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Diretor Andrea Pallaoro explica como La Rampling preenche lacunas de 'Hannah'

Charlotte Rampling tem interpretação magistral em filme

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2018 | 06h00

Há alguns anos, Charlotte Rampling esteve no Brasil, para ser homenageada no Festival do Rio. O repórter, que a colocava numa espécie de panteão por seus grandes papéis em filmes transgressores de Luchino Visconti (Os Deuses Malditos), Liliana Cavani (O Porteiro da Noite), Richard Lester (A Bossa da Conquista), Woody Allen (Memórias), Alan Parker (Coração Satânico), etc., entrevistou-a para o Estado. Ela foi distante, evasiva, protocolar. Uma decepção. A própria Charlotte percebeu e, no dia seguinte, fato raro, tratando-se de uma figura do porte dela, chamou o repórter para uma nova entrevista. Dessa vez foi calorosa, simpática. Charlotte! O repórter conta a história numa entrevista por telefone com o diretor Andrea Pallaoro, que a dirige em Hannah. O filme estreou na quinta, 12.

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“Então, você sabe por que a escolhi para o papel. Charlotte é única.” E acrescenta. “Escrevi o filme pensando nela, para ela. Se tivesse recusado, creio que não conseguiria fazê-lo com outra atriz. Teria de mudar de projeto.” Hannah concorreu no Festival de Veneza do ano passado. Pallaoro lembra. “Foi uma sessão tensa, porque reconheço que o filme é difícil. Um silêncio mortal, não dava para perceber se o público estava gostando ou não. E, então, no final, as pessoas levantaram. Recebemos uma ‘standing ovation’ de cinco minutos e Charlotte, no encerramento do festival, recebeu a Taça Volpi de melhor atriz.”

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Já que o próprio cineasta reconhece que se trata de um filme difícil, é bom ir logo explicando porquê. Hannah é um filme que se poderia definir como ‘lacunar’. Pallaoro não se preocupa em esclarecer as coisas para o espectador. Hannah começa o filme gritando num ensaio de teatro que mais parece uma sessão de terapia. Tem uma relação que parece distante com o marido, mas pode muito bem ser porque é a última noite deles juntos - no dia seguinte, ele vai preso. Não pergunte porquê. Ela tem um filho que a rejeita, e Pallaoro passa olimpicamente sobre os motivos. Nem uma palavra, uma acusação. Para completar, apesar do porte aristocrático de Charlotte, ela faz serviços de limpeza, trabalhando como faxineira na casa de uma família rica.

Talvez não pareça muito animador para quem lê o texto, mas é um dos mistérios do cinema - quanto mais minimalistas certos filmes, maior seu fascínio. E o que preenche os vazios de Hannah é a presença de Charlotte Rampling. “Sabia que era um desafio e tanto. O diálogo não é explicativo, e aliás é reduzido no filme. Uma atriz como Charlotte traz seu mistério e um monte de referências para o espectador que já a viu antes. Você ficaria surpreso se eu lhe contasse o que jornalistas de todo o mundo têm me dito sobre as lacunas de Hannah e o significado da presença de Charlotte. Dizem que é o meu thriller existencial.” Rejeitada pelo filho, que a impede de ver o neto, Hannah compensa a carências mantendo uma ligação compassiva com o menino da casa em que trabalha, e ele é cego. “Achei que seria interessante se ele não a visse, mas percebesse sua proximidade como algo confiável, caloroso.”

Isso, afinal de contas, remete ao que é o tema de Hannah, para o próprio diretor. “Quando você joga o filme no mundo ele deixa de lhe pertencer, e o público é soberano para fazer sua interpretação. Mas, para mim, ao criar todas essas lacunas que o espectador tem de preencher, o tema do filme é a construção da identidade de Hannah. Quem, afinal, é essa mulher?” Ela está em trânsito - de metrô, ônibus. Torna-se um tanto voyeuse, testemunha da vida. Ouve conversas, testemunha a briga de um casal. O que a mulher grita - alto - para todo o mundo ouvir talvez expresse um pouco das angústias que consomem Hannah, mas ela tenta não se fragilizar e segue sempre em frente.

Aos 36 anos - nasceu em fevereiro de 1982 -, o italiano de Trento, Andrea Pallaoro, pode muito bem representar e subverter o conceito do homem global. Nasceu na Itália, filmou em francês na Bélgica e em cidades italianas, simulando que o filme todo se passa em Bruxelas, com uma atriz inglesa e ele próprio mora em Los Angeles, de onde conversa com a reportagem. O mais impressionante é que, com essa mistura de lugares e nacionalidades, você talvez pensasse que a tendência era sair um filme impessoal. Ledo engano - Hannah é rigorosamente autoral. Ele admite sua atração por personagens femininas. Hannah é seu segundo longa, após Medeas. O terceiro está em pré-produção, e vai se chamar Monica.

“Seria muito fácil falar sobre homens, embora em todas as minhas histórias, não conclusivas, eles estejam presentes. Bastaria me olhar no espelho, observar meus amigos. Para um homem, toda mulher carrega um enigma, que ele decifra ou não. São, lembra-se do quadro?, a origem do mundo (Gustave Courbet). Espero mudar, mas permanecendo nessa linha.” Até pela juventude, Pallaoro parece ter suas referências - Terrence Malick, Chantal Ackerman. Ele diz que elas estão nos olhos de quem vê. “Sigo meu caminho.” A imagem widescreen, captada pela câmera de Clayse Irvin, e a música ambiental, que vem do rádio, da rua, ressaltam o isolamento. “Fazem parte do conceito”, explica.

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