Divulgação
Divulgação

Dia de superastro dos efeitos visuais

O britânico Neville Page, responsável por dar rosto a personagens de ficção científica, é tratado como estrela no Brasil

João Fernando, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2013 | 19h39

Acostumado a ser apenas um nome nos créditos de filmes badalados, como Avatar e Star Trek: Além da Escuridão, o designer de personagens e criaturas Neville Page viveu momentos de estrela ao ficar diante de jovens aficionados por efeitos visuais em sua passagem por São Paulo. “Isso é só quando venho ao Brasil. Eles são aspirantes a designer muito entusiasmados. O nível de entusiasmo é alto e eles não têm vergonha de mostrar. Nas primeiras vezes em que estive aqui, abri meu Facebook para perguntas. Mas não consegui responder. Espero que entendam, eram muitas. Não deu”, justifica o britânico radicado nos EUA.

Além de dar cara aos monstros dos longas de ficção científica, Page também desenvolve figurinos de super-heróis, como o Lanterna Verde e outros personagens que não usam roupas do dia a dia, tais quais os macacões fluorescentes de Tron: O Legado. Para ele, criar os trajes de figuras conhecidas tem contrapartidas. “É mais fácil, porém, mais estressante chegar ao resultado. Você sabe o que fazer e conhece o mundo daqueles personagens, o que já é algo. O estressante é saber que isso estará sujeito à crítica dos fãs. Você não pode garantir que não vão odiar, apesar de haver grandes chances de eles adorarem”, analisa o artista, de 47 anos. No País, ele participou do The Union, evento voltado para os amantes de efeitos visuais, em que os jovens corriam de verdade garantir o lugar na plateia, ao som de rock pesado e luzes dignas de show.

A chancela dos fãs o preocupa. “Alguns absorvem a evolução e outros não. Quando anunciaram que o Ben Affleck seria o novo Batman, muita gente disse que ele iria arruinar tudo. Eu evito anunciar qualquer coisa. As pessoas não deveriam reclamar. O filme não é delas. São os dois lados da moeda. Fãs são muito comprometidos. Ao mesmo tempo, levam tudo muito a sério. Mas são filmes, é entretenimento. Não é algo que vai salvar a vida de uma pessoa”, disse ao Estado.

Neville Page conta que a inspiração para suas criações não baixa de repente. De acordo com ele, o cérebro não para. “Acho que design é uma psicose. Eu estudei o que pude dos meus criadores preferidos. Eles estão alertas com todos os sentidos. Em uma refeição, eles não reconheciam só o que estava comendo. Não era só um frango, percebiam a textura, a temperatura, o molho. Se você presta atenção na vida dessa maneira, cria uma biblioteca mental”, ensina.

O designer já levou sustos de sua mente incansável. “No lançamento de Avatar, sonhei que estava no planeta Pandora, com aquelas criaturas se escondendo nas sombras. Eu pensei: ‘Seu idiota. Você as criou e agora está aqui com elas’. Eu não costumo sonhar com o que faço. Às vezes, eu sonho com uma criatura e tento lembrar para desenhar.”

Com experiência em filmes infantis, ele diz não se preocupar tanto se os monstros vão assustar as crianças. “Tenho pouco controle sobre o que as pessoas deixam as crianças verem. Quando você as expõe a algo violento, não necessariamente elas se tornarão pessoas violentas. Só não acho sábio mostrar coisas precocemente para elas. Sexo é uma das melhores coisas do mundo, porém, você não pode mostrar isso com crianças.”

Page vê um lado positivo nesse debate. “É uma oportunidade de introduzir jovens mentes a novidades que possam inspirá-las. Não acredito na celebração da violência. Entretanto, acho que a violência de te estar no show biz para comunicar a realidade, como Avatar”, defende o artista, que está na equipe de Noé, superprodução que abordará parte da história do personagem bíblico. “Não vai ser só uma aventura em um barco. Vai ser mais profundo e mais obscuro.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.