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Deus é um menino autoritário em 'Êxodo', releitura bíblica de Ridley Scott

No limite, filme não é inteiramente satisfatório mas traz traços interessantes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 Dezembro 2014 | 03h00

Em Falcão Negro em Perigo e Cruzada, Ridley Scott recorreu aos gêneros – a guerra, o épico – para dar conta de graves questões contemporâneas. O horror da guerra – o pai somali que carregava o filho morto, o soldado com as vísceras esparramadas eram igualados na dor, e Saladino era o árbitro moral diante dos desatinos da cristandade. No pós-11 de Setembro, tudo isso queria dizer alguma coisa. Scott traz um enfoque original para o conflito entre deuses e reis de seu êxodo. Depois de Noé, de Darren Aronofsky, meio claudicante no mercado internacional, mas que arrebentou nos cinemas brasileiros, Êxodo – Deuses e Reis chega com pompa e circunstância às salas do País. A releitura bíblica do diretor traz surpresas, certa provocação.

Há quase 50 anos, Cecil B. de Mille fez um filme que, na época, provocou sensação por seus efeitos. A travessia do Mar Vermelho em Os Dez Mandamentos, de 1956, parecia o que de mais avançado se conseguira recriar na tela, até então. E o filme é melhor que seus críticos. Anne Baxter, como mulher do faraó, não apenas impregna sua personagem de erotismo, como parece distanciar-se dela, brechtianamente. Ridley Scott não se interessa tanto por essas questões. Na Bíblia, o livro do Êxodo, ao abordar a escravidão e libertação dos hebreus no (e do) Egito, mostra o pacto de Deus com seu povo, celebrado por intermédio de Moisés (Christian Bale) e da Arca da Aliança. Scott conta tudo isso à sua maneira.

A Moisés, o próprio Deus diz que precisa de um general para liderar seu povo. E Deus é menino (o garoto britânico Isaac Andrews, de 11 anos), no filme – um menino decidido, autoritário e até cruel. Essa leitura do Deus menino tem respaldo na Bíblia, mas o curioso é o antagonismo que cria. Em De Mille, Deus não aparece, substituído pela sarça ardente e uma voz tonitruante. O Deus de Scott discute com Moisés. Argumenta. Mas, para horror do Profeta, não admite contestação e faz o que considera necessário. As pragas bíblicas são terríveis, mas a morte dos primogênitos é demais para Moisés, que não quer compactuar com ela. O menino lhe atira na cara que está fazendo o que tem de fazer para libertar seu povo.

Let My People Go. O gospel, cantado por Louis Armstrong, já deu o tom da saga. Recentemente, o papa Francisco disse que quem faz a paz não são os mansos, mas os obstinados, os guerreiros. É um pouco a releitura de Ridley Scott. Embora o faraó Seti reconheça que Moisés seria melhor sucessor, está atado à questão da descendência e tem de eleger Ramsés (Joel Edgerton). Há um antagonismo entre Moisés e Ramsés, principalmente quando o segundo descobre a ascendência hebreia de seu concorrente no coração do pai. O antagonismo não chega a determinar o conflito. Moisés torna-se secundário. O