Leo Aversa
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Dira Paes filma 'Pureza', a luta de uma guerreira contra o trabalho escravo no Brasil

Atriz fala também dos papéis nos novos filmes de Gabriel Mascaro e Miguel Falabella

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2018 | 06h00

Atriz desde os 16 anos – estreou como índia em A Floresta das Esmeraldas, de John Boorman, de 1985 –, a paraense Dira Paes foi, durante muito tempo, um biscoito fino apreciado somente pelo público de cinema. Participou de filmes importantes, grangeou respeito e admiração. A popularidade veio com a televisão, primeiro como A Diarista e, depois, com sua participação em Amores Roubados. Aos 45 anos, chegou até a entrar na mirar da Playboy, tudo por conta de suas cenas de nudez na minissérie. Declinou. “Como atriz eu tenho facilidade e me sinto à vontade com a nudez. Fora das personagens, não.”

Aos 49, Dira não se importa de sacrificar a beleza por um novo papel. A personagem vale a pena. Em Pureza, que conclui atualmente no Distrito Federal, sob a direção de Renato Barbieri, ela interpreta uma personagem real, Pureza Lopes Loyola. Como integrante da ONG Movimento Direitos, Dira já a conhecia. “Sabia da sua importância e até que ela havia recebido um prêmio internacional da área de direitos humanos, o Nobel do setor. Mas interpretar essa mulher me deu outra vivência. Pureza saiu por esse Brasil atrás do filho, Abel. Ele saiu de casa atrás de emprego, e nunca mais deu notícia. Pureza seguiu sua trilha, trabalhou numa fazenda como cozinheira e descobriu o trabalho escravo. Conseguiu documentá-lo e dessa forma, com o apoio da Pastoral da Terra, libertou centenas de homens e mulheres que trabalhavam em condições desumanas no interior do Pará. Acho fundamental que o cinema conte essas histórias. O Brasil precisa saber tudo o que ocorre nessa imensidão e faz a fortuna de poucos”, diz a atriz.

Para viver essa guerreira de 52 anos, Dira não se importou de sacrificar a própria beleza. São apenas três anos de diferença, mas vai uma distância enorme entre a mulher urbana, tratada, e a outra sacrificada no sol da estrada e da labuta sofrida. Dira conta que fica quase todo o dia na pele de Pureza, caracterizada como ela. “Isso não significa apenas o figurino, mas também escurecer a pele, criar manchas. Já tenho a tez morena, mas o sol amazônico pode ser inclemente. Para dar veracidade à Pureza da tela era preciso construir a personagem no plano do físico. Parei de me depilar, tudo para servir à personagem. Mas isso é só a exterioridade. Eu ainda tenho de dar conta da sua emoção, da sua disposição, da sua luta.”

A própria Dira dirige a ONG Movimento Direitos Humanos, formada por artistas para defender causas sociais e ambientais. Trabalho escravo, prostituição infantil e demarcação de terras indígenas são prioridades nessa luta. O repórter lembra um clássico de Roberto Farias, cineasta que morreu há pouco. Todo mundo conhece os filmes de Farias com Roberto Carlos, e também Assalto ao Trem Pagador e Pra Frente, Brasil. Mas poucos conhecem a verdadeira obra-prima do diretor – Selva Trágica, de 1964, adaptado do romance de Hernani Donato, com Reginaldo Faria e Rejane Medeiros. O filme se passa na fronteira paraguaia, na região de cultivo de mate, onde homens endividados são forçados a trabalhar como animais – a cena em que Reginaldo tenta levantar a carga muito superior a suas forças – e as mulheres são obrigadas a se prostituir. Dira admite desconhecer o filme de Roberto Farias, mas vai tratar de procurá-lo. “Vai ser muito útil na nossa ONG”, reflete a atriz.

Dira Paes reconhece que se jogou no papel de Pureza Lopes Loyola, e que procurou ir fundo na vida sofrida dessa mulher. “Sou mãe e entendo a luta dela em busca do filho. Por conta da profissão, eu, às vezes, tenho de me afastar deles, mas procuro compensar. Agora mesmo, aproveitando o período de férias escolares, eles estão comigo (aqui) no set de Pureza.” Dira se refere aos filhos Inácio e Martim, de sua união com o diretor de fotografia Pablo Baião. E o maridão? “Ele também trabalha muito, mas temos períodos de espera e inatividade profissional em que a prioridade é toda da família.” 

Incansável, Dira tem atualmente, além de Pureza, dois outros filmes rodados e uma novela a caminho. Os filmes são Divino Amor, de Gabriel Mascaro, e Veneza, de Miguel Falabella. “Interpreto mulheres diferentes da Pureza, mas o bacana é isso. A diversidade me permite criar um espectro feminino bem amplo”.

“O empoderamento das mulheres não tem uma só cara”, ela explica. Veneza terminou sendo uma das mais inesperadas surpresas de sua carreira. “Miguel Falabella é um autor dos mais conhecidos. Tem um elenco de mulheres maravilhosas que costumam trabalhar com ele. Eu nunca me imaginei participando desse universo, e aí o Miguel me chamou para o filme dizendo que a personagem tinha a minha cara e havia sido escrita pensando em mim.”

