Sony Pictures
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Dez anos depois, 'Zumbilândia 2' mantém seu status de paródia para não levar a sério

Filme do diretor Ruben Fleischer mostra os caçadores de zumbis voltando à estrada, mas fique tranquilo: nada é sério e o negócio é rir

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2019 | 06h00

Há mais de 60 anos zumbis andam feito sonâmbulos pelas telas dos cinemas, assombrando cinéfilos. A Morta-Viva, de Jacques Tourneur, e A Ilha dos Mortos, de Mark Robson, ambos produzidos pelo lendário Val Lewton nos anos 1940, inauguraram o que virou uma tendência. Veio depois, nos 60, George Romero, com seu foco político – os zumbis negros, o racismo – em A Noite dos Mortos Vivos.

Terror apenas sugerido, ou sanguinolento, gore, os zumbis quase sempre foram vistos como personagens de drama, mas isso foi somente até Ruben Fleischer. Há dez anos, exatamente, com Zumbilândia, ele deu novo foco às histórias do gênero. Na Terra pós-apocalíptica, devastada por um vírus, sobraram poucas pessoas. Quatro, interpretadas por Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone e Abigail Breslin, viram caçadoras de mortos-vivos para sobreviver. A novidade estava no humor, e – malgrado a participação de Bill Murray como ele mesmo –, o melhor era a performance escrachada de Harrelson. Na década decorrida desde então, surgiram Guerra Mundial Z, de Marc Forster, com Brad Pitt, e o fenômeno Walking Dead, que estourou na TV em 2010.

Face ao realismo – e às possibilidades metafóricas – desses filmes, o que pode o cinema? Ruben Fleischer que o diga. Ele radicaliza a paródia e faz um filme de mortos-vivos para zombar de tudo e todos. Zumbilândia (2) – Atire Duas Vezes é o popcorn movie perfeito. Pipoca, refrigerante e mãos à obra – o divertimento é matar zumbis! Quer dizer – como matar os que já estão mortos? Zumbis, como demonstrou Dan O’Bannon no ótimo A Volta dos Mortos-Vivos, alimentam-se de cérebros. Brains, brains! É a metáfora de um tipo de cinema que (só) quer divertir. Em termos – Zumbilândia (2) faz alguns comentários bem interessantes sobre o estado do mundo.

A ideia é o deboche. Agrega-se ao grupo o protótipo da loira burra, o que gera, claro, comentários machistas do tipo “essa está a salvo; se os zumbis querem comer cérebros, ela não corre perigo”. Na trama do filme, o quinteto está na estrada, mas antes tem uma parada na Casa Branca, ou no que sobrou dela. 

Aprontam nos corredores, sentam-se na cadeira do presidente, no Salão Oval – a loira burra, claro, não sabe o que é. A estrada, de novo, rumo a Graceland, a mítica mansão do rei Elvis Presley. A essa altura, nós, o público, já descobrimos que surgiu uma nova categoria indestrutível de zumbis. Como derrotá-los?

Surgem novos personagens, interpretados por Luke Wilson e Rosario Dawson. Existem piadas para todos os gostos – sexo, religião, gênero, drogas. No limite, o grupo busca refúgio numa comunidade hippie, onde sexo grupal não é permitido e armas são banidas. Com os mortos-vivos na esquina, perdão, do outro lado do portão, o jeito é ser (mais) inteligente. Armas não resolvem nada; inteligência, sim. Num mundo que, cada vez mais, cultiva a estupidez (mental), é quase impossível não rir com os caçadores de zumbis de Ruben Fleischer. Entre um filme e outro, Emma Stone ganhou o Oscar. Tranquilo, ela não se leva a sério.

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