Diler e Walkiria, os líderes do cinema de mercado

Eles representam a metade, senão mais, doPIB, do cinema brasileiro atual. Diler Trindade tem arrebentadonas bilheterias com os filmes de Xuxa e dos Trapalhões, queproduz na Diler & Associados; Walkiria Barbosa saboreia o maiorsucesso de público do cinema nacional neste ano, Se Eu FosseVocê, de Daniel Filho, produzido por sua empresa, a TotalEntertainment. Ambos são o que se chama de ?produtores demercado?, fazendo filmes em escala industrial. Contam, muitasvezes (quase sempre?), com apoio e até parceria da Globo, masisso não os livra de sobressaltos. Walkiria e seus associados na Total tiveram desempenhofraco para filmes nos quais acreditavam. Diler amargou este anoo fracasso de A Máquina, de João Falcão, que ficou muitoabaixo do esperado, com cerca de 50 mil espectadores, apenas (aexpectativa mínima era de dez vezes mais).Não há fracasso que abale esses dois. O lema de Diler é?bola pra frente? e ele já está envolvido em mais projetos doque comporta o espaço desta reportagem. Walkiria tem dois outrês filmes em andamento, em sua produtora ou nas de associados- como a Lereby, de Daniel Filho -; sua menina dos olhos é oseminário que pretende realizar durante o Festival do Rio,trazendo ao País banqueiros dos EUA que vão discutir o cinemacomo atividade econômica. A reportagem reuniu os dois para umaconversa sobre cinema, mercado, arte e indústria. Começaramfalando de saúde - Diler estava gripado; Walkiria submete-se auma dieta rigorosa por causa de um problema ligado à produção deinsulina no corpo -, mas logo o assunto virou a saúde do cinemabrasileiro. Com algumas exceções, o desempenho dos filmesbrasileiros na bilheteria anda fraco. Só Se Eu Fosse Vocêultrapassou a barreira do milhão e temos um número muito grandede filmes abaixo dos 15 mil espectadores. O que anda ocorrendo?Diler - Está virando lugar-comum dizer-se que o filmetal foi bem porque teve apoio da Globo e os demais foram malporque não tiveram. Nós tivemos apoio integral da Globo para AMáquina e o filme, infelizmente, foi mal de público, ficandomuito aquém do que a gente esperava. A verdade é que o nossonegócio trabalha sobre ponderáveis. A bilheteria de um filmedepende sempre de elementos sobre os quais não temos controle.Na Máquina, por exemplo, acho que erramos. O filme foisuperdimensionado. Se tivéssemos começado com um lançamentopequeno, poderíamos ir ganhando o público, porque A Máquinatem um perfil diferenciado. Quanto à Globo Filmes, acho que seuapoio é fundamental, mas não uma garantia. Ainda assim vaidepender do gosto do público.Walkiria - Cada filme tem um tamanho. Sabemos disso,porque lá, na Total, trabalhamos muito com filmes bem diferentes No caso da Máquina, concordo com o Diler. Foisuperdimensionado, mas também não consigo imaginar um filme doJoão Falcão, baseado num livro e numa peça de sucesso, comaquele elenco e apoio da Globo, tendo um lançamento pequeno. Euadoro A Máquina. Fiquei muito emocionada quando vi e tenteimotivar as pessoas, mas esbarrava sempre numa reação contráriadelas. Acho que o trailer e o cartaz não vendiam o filme. Não éà toa que os americanos fazem testes para investigar o apelopublicitário. Diler - O próprio título provocava reações contrárias.Fui dar uma palestra na Lapa e cometi a imprudência de convidaro público jovem para ver A Máquina. Um cara confessou quetentou ver, mas quando consultou a namorada ela disse - AMáquina? Um filme de ação? Tô fora! Muita gente fez a associaçãocom Máquina Mortífera, por exemplo. Acontece que não podíamos trocar o título, que já era uma marca, vindo do livro e da peça.Walkiria - Vamos falar em cinema como negócio. Tenho umaprodutora que representa um custo xis. Preciso fazer pelo menosum filme, por ano, que dê dinheiro para pagar salários, impostos, senão eu fecho. Gostaria de ter sempre uma ótima crítica, masnão dá. A crítica, para dizer a verdade, tem sido cada vezmelhor e mais simpática para a gente. Poupa a produção; quandoataca, é os diretores. Quero dizer que não desconsidero acrítica. Acho que posso aprender com ela, mas a nossapreferência é pelo público. Nós, da Total, queremos