DiCaprio volta às telas em dose dupla

Depois do estardalhaço de Titanic (1997), o telefone do agente de Leonardo DiCaprio não parava de tocar. Todos os estúdios queriam escalá-lo, na esperança de capitalizar sobre a sua ascensão relâmpago em Hollywood. O astro, no entanto, recusou a maioria das ofertas. Apenas protagonizou O Homem da Máscara de Ferro, fez uma ponta em Celebridades e rodou A Praia. ?Preferi diminuir o ritmo de trabalho para não ficar superexposto?, disse DiCaprio, que voltará às telas em dose dupla, sob a direção de dois renomados diretores.O ator de 27 anos e cachê na faixa dos US$ 20 milhões protagoniza duas das mais aguardadas produções de fim de ano nos EUA, com lançamento previsto no Natal ? de olho nas indicações da Academia para o Oscar em 2003. DiCaprio interpreta Amsterdam Vallon, um imigrante irlandês que jura vingar a morte do pai, em Gangues de Nova York, dirigido por Martin Scorsese. Em Catch Me If You Can, assinado por Steven Spielberg, seu personagem é Frank Abagnale, o mais jovem ladrão a figurar na lista de procurados do FBI.?Não esperava competir comigo mesmo nas telas?, disse o ator, lembrando que o confronto nas bilheterias entre Gangues de Nova York, da Miramax, e Catch Me If You Can, da Dreamworks, não foi planejado. Gangues tinha lançamento previsto para dezembro do ano passado, mas atrasou. ?Confesso que, como eu não negocio os meus contratos, não sei se o meu representante incluiu alguma cláusula que pudesse evitar a disputa entre dois filmes meus. Mas não estou preocupado. Afinal, já sei o resultado. Vou ganhar e perder ao mesmo tempo.?Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que DiCaprio concedeu à Agência Estado, em Los Angeles.Agência Estado - Em seu lugar, muitos atores teriam aproveitado a fase pós-Titanic para trabalhar ao máximo... Leonardo DiCaprio - Mas eu não me sentia à vontade com aquela obrigação de fazer um filme tão bem-sucedido nas bilheterias quanto Titanic. Na época, os estúdios só me chamavam porque queriam que eu fizesse dinheiro facilmente para eles. Sem falar que é desagradável a sensação de ser o ?astro do momento?, quando você sabe que tudo pode mudar na semana que vem. Então, eu decidi ir com calma. Agora só me interessa trabalhar com diretores com quem posso aprender alguma coisa.O que aprendeu com Scorsese e Spielberg?Para um ator é sempre um privilégio trabalhar com os dois. Significa que você não precisa se preocupar com mais nada. Exceto com a sua performance. Já estive em sets onde eu tinha de supervisionar se o ângulo de câmera estava bom, se a iluminação estava correta e se o cenário era realista o suficiente. Isso é desesperador. Com Scorsese e Spielberg, pude relaxar e assisti-los trabalhar. Nos dois casos, é uma aula de cinema. São diretores tão apaixonados pelo que fazem que, mesmo nas horas de folga, só falam de cinema.É verdade que você já sonhava com o papel de ?Gangues? antes mesmo de ser um ator conhecido?Quando ouvi que Scorsese faria uma superprodução épica sobre a guerra de gangues de Nova York, eu estava com 16 anos e não tinha nenhum filme de peso no currículo. Na época, meu agente o procurou, tentando marcar um encontro, mas não deu certo. Só conheci o diretor seis anos depois, quando implorei pelo papel.Como foi rodar ?Gangues? nos estúdios da Cinecittà, em Roma, por onde passaram mestres como Federico Fellini, Seorgio Leone, etc?Foi o cenário mais incrível em que já trabalhei. Não só pela recriação fantástica da Manhattan do século 19, mas por toda a história ao meu redor. Eu me senti privilegiado só de pisar em estúdio tão lendário, palco de tantos clássicos e local de trabalho de tantos mestres. Acho que experimentei a chamada La Dolce Vitta (risos). Também fiz questão de conhecer o restaurante preferido de Fellini, em Roma, sentando-me à mesa cativa do cineasta.Qual a sua versão sobre o que a imprensa italiana noticiou durante as filmagens de ?Gangues??? Disseram que Scorsese chamou a sua atenção por chegar sempre atrasado ao set...Aprendi desde que entrei para o show biz que a imprensa precisa preencher as páginas dos jornais. Então não me incomodo muito com as histórias fantasiosas a meu respeito. Eu estava lá todos os dias, durante os oito meses de filmagens. Nunca trabalhei tão duro na minha vida. Até porque meu personagem está praticamente em todas as cenas.Como se preparou fisicamente para cada papel, mudando quase radicalmente de um para o outro?Como fui escalado por Scorsese com a antecedência de um ano, pude mergulhar no personagem Amsterdam. Li tudo o que caiu nas minhas mãos sobre o período histórico e malhei como um alucinado. Estava tão empolgado que fiquei pronto para rodar sete meses antes do início das filmagens. Com isso, tive de continuar fazendo musculação para manter o físico avantajado. Para viver Frank, foi o oposto. Como ele é mais jovem que Amsterdam, tive de emagrecer os 7 quilos que tinha engordado e perder os músculos. Como o corpo estava bem delineado, o caminho inverso foi ainda mais difícil.Você conheceu pessoalmente Frank Abagnale (que depois de extorquir US$ 6 milhões nos anos 60, tornou-se consultor do FBI)?Sim. Ele aceitou o meu convite e passou três dias na minha casa, em Los Angeles. Frank está com 54 anos e mora em Tulsa. É um cara muito interessante. Felizmente não se importou que eu ficasse no seu pé, com um gravador, perguntando ?Por que fez isso, por que fez aquilo???.Como você lida com a fama, levando em conta que caiu nas graças de Hollywood tão jovem?Não deixei o sucesso afetar demais a minha vida. Tento, na medida do possível, levar uma vida normal e não me afastar das experiências do dia-a-dia. Não deixo de fazer as coisas que quero ou mesmo de conversar com as pessoas porque sou reconhecido nas ruas. Procuro separar quem eu sou daquela imagem que a mídia e o público têm de mim.

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