período de abstinência e justo agora, em Córdoba, ocorre o improvável. Uriel reencontra uma antiga namorada, Glória (Valeria Berticulli). Ela está a fim, ele não pode. Começa um jogo de sedução que até certo ponto se assemelha ao de pôquer. Uriel blefa, mente, enreda-se todo. Arrisca-se a perder a mulher amada.

O formato ‘comédia romântica’ pode distrair um pouco o olhar do espectador, que talvez espere um filme ‘menor’ – de fórmula – de Burman. A Sorte em Suas Mãos não desmerece a tradição de Esperando o Messias, Abraço Partido, As Leis de Família, Dois Irmãos. Mas talvez, para verdadeiramente compreender como o filme se encaixa na obra do autor, seja necessário reportar-se a um pequeno filme, um episódio, que Burman fez para o documentário 18-j. Nos longas, Burman tem discutido família e tradição à luz do judaísmo. Em 18-j, projeto coletivo, deu seu testemunho e homenageou as vítimas do atentado à Asociación Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires, julho de 1994.

A origem e a herança judaicas permeiam o cinema de Burman, e A Sorte em Suas Mãos não foge à regra. Uriel possui uma agência de câmbio, que herdou do pai, mas é mais glamouroso apresentar-se a Glória como empresário de shows. Tudo no filme se constrói nesse choque entre aparência e realidade. Uriel tem de sustentar a falsa identidade do empresário, e enreda-se mais por isso. Ao mesmo tempo, ser um ‘doleiro’ passa a ser, a seus olhos, algo negativo. Por quê? De uma maneira ainda mais sutil, Uriel (e o filme) se indaga(m) se o judaísmo, afinal, é compatível com o jogo de azar que o atrai.

Burmaniamente, Uriel vai atrás de um rabino que legitime sua preferência, e o libere para jogar. Encontra um que possui uma banda, e é justamente por intermédio dele que vai conseguir dar a volta por cima no episódio que envolve justamente o retorno de uma banda famosa, num show do qual ele fingia ser o promotor. Blefar/mentir para se dar bem, consertar a própria mentira, assumir-se – nas próprias carências e necessidades. Todo Burman está presente em A Sorte em Suas Mãos. Muitos já observaram, na Argentina e fora dela, que é um cineasta que veste a camisa de ser judeu. Como Woody Allen, reflete sobre isso em comédias doce-amargas. Como Steven Spielberg, aborda o tema num registro mais grave, discutindo a grande história (em 18-j) e tratando de traumáticas relações entre pai e filho (O Abraço Partido), ou entre filha e mãe.

Num de seus primeiros filmes como diretor, Todas las Azafatas Van al Cielo (Todas as Aeromoças Vão para o Céu), de 2002, a protagonista revela uma complicada relação com a mãe. Isso não deixa de se repetir em A Sorte em Suas Mãos, em que Glória também possui uma espécie de estranhamento em relação à mãe. Interpretada como ‘diva’ por Norma Aleandro, a personagem possui um programa de entrevistas com escritores no rádio. É exuberante, cercada de jovens assessores a quem vampiriza. Um dos mais belos momentos do filme é a confissão de Norma – quando ela fala de suas diferenças com o pai de Glória, mas de como, apesar de tudo, o amava. Burman possui o segredo desses momentos confessionais, e são eles que sempre reluzem seu (ótimo) cinema.

A SORTE EM SUAS MÃOS

Título original: La Suerte en Tus Manos.

Direção: Daniel Burman

Gênero: Drama (EUA/ 2012, 110 min.)

Classificação: 14 anos

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