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DiCaprio defende o 'Lobo de Wall Street' de ser benevolente com Wall Street

Ator rebate críticas contra o filme de Scorsese que concorre em cinco categorias no Oscar 2014

Melena Ryzik, The New York Times

18 de fevereiro de 2014 | 18h26

“Vem cá, dá um abraço!”, diz Leonardo Di Caprio, abrindo os braços. Viver durante meses no circuito do Oscar pode favorecer certa familiaridade, porque as pessoas se encontram muitas vezes: nas festas promovidas pela Paramount, o estúdio que lançou o filme mais recente do ator, O Lobo de Wall Street; em várias cerimônias que antecedem a entrega do Prêmio da Academia, em que o filme recebeu cinco indicações, inclusive uma para Di Caprio como melhor ator; e num almoço para os membros da Academia que adoram distribuir apertos de mão. Num deles, vi uma fã aproximar-se dele. “Adorei você em Growing Pains” (em que Di Caprio era ainda adolescente), ela disse, pedindo uma foto. E ele atendeu na hora ao pedido.

No mesmo almoço, um eleitor mais velho do Oscar beliscou a bochecha de Di Caprio, como se ele fosse seu netinho ou ainda o galã adolescente, e não um ator e produtor de quase 40 anos, com duas décadas de experiência cinematográfica bem-sucedida. Recentemente, ele participou de uma mesa no Ziegfeld Theater, em Manhattan, para discutir sua colaboração com Martin Scorsese – O Lobo de Wall Street é o quinto filme que eles realizam juntos – com a editora de Scorsese, Thelma Schoonmaker, e o roteirista Terence Winter.

Nos seus vários compromissos do circuito, ele falou do seu trabalho como produtor do filme sobre um corretor inescrupuloso, com Scorsese na direção, e com o respaldo do poderoso financista Red Granite; do improviso que ele e seus coadjuvantes fizeram; e, principalmente, das repercussões deste retrato da depravação financeira e física transposto para a tela. A respeito dos críticos, ele disse: “Se eles não entenderem a ironia, sinto muito”. Quando nos encontramos para uma entrevista, na semana passada, ele ainda estava com a maquiagem que usara num clipe para a televisão que acabava de rodar e, como tem feito há semanas, fumava um cigarro eletrônico. “Então”, ele disse sorrindo, “o que será que você vai me perguntar que possa interessar-lhe, a esta altura?”

Este filme provocou uma reação intensa. Tem acompanhado?

Li a respeito das reações do público e é interessante. Na realidade, não fiz tantos filmes que causassem algum tipo de polêmica. Para mim, está sendo um processo de aprendizado, vejo pessoas que começam a entender um pouco mais a respeito do que o filme procurou mostrar. No começo, ouvi comentários do gênero: “Este é um endosso evidente desse estilo de vida”. Mas acho que talvez elas não entendam que nosso objetivo era criticar este tipo de gente e seu mundo.

Vamos falar das mudanças ocorridas na indústria do cinema. Você tem tido a oportunidade de ver isso bem de perto ao longo de sua carreira. O que você viu quando começou neste meio por acaso afetou as escolhas que está fazendo agora?

Quando comecei, os filmes que se faziam eram diferentes, com enredos mais para médio ou baixo orçamento. Depois houve um breve período em que eu fiz coisas maiores, como Diamantes de Sangue, ou O Aviador, filmes sobre os quais os estúdios diziam: “Este é um trabalho de muita dramaticidade, mas é um épico de grande orçamento e de nível, e nós vamos correr esse risco”. Foi um renascimento. Eu e todos os amigos com quem comecei a fazer testes assistíamos aos filmes dos anos 70, da era do cinema de realizador; evidentemente, isto acabou. Depois, vieram os sucessos estrondosos. Acho que um filme como Aviador não seria produzido hoje.

O fato de você ter recebido sua primeira indicação ao Oscar ainda novo, ‘Aprendiz de Sonhador’, mudou a maneira de você se ver como ator ou como você se entendia nessa comunidade?

