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‘Dheepan’, de Jacques Audiard, tem seu mérito comprometido

Diretor francês que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes fez a escolha de agradar o gosto médio; veja trailer

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2015 | 05h00

Dheepan – O Refúgio venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano. Não se pode dizer que tenha sido uma unanimidade. A revista Cahiers du Cinéma, por exemplo, detonou a Palma concedida a este filme de Jacques Audiard e afirma que ela entrará na história de equívocos do festival. 

Pode ser. O cinema de Audiard não é mesmo chegado a unanimidades. No entanto, um dos seus filmes anteriores, Um Profeta, é saudado por alguns como um dos filmes mais interessantes do cinema francês dos últimos tempos. Em Dheepan, Audiard decide somar seu estilo intenso à preocupação com a des(ordem) do mundo. 

No caso, são três refugiados do Sri Lanka – um homem, uma mulher, uma menina –, que se fazem passar por uma família para conseguir um visto para a França. Eles de fato passarão a morar juntos, num condomínio popular em subúrbio francês dominado por traficantes. Dheepan, o homem, antigo membro da guerrilha em seu país, vê-se transformado em zelador do condomínio. A mulher toma conta de um idoso doente, justamente na casa de um dos chefes do tráfico de drogas. A menina é a que mais rapidamente se adapta à nova realidade. 

O filme tem méritos inegáveis. A começar pela boa ideia de colocar três estranhos para desempenhar o papel de uma família, sendo que mal se conhecem. Essa situação gera uma estranheza adicional na história, já de si problemática, dos seres deslocados para uma cultura bem diferente daquela de origem. Em seguida, há os intérpretes, muito naturais e entregues aos seus papéis. 

Para completar, há o modo de filmar de Audiard, que, se não é de todo original, parece bastante fluente. Sua narrativa desliza, sem tropeços e nem gorduras. É um cinema que, apesar do tom pesado do assunto, deixa-se ver com prazer.

Nem tudo, porém, são rosas. E o filme, de fato, derrapa um pouco do meio para o fim. Não parece legal transformar o protagonista numa espécie de Rambo a partir de determinado ponto da história. Parece que Audiard, ao adotar essa solução, visa mais ao público que à coerência interna da trama.

Deve ter pensado – e não sem uma boa dose de razão – que a catarse ainda é muito valorizada pelos fãs de cinema. Em especial do cinema comercial, que detestam sair frustrados da sala, seja por um final infeliz, seja pelo fracasso dos bons e triunfo dos maus. Ora, do cinema de empenho artístico pede-se e espera-se alguma coisa a mais, inclusive que tenha a coragem de contrariar expectativas conservadoras da clientela. Audiard não dá esse passo.

No balanço final, fica a impressão de um trabalho de alguma força, porém conectado mais ao gosto médio que ao compromisso de propor novidades e abrir caminhos diferentes de sentir e de pensar. 

Quanto a Cannes, deve-se ajuntar que não é de hoje que os grandes festivais apostam mais no gosto médio popular do que nas rupturas estéticas mais radicais. Estas, e os filmes que as representam, são marginalizados em mostras paralelas, nas quais a ousadia não incomoda os patrocinadores do evento. 

No todo, Dheepan não é mau filme. Apenas não contenta aqueles que têm em Cannes uma espécie de selo de qualidade artística comprovada. Neste, ficou devendo. 

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