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Diane Kurys fecha um ciclo com 'Por Uma Mulher'

Novo longa da diretora conta, de novo, em chave de ficção, a história de sua família

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2014 | 10h27

Com exceção de sua participação no Casanova de Federico Fellini, a carreira de atriz da francesa Diane Kurys não é marcada por muitos encontros notáveis. Mas ela tomou o gosto pelo cinema e prosseguiu, não como atriz, mas diretora. Diavolo Menthe, seu primeiro longa, de 1977, é considerado um dos melhores filmes confessionais da década. Passaram-se 30 e tantos anos, Diane Kurys fecha um ciclo. Seu novo longa, Por Uma Mulher, retoma a trilha - a canção - do primeiro. E conta, de novo, em chave de ficção, a história da família da diretora.

Diane tinha 6 anos quando seus pais se separaram. O fato foi decisivo em sua vida, forneceu-lhe um tema, ou temas. A mãe é o grande motor da obra de Diane Kurys. Inspira suas heroínas em Coup de Foudre, La Baule les Pins e, agora, Por Uma Mulher. Como em As Pontes de Madison, de Clint Eastwood, a histórias é contada do ângulo das filhas, e da filha cineasta, que vasculha a memória da mãe que morreu. No filme de Clint, são cartas. Aqui, elas se somam a fotos e objetos pessoais. Após a morte da mãe, o pai torna-se recluso. E ele parece não gostar de uma das filhas, com quem implica. São duas garotas - duas mulheres. O nó górdio dessa história toda é o terceiro vértice de um triângulo que se instala na casa, quando reaparece o misterioso irmão do pai.

O pai é um comunista sincero, um soldado do partido. A mãe é alienada. Está com ele por gratidão, porque ele salvou sua vida na guerra, não por amor. O belo irmão vem da URSS. Será um traidor? Ao irmão, ele diz coisas que lhe desagradam, subvertendo o conceito do paraíso stalinista. A família é de origem judaica. Parte dela morreu na guerra (nos campos de extermínio?) e permanecem velhas culpas. O irmão, na época presente, nas pesquisas da filha, vira nome de rua em Tel-Aviv. Um herói do povo judeu pode ser um traidor do comunismo? Jorge Luis Borges, o tema do herói e do traidor. O mais interessante na história desse triângulo permeado de dúvidas e incertezas é que os três vértices são éticos. O tema do sacrifício impregna as relações interpessoais.

A diretora está sendo acusada de fazer um filme arquiconvencional, mas será mesmo? Diane Kurys faz uma crítica contundente da célula comunista frequentada pelo marido. O líder do grupo não tolera o que, para ele, é a traição da mulher e termina por expulsá-la do partido. Se os bens de produção são coletivos, com que direito a propriedade pode ser aplicada às pessoas? A adúltera incentiva a mãe a assumir seus desejos. Um primeiro passo é fazer com que leia Gustave Flaubert, Madame Bovary. O pai possui uma pequena alfaiataria. Tenta eliminar a luta de classes dando sucessivos aumentos ao funcionário e proibindo-o de chamá-lo de patrão. Mas o pai, por amar tanto, tem suas debilidades.

Uma filha pode não ser dele - não é dele - e a outra... Naquela foto com o tio e mãe, não parece estar ali a verdadeira família amorosa e perfeita? Diane Kurys talvez seja uma romântica como François Truffaut - desconfia do romantismo. E ela reserva uma surpresa final. Você pode parar a leitura agora e retomá-la depois de ver Por Uma Mulher. As filhas despacham o pai com uma piada - uma mentira piedosa - para que o velho comunista morra feliz. Nunca houve uma cena de morte como essa, talvez em algum filme de John Ford. Sylvie Testud, a escritora/cineasta, é uma das atrizes fetiche de Diane Kurys. O triângulo é o mais belo que há. Mélanie Thiérry, a mãe, Benoit Magimel, o pai, e Nicolas Duvauchelle, o tio. Esse último é o ator de Políssia, A Filha do Pai e Minha Terra a África (de Claire Denis). Tão criminoso quanto dizer que Diane Kurys é convencional é vender seu elenco como burocrático. Há uma crítica que não merece ser chamada como tal.

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