Foi uma grande surpresa. Eu não lia as resenhas ou coisa que o valha. Aconteceu que encontrei umas pessoas que me disseram: “Olhe, você foi muito bom naquele filme”. Tenho a impressão de que o mundo hoje é muito diferente. Agora há sites que dão tanto a média das avaliações da crítica quanto a bilheteria. Quanto ao significado de uma indicação, não sei realmente o que dizer. Não sei como as pessoas irão reagir ou responder, se de maneira positiva ou negativa. Mesmo que você ponha tudo o que tem de seu num filme, o público pode simplesmente não gostar do set. Até minha mãe ou seu namorado, quando pergunto se um filme meu foi ótimo pode responder: “Detestei”. Por quê? “As roupas, estavam limpas demais. Não me pegou, todo mundo tinha um aspecto muito limpo, as roupas deveriam estar mais sujas.”

E no entanto vocês tiveram muito trabalho com este filme. Houve alguma fala, algo que vocês não quiseram colocar na tela?

Não mesmo. Sempre que tentávamos fazer uma coisa que achávamos que seria tradicional – porque, veja bem, há outros filmes sobre este tema, há Wall Street, Poder e Cobiça, vocês viram Boiler Room, você tem as vítimas e os protagonistas, os agressores, que as manipulam... O que nós queremos fazer é mergulhar o ator na maneira de pensar de outra pessoa. Acho que houve alguma reação negativa ao fato de que não tratarmos mais das vítimas, ao fato de o protagonista não ter tido uma punição adequada.

Mas este é um filme de Martin Scorsese, uma maneira de refletir a verdade.

Não acho que os operadores fraudulentos de Wall Street estivessem preocupados com suas vítimas. Não acho que, em última análise, as pessoas do universo de Wall Street, que têm sido tão incrivelmente corruptas, tenham tido a punição merecida. Então, sempre que tentávamos um enfoque tradicional, dizíamos: “Não, não, precisamos ir mais longe ainda, porque o mundo deles é realmente assim”. Disseram que é uma comédia, mas não era esta a nossa intenção. O que é engraçado, às vezes, é o absurdo do mundo que eles criaram para si, um mundo em que não respeitam ninguém. 

Você usou as memórias de Jordan Belfort quando o livro ainda estava em prova, certo?

É, foi há sete anos. Acabamos conseguindo os direitos. Jordan sabia do meu relacionamento com Scorsese e acho que este foi um incentivo muito forte. Terry Winter escreveu o roteiro imediatamente. O estúdio estava com pressa, mas então – como posso dizer? – houve uma espécie de resistência diante do material e com a identidade real das pessoas citadas. (O projeto foi adiado e Scorsese voltou-se a Hugo) Já havia outros dois diretores convocados, mas eu queria que fosse Scorsese. Então disse a ele: “Sabemos como é o sistema dos estúdios, eles não fazem mais filmes como este. Consegui o dinheiro, precisamos fazê-lo agora, e eu garanto que teremos a liberdade artística”. Ele então disse: “Tá bom, garoto, vou pensar nisso”. E concordou.

Qual foi a reação dele quando ‘O Lobo’ encontrou resistência?

Ele disse algo recentemente que achei muito pertinente, porque as pessoas comentavam como estes personagens são asquerosos. “Olha, eles não foram muito bem educados. Por que eu faria um filme bem educado sobre eles?”

Você imita o Scorsese?

É claro. O tempo todo.

E ele imita você?

Hã-hã. Acho que eu sou mais sem graça. Sempre peço aos meus amigos que me imitem, mas eles nunca imitam. Isto me faz sentir uma pessoa muito desinteressante. Meus amigos acham que sou tímido. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

O LOBO DE WALL STREET

Título original: The Wolf of Wall Street

Gênero: Comédia (EUA, 2013)

Classificação: 18 anos

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Prêmio Oscar

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