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Diane Keaton volta com ‘As Rainhas da Torcida’, que dribla a morte e faz rir

Na comédia, Diane Keaton é Martha, que vai para uma casa de repouso de idosos para morrer, mas acaba realizando sonho interrompido da juventude, que era ser cheerleader; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2019 | 03h00

Logo no começo de As Rainhas da Torcida, Martha/Diane Keaton está liquidando suas tralhas. Antes de mais nada, o filme. Para a distribuidora Diamond, estreia nesta quinta, 25, mas, pelo ‘mercado’, virou pré-estreia, com horários cheios e a possibilidade de ampliar o circuito na semana que vem. Martha, portanto, vende tudo. Uma compradora lhe pede informações sobre a dona e ela, como se fosse uma terceira pessoa, diz que está morrendo de câncer.

Depois, Martha comenta, para ela mesma, que juntou tudo aquilo morando 46 anos no mesmo lugar. E pergunta-se, amarga – “Onde foram parar esses 46 anos?’ Bastam essas poucas cenas para que o espectador já reúna informações suficientes sobre Martha, mas é, os cartazes anunciam, um filme de comédia, e com a grande Diane, que ganhou o Oscar por Annie Hall/Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, em 1977, e seguiu trabalhando nos anos e décadas seguintes com Woody Allen, mantendo-se solidária com ele na fase difícil das acusações – abuso, pedofilia – que estão deixando a carreira de Woody no gelo, senão destruindo-a completamente.

A Diane de Annie Hall era ícone de elegância. Agora, meio caída, usa calça jeans folgada no bumbum. Ao repórter, numa entrevista por outro filme, desdenhou. “Ó, meu Deus, era uma outra vida”, ironizou, referindo-se à síndrome Annie Hall. Todas essas informações sinalizam para uma personagem solitária, amarga, terminal. Mas é, vale insistir, uma comédia, e nos últimos anos Diane Keaton não tem feito outra coisa senão rir, da vida e da própria persona.

Esse namoro com um tipo de comédia menos intelectualizada que as de Woody Allen não começou recentemente. Pode-se citar O Clube das Desquitadas, que é de 1996, e na sequência Alguém Tem de Ceder, de 2003, com Jack Nicholson, e Do Jeito Que Elas Querem, no ano passado. Nessa última, dirigida por Bill Holderman, integrava um clube de leitura com outras idosas – Jane Fonda, Mary Steenburgen, Candice Bergen. Liam 50 Tons de Cinzas, e qual fênix renascidas das cinzas, resolviam voltar à ativa. Ao sexo!

O espectador, já sabe, portanto, que esse flerte com a morte não vai demorar muito. Desembaraçada de suas tralhas, Martha pega a estrada e vai para uma casa de idosos. Espera-a um comitê de boas-vindas e ela antipatiza de imediato – nós, o público, também – com a líder do grupo, que vende o lugar como um paraíso.

Clubes, piscinas, amigos. Martha insiste – veio para morrer. Mas a vida vem, e por meio da vizinha do lado, com quem Martha também não simpatiza de imediato, mas nós, espectadores, sim. É possível ver, de cara, que Sheryl/Jacki Weaver vai fazer a diferença.

Em conversa com ela, Martha revela seu sonho interrompido de juventude. Queria ser líder – rainha – de torcida, mas teve de desistir para cuidar da mãe. E, agora, um pouco incentivada por Sheryl, Martha retoma o sonho e tenta formar um clube de ‘cheerleaders’.

São necessárias oito integrantes, e com alguma negociação, e um tanto de trapaça, forma-se o grupo.

As velhinhas renascem. Uma tem de enfrentar o filho, outra, o marido. Martha, a doença. Aprendemos a conhecê-las, uma a uma, e talvez algo se passe para o espectador que amou Jackie Brown, de Quentin Tarantino, quando Pam Grier, tentando habilitar-se para entrar no clube, pede licença para dançar. Pam tem um marido e ele é o único que abraça o desejo da mulher – em mais de um sentido. Chega a dizer que sempre sonhou em ter uma ‘cheerleader’ na sua cama. 

O filme evolui assim, a primeira performance é um fiasco. As idosas ganham alguns reforços jovens – um DJ, uma coreógrafa. E, enquanto isso, para tornar a comédia um pouco menos alegre, Martha segue preocupada com a morte, pensando no ‘depois’. O que fazer com o corpo, as cinzas? 

A diretora Zara Hayes veio da TV e sua experiência foi basicamente como documentarista. Vem daí que o desenho dessas personagens parece um pouco mais realista, as atrizes estão todas bem. E, agora, o spoiler. Leia só depois de ver. O final vem por meio de um fogo de artifício que explode na tela e vira metáfora. De vida, de cinema. Belo e fugidio. Essas velhinhas têm seus problemas, como todo mundo, mas são do barulho.

 

 

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