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Dilemas, guerra e humanidade são os ingredientes de ‘Das Boot’

Segunda temporada da série alemã obre a Segunda Guerra expande a trama os Estados Unidos, em Nova York

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADO

20 de agosto de 2020 | 05h00

Na série Das Boot, nem todos os alemães durante a Segunda Guerra Mundial são monstros cruéis e unidimensionais. Como quase todos os seres humanos, eles têm dúvidas e hesitações, deixam-se levar por afinidades pessoais, agem por impulso, ambição ou instinto de sobrevivência, muitas vezes mais do que por ideologia. “Na verdade, acho que esse clichê não existe mais”, disse ao Estadão o ator Clemens Schick, conhecido dos brasileiros por ter trabalhado com os cineastas Karim Aïnouz (Praia do Futuro, ao lado de Wagner Moura) e Esmir Filho (Alguma Coisa Assim). Schick entra na segunda temporada da série alemã, que estreia no Brasil hoje no streaming Starzplay - os oito episódios anteriores também estão disponíveis. 



Para Tom Wlaschiha (o Jaqen H’ghar de Game of Thrones), que faz Hagen Forster, o chefe da Gestapo na cidade portuária de La Rochelle, na França ocupada pelos nazistas, tratar os alemães como gente já era uma coisa vista no filme O Barco: Inferno no Mar (Das Boot, 1981), de Wolfgang Petersen, igualmente inspirado no livro ficcional de Lothar-Gunther Buchheim baseado em sua experiência como correspondente de guerra a serviço da propaganda de Joseph Goebbels. Buchheim esteve a bordo do U-96, um dos submarinos da frota alemã, numa de suas missões no Atlântico. “Na verdade, isso faz com que seja muito mais horrendo porque mostra o que a guerra faz com as pessoas”, disse Wlaschiha em entrevista ao Estadão. Seus dois avôs lutaram na Segunda Guerra, mas, como é comum com os combatentes, nunca falaram muito sobre o assunto. “Eles eram pessoas maravilhosas. Eu amo os dois. Se eles tiveram de fazer coisas horríveis? Eu não sei. E também quem sou eu para julgar, é fácil daqui onde estou”, afirmou. “Não há dúvidas de que a guerra foi iniciada pelos alemães, mas para as pessoas comuns foi igualmente horrível em todos os lugares.”

Das Boot é uma espécie de continuação do longa de 1981, que concorreu a seis Oscars. Enquanto o filme terminava em dezembro de 1941, com a destruição do U-96 por um ataque aéreo dos Aliados, a primeira temporada começa nove meses depois, em 1942, e não se passa unicamente dentro de um submarino, mas também na cidade de La Rochelle. Lá a tradutora Simone (a ótima Vicky Krieps, de Trama Fantasma) ajuda a Resistência, à qual se juntou pelo acaso e por amor, enquanto trabalha para Forster. 


 


A segunda temporada inicia-se logo após a surpreendente volta do U-612, no fim da primeira. Era um momento em que a guerra estava virando a favor dos Aliados. Simone precisa lidar com a ira de Forster, que vai querer se vingar. “Para ele, é uma jornada mais interior porque enfrentou a traição fatal da mulher que ama. Ele quer vingança, mas as coisas não saem como esperava”, contou Wlaschiha. 

Entra em cena o comandante do U-822, Johannes von Reinhartz (Clemens Schick), que sai para o mar com parte da tripulação do U-612, incluindo o irmão de Simone, Frank (Leonard Scheicher). Von Reinhartz ainda está atordoado por sua última missão, em que teve de esconder o submarino embaixo dos sobreviventes de um navio que havia bombardeado, sem saber que carregava civis. “Ele está numa crise de valores”, lembrou Clemens Schick. “Cresceu na guerra. E agora, aos 40, percebe que os valores que serviram de coordenadas para sua vida não lhe dizem nada. Ele enxerga como a guerra afeta as pessoas.” Como alemão, o ator tem uma baliza quando se trata de trabalhos sobre a Segunda Guerra. “A moral da história tem de ser que guerras levam apenas à destruição e à morte. E nessa segunda temporada temos personagens que fracassam ou que percebem isso. Mas também era importante interpretar Johannes sem ingenuidade. Um soldado alemão lutando durante tanto tempo não pode de repente descobrir a beleza da humanidade. Ele quer fazer o bem. Quer reagir. Mas também percebe que mudar seu comportamento não é tão fácil.” 

A segunda temporada também expande a trama para os Estados Unidos, em Nova York, onde o banqueiro Sam Greenwood (Vincent Kartheiser) recebe uma visita inesperada: Hoffman (Rick Okon), o comandante do U-612 que sofreu um motim e foi abandonado no mar. Greenwood representa o poder do capital. Seu pai foi um dos financiadores dos esforços da guerra nazista, e agora tenta lucrar com a entrada dos EUA no confronto - mais uma nuance de uma série que não está interessada em mocinhos e bandidos. 

Tom Wlaschiha acredita que, no fim, é uma história de indivíduos que defendem suas crenças mesmo quando são impopulares. “E isso é importante em qualquer época, mas principalmente agora, quando vemos de novo o nacionalismo em alta.”

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