Dez minutos de puro cinema com Godard

Pode ser que a atividade crítica seja só uma questão de gosto pessoal, embora alicerçada sobre fundamentos teóricos. Outros poderão não concordar, mas o melhor filme da mostra deste ano dura apenas dez minutos e é o episódio que o espanhol Victor Erice fez para Dez Minutos mais Velho - O Trompete. Existem outras pérolas: o longuíssimo A Melhor Juventude, de seis horas - que será exibido em duas partes -, e o novo Tsai Ming-liang, Adeus, Dragão Inn. Há também Dez Minutos mais Velho - O Cello. Como O Trompete, O Cello desenvolve outra série formatada para discutir o tempo. São episódios assinados por diretores como Bernardo Bertolucci, Mike Figgis e Jean-Luc Godard. Na primeira série, o trompete promove a unidade musical, enquanto passam as águas do rio, simbolizando o tempo. Na segunda série, é o cello, instrumento mais grave e reflexivo, que se coloca sempre, até quando é mais agudo, uma oitava abaixo do violino. Isso tem a ver com o espírito dessas histórias. Emana delas uma melancolia que faz de O Cello algo muito especial. Se o episódio de Erice é o melhor do primeiro filme, o de Godard é o melhor do segundo. Godard remete a imagens de filmes de Pier Paolo Pasolini (O Evangelho Segundo São Mateus) e dele mesmo (Tempo de Guerra e Viver a Vida) para propor os dez últimos minutos - da beleza, da coragem, da poesia. Os dez últimos minutos do cinema. Godard possui esse mistério. Você pode até tentar negá-lo. Mas, quando o filme começa, opera-se alguma coisa. O tom confessional, a gravidade, a tristeza de quem se sente deslocado num mundo em que o consumo quer substituir a arte, tudo isso faz de Godard um autor mais do que necessário, essencial.

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