Veneza é o segundo longa de Fallabela, dez anos depois de Polaróides Urbanas, que é de 2008. Baseia-se na peça do escritor e dramaturgo argentino Jorge Accame e conta a história de uma cafetina cujo grande sonho é reencontrar o único homem que amou (e a quem tratou muito mal). Conta, para isso, com a cumplicidade das prostitutas que trabalham em seu bordel, e se juntam a um circo para fazer com que Gringa, a cafetina, possa encontrar seu amado, senão na realidade, por meio da fantasia. Fallabela filmou no Uruguai e na Itália – Veneza, claro. A almodovariana Carmem Maura faz a protagonista. Dira integra o grupo das prostitutas com Danielle Winits, Carol Castro e Georgina Barbarossa, muito popular na Argentina. 

Com destacadas participações em filmes de Cláudio Assis, Dira Paes tem um apreço muito grande pelo cinema pernambucano. “Seus diretores têm uma pulsão muito forte (de vida)”, esclarece. Um desses grandes diretores, justamente com Assis, é Gabriel Mascaro, autor do belíssimo Boi Neon, com sua discussão dos papéis sociais de homens e mulheres. Com Mascaro, Dira fez Divino Amor. “Minha personagem é escriturária num cartório. Ela atende o setor de divórcios, é evangélica e usa seu conhecimento da Bíblia para o que considera a missão de sua vida – impedir que os casais se separem. No filme, ela participa do teste de elenco para uma produção evangélico-erótica que pretende mostrar que a sexualidade aumentada é a verdadeira garantia de uma família unida.” Ela contracena com Júlio Machado, que foi o Joaquim de Marcelo Gomes.

Três filmes – três diferentes retratos de mulheres. Pureza, Divino Amor, Veneza. A garota que começou como índia – A Floresta das Esmeraldas (1985), de John Boorman –, foi cangaceira (Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry, 1996) e professora (na novela Velho Chico), prossegue uma das carreiras mais belas do audiovisual brasileiro. Na cidade, na floresta, no sertão, Dira representa, com orgulho e talento, as muitas faces das mulheres do Brasil.

Em setembro, atriz começa a gravar ‘Verão 90 Graus’

A novela das 7 que vai ao ar em janeiro ficcionaliza os dramas de personagens que sofreram o confisco da poupança de Collor

Na TV desde Carne de Sol, de 1986 – no ano seguinte a A Floresta das Esmeraldas –, Dira Paes teve de esperar oito anos pelo estouro como A Diarista e (2004/7), mais sete até Amores Roubados, quando o público descobriu que, além de um grande talento, ela tinha (com todo respeito pela mãe de dois filhos) aquele corpo escultural. Para fazer a campeã da luta por direitos humanos e contra o trabalho escravo, Pureza Santos Loyola, Dira precisou maltratar o próprio corpo para dar convicção à personagem de mulher sofrida. Ele termina a filmagem e para por dois meses. “Vou cuidar de mim, fazer uma boa limpeza de pele. Cuidar das crianças (Inácio e Martim) e do Pablo (Baião, o marido)."

Em setembro, ela começa a gravar a novela das 7. Inicialmente, Verão 90 Graus, de Izabel de Oliveira e Paula Amaral, deveria substituir a atual novela do horário, Deus Salve o Rei, que termina no dia 30, mas foi adiada – segundo numerosas fontes – para não trombar com as eleições. Apesar do título com sugestões de praias, sol, calor, Verão 90 Graus conta a história de diversos personagens que tiveram a poupança confiscada, em março de 1990, no plano econômico do então presidente Fernando Collor de Mello, que derrotara Luís Inácio Lula da Silva na eleição do ano anterior. Novelas precisam ser produzidas com grande antecedência e, quando a Globo começou a anunciar Verão 90 Graus para julho, Collor se anunciava como presidenciável pelo PTC. Em junho, o partido desistiu da candidatura e o ex-(polêmico) presidente ficou fora da disputa.

Em 1995, no calor da hora, Walter Salles e Daniela Thomas fizeram o filme Terra Estrangeira, que começava justamente com o confisco da poupança e o impacto na família do personagem de Fernando Alves Pinto. O atraso nas gravações de Verão 90 Graus foi que permitiu que Dira Paes fizesse Pureza. “Liguei para o (diretor) Renato (Barbieri) e ele ainda estava com problemas para escalar a atriz. Foi assim que a Pureza voltou para mim.” 

Ex-colaboradora de texto na série Malhação, Izabel de Oliveira fez em 2012 sua primeira novela como autora principal, Cheias de Charme. Em 2014, a segunda, Geração Brasil, ambas com parceria de Filipe Miguez. Em Verão 90 Graus a parceria é com Paula Amaral, que também integrou a equipe de roteiristas titulares de Malhação. Da série adolescente, é um salto e tanto para a revisão de um dos assuntos traumáticos do Brasil dos anos 2000. Dira está animada com a história, a personagem. “A novela sofreu mudanças de elenco, mas Cláudia Raia também está confirmada.”

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