Dino De Laurentiis vai produzir filme sobre Alexandre, o Grande

No dia 6 de maio, Dino De Laurentiis será homenageado, num jantar de gala, pela Brooklyn Academy of Music (ou BAM), em Nova York. No dia seguinte, começa uma retrospectiva dos principais filmes que produziu. Durante duas semanas, serão exibidos títulos como Noites de Cabíria, Veludo Azul e Na Época do Ragtime. Aos 82 anos e com cerca de 200 filmes em seu currículo, o produtor italiano trabalha a todo vapor em mais dois grandiosos projetos. Além de estar filmando Red Dragon, livro que deu origem ao personagem de Hannibal Lecter e cujas duas continuações - O Silêncio dos Inocentes e Hannibal - renderam filmes estrelados pelo ator inglês Anthony Hopkins, Dino, como o produtor é conhecido em Hollywood, acabou de receber luz verde para filmar um dos projetos mais disputados do cinema americano: a cinebiografia do líder macedônio Alexandre, o Grande. Dono de uma carreira que entra agora em sua sétima década, De Laurentiis foi o produtor que lançou as carreiras de Sophia Loren, Silvana Mangano (mais tarde sua mulher e mãe de sua filha, a também produtora Rafaella) e Arnold Schwarzenegger. Foi também um dos únicos que "encararam" Federico Fellini e o fez ganhar seu primeiro Oscar, por Noites de Cabíria. Para cada filme aceito pela crítica, como La Strada e Guerra e Paz, ele criou grandes sucessos de bilheteria como King Kong e Conan e também retumbantes fracassos como O Ano do Dragão, de Michael Cimino, e Corpo em Evidência, com Madonna. "Quando decido fazer um filme, eu o faço. Quem se arrepende são os covardes", diz De Laurentiis. Agência Estado - O sr. já teve vários apelidos : o produtor europeu, a lenda italiana, o produtor internacional. Que tipo de produtor realmente é? Dino De Laurentiis - Só há dois tipos de produtor. O que trabalha para um grande estúdio e o independente. Sou o último. O primeiro está na folha de pagamento de uma corporação. Lê um livro ou roteiro e reporta para os executivos do estúdio. Se interessar para essa companhia, eles mandam seus capangas batalhar pelos direitos. Não trabalho desse jeito. O sr. fez centenas de filmes. Sabe o número exato ou já perdeu as contas? Há muita confusão a respeito disso. Alguns jornais dizem que fiz 600 filmes. É incorreto. Produzi cerca de 200, o restante é atribuído a mim pois ou comprei os direitos de distribuição ou financiei uma parte ou dei minha bênção ao projeto. Já trabalhou também com muitos diretores. Com quem aprendeu mais? Sem dúvida nenhuma, Fellini. Era o único que seguia o roteiro, sabia cena por cena antes de começar a filmar e não me dava trabalho. Foi o maior. Éramos grandes amigos. O sr. tem uma história engraçada sobre ele? Quando Fellini me mostrou Noites de Cabíria, fiquei intrigado com uma passagem que durava dez minutos. Era a cena de um homem que faz um discurso filosófico para um público filosófico. Ficou longo. Disse a ele que precisava cortar a cena, mas Fellini se recusava. Quando começou a cortar os negativos, não encontrou mais a cena. Fellini me ligou para protestar e eu disse: "Olha, acho que foi a divina providência que sumiu com a cena, para, assim, o filme ficar mais curto e compreensível!" Noites de Cabíria ganhou um Oscar de filme estrangeiro e fez muito sucesso nos EUA. Em NY, 15 anos mais tarde, Fellini me ligou e disse: "Você nunca vai me devolver aquela seqüência que eu sei que surrupiou?" Produziu também um dos filmes de Bergman. Como foi? Mesma coisa. Grande talento, grande relacionamento, nenhum problema. Produzi um grande filme de Bergman, O Ovo da Serpente. Mas foi artístico demais para o grande público. Como se lida com cineastas tão diferentes? Cada diretor é uma mentalidade diferente. Mas na hora em que chegam ao set, são exatamente iguais: à procura da melhor cena. Há de ser criar um relacionamento respeitoso. É claro que você tem de estar acima de um diretor e fazê-lo sempre acreditar que você está abaixo dele. Por que ainda não trabalhou com um cineasta da América do Sul? Já tive muitos projetos com latinos, mas acabaram não vingando. Quase trabalhei com Bruno Barreto. Como avalia a situação do cinema italiano? É um problema, pois os produtores querem fazer filmes pequenos. A saída para o cinema italiano é a internacionalização, pois eles só podem sobreviver caso exportem o filme. Quais são os atores que devem o início de suas carreiras ao sr.? Eu criei (Alberto) Sordi, (Vittorio) Gassman, Gina Lollobrigida, Silvana Mangano, Sophia (Loren), Bo Derek e (Arnold) Schwarzenegger. Dei muitas chances. E eles me escutaram muito, pois sempre orientei-os com conselhos certos. E quem deu o melhor conselho para o sr.? No começo de minha carreira, ninguém. Mais recentemente tem sido minha mulher (Martha, de 45 anos, que também é parceira profissional do produtor e mãe de suas duas filhas pequenas). Costumo deixar a porta da sala de meu escritório em Nova York aberta. E um belo dia, vi um anjo loiro passando na minha frente. Era Martha.

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