fazer filmesrentáveis, que tenham bilheteria. Para isso, caprichamos emtodos os setores, mas não basta. A gente precisa saber quem é opúblico, o que ele quer, o que o motiva, como reage. Lá na Total temos uma pessoa que acompanha as bilheterias dos nossos filmescidade a cidade, tabulando o resultado e fazendo quadros. Aívocê vê que determinados filmes vão muito bem numa cidade e vãomal noutra ali do lado. Tentamos sempre descobrir o por quê. Nosparece que houve falha de comunicação com o público e é precisocorrigi-la.Walkiria, você fala muito em diversidade de produção...Walkiria - E vou falar sempre. Acho que a arte tem de ser plural. Às vezes você vai numa exposição e vê um quadro que nem entende mas aquilo o emociona. O cinema também deve ser assim.Precisamos fazer filmes de vários estilos e tendências e termuitos filmes de 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de espectadorespara chegar a estabelecer uma indústria. Uma das nossas metas naTotal é chegar a fazer mais de um filme ao mesmo tempo. Vocêaluga os equipamentos e faz dois, três filmes. Isso barateia oscustos. Um dos setores mais caros, proporcionalmente, naprodução de um filme, é a alimentação. Temos de fazer o mesmotipo de comida para a estrela e para o figurante, para quem comeem restaurante caro e quem só consome prato feito. São detalhesque não estão na mídia, mas que têm de aparecer quando se querser indústria.O Diler se queixa de que essa pluralidade é difícil porque oguichê de produção é hoje o mesmo para todos os filmes, os dearte e os de mercado.Diler - E este é um problema grave. Estou fazendo agora odocumentário Juízo, que é um projeto muito bacana da Maria Ramos que já fez Justiça. Para um filme desses não posso bater à porta das majors, que são minhas parceiras nos filmes da Xuxa, dos Trapalhões. Preciso encontrar outros guichês. No caso deJuízo, a parceira é a Petrobrás. Será um filme importante e eu gostaria, cada vez mais, de investir na diferença, mas, tendo omesmo instrumento para produzir todos os filmes, é claro que acoisa fica difícil. Se você vai vender um filme pequeno e outrogrande, as empresas preferem investir no que vai dar maisexposição.Quer dizer que as leis de incentivo estão ultrapassadas?Walkiria - O que as leis de incentivo fiscal reservam para ocinema brasileiro é insignificante em relação ao que vai paraoutros setores da economia. A indústria automobilística, porexemplo, é contemplada com mais facilidades, porque éconsiderada atividade econômica importante. Gera empregos,impostos. Mas nós também geramos. E somos supertributados. Nãovou dizer que todo, mas uma parcela significativa do dinheiroque recebemos volta para os cofres públicos, sob a forma deimpostos. Cinema é cultura, é arte, mas, para mim, que souprodutora, também é uma atividade econômica. Se a gente pagaimpostos e dá empregos, por que é tratado de forma diferente?Não quero piedade, não quero afago, porque um filme brasileiro,quando vai ao exterior, leva a imagem do País e volta sob aforma de turismo, que movimenta a economia. O governo mandaprojeto de lei para o Congresso que muda as regras do jogo. Oque vai ocorrer agora?Diler - É um ano complicado, de reeleição, pode dar alguma zebra e o plano não ser aprovado. Na Diler & Associados, trabalhamos com um plano B. Se as leis de patrocínio forem mudadas,inviabilizando o cinema que se faz hoje, vamos ter de mudarradicalmente. Vamos fazer filmes pequenos, com orçamentosmáximos de R$ 1 milhão, buscando parceiros que corram riscos coma gente. Vamos contar histórias comuns, abrir mão dos efeitosespeciais, que Hollywood faz muito melhor que a gente. Nossoefeito especial terá de ser a emoção.Peraí, Diler. Se esse é o modelo que vai resultar do apocalipsedo cinema brasileiro, que ele venha logo, porque vai mudar paramelhor.Diler - (Risos) Meu diretor preferido é o David Lynch. No Brasil adoro o Beto Brant. Meu sonho é chegar a uma diversidade tãogrande que me permita bancar, do próprio bolso, filmes tãodiferentes quanto os da Xuxa e os do Brant.

Agencia Estado,

04 de julho de 2006 | 20h32

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