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Diretor alemão Dominik Graf  fala do filme 'Duas Irmãs, Uma Paixão'

Longa sobre o ícone do Romantismo concorreu em Berlim em 2014

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 Março 2015 | 03h00

Dominik Graf é a arma mais secreta do cinema alemão contemporâneo - com essa definição, ou justificativa, o Festival de Roterdã dedicou uma retrospectiva ao cineasta, em 2013. Em fevereiro do ano passado, Graf concorreu no Festival de Berlim com Duas Irmãs, Uma Paixão, que agora estreia no Brasil. O título original em inglês é Beloved Sisters/Amadas Irmãs. Elas são Charlotte e Elizabeth von Lengefeld, com quem o escritor Friedrich Schiller viveu um triângulo amoroso no período anterior à Revolução Francesa. Graf baseou-se na correspondência trocada pelo filósofo e poeta com suas amadas. Fez um filme acurado, mas que na disputa berlinense não sensibilizou muito os críticos nem o júri. Houve quem lembrasse de Jules e Jim/Uma Mulher para Dois, de François Truffaut, outra história de triângulo embalada em filme de época. Graf filmou em cores, com um cuidado especial para os detalhes, mas principalmente buscando nessa trama - romântica mas não tanto - uma ponte para falar sobre o presente.

De onde vem seu interesse pelas irmãs von Lengefeld?

Como todo mundo, eu conhecia o Schiller romântico, que manteve uma correspondência clássica com outro gigante das letras, Goethe. Foi através dessas cartas que soube das outras, trocadas por Friedrich com as irmãs que foram suas mulheres. O caso, em si, é bastante interessante. Nunca foi raro que homens e mulheres vivessem situações triangulares, mas um escritor romântico que passa pelas camas de duas irmãs e vive e convive com elas, isso é menos frequente. O caso começou a me interessar por sua modernidade ‘avant la lettre’ (em francês). No filme, existem paralelos claros e intencionais entre aquela época e a atual. O que ocorreu na França, no século 18, foi um cataclismo que teve desdobramentos que varreram a Europa como uma tempestade e, ao mesmo tempo, foram um desapontamento para muita gente, e a sociedade como um todo. Esperavam-se grandes mudanças. Elas ocorreram, mas foram seguidas de recuos. Sempre quis fazer um filme sobre minha geração, a de Maio de 68. Tinha 16 anos e o que houve na Alemanha foi muito forte. Digamos que o ponto de partida tenha sido semelhante ao da Revolução Francesa, quase 200 anos antes, mas levou a resultados diversos. Marcou a vida de muita gente, incluindo a minha. Era uma coisa de que queria falar e essa história finalmente me forneceu as ferramentas.

 

Embora tenha uma dezena de filmes no currículo, você trabalha muito para TV e isso limita a difusão do seu trabalho. A TV foi uma opção?

Sim, e não. Tenho feito muita coisa para TV, mais que para cinema, porque a mídia me fornece os elementos e as coisas ocorrem mais rapidamente. Talvez, se estivesse fazendo séries nos EUA, tivesse mais visibilidade em seu país. Minha produção para televisão tem sido bem recebida, o próprio Festival de Roterdã reconheceu isso na homenagem que me prestou, com direito a retrospectiva. Mas a verdade é que, trabalhando numa outra mídia, com outro sistema de produção e distribuição e talvez, no limite, outro público, você fica meio escondido. Creio que foi o que ocorreu comigo.

Falar em triângulo amoroso no cinema remete sempre a Jules e Jim. Você pensava no clássico de (François) Truffaut?

Mesmo que não quisesse pensar, Jules e Jim faz parte do meu inconsciente de cinéfilo, provavelmente do seu, também. Temos lá dois homens e uma mulher, aqui, duas mulheres e um homem, uma situação muito mais próxima de As Duas Inglesas e o Amor, que o próprio Truffaut adaptou de outro livro de Henri-Pierre Roché. Embora a guerra de Jules e Jim seja transformadora, dos homens e da sociedade, como a Revolução Francesa, tenho a impressão de que as irmãs von Lengefeld não se comparam a Catherine/Jeanne Moreau, uma mulher avançada para o seu tempo, terna e cruel. A questão central de Duas Irmãs, Uma Paixão, a par de me permitir falar do passado numa perspectiva contemporânea, é a discussão sobre o Romantismo. Schiller é um autor identificado com o movimento, mas de que maneira sua vida e o triângulo em que se colocou são românticos? Foi um filme que gostei de fazer, mas, às vezes, tenho a sensação de estar fora do tempo. Como se as histórias que gosto de contar não interessassem ao público atual. Pode ser só uma sensação, mas esse sentimento muitas vezes me acompanha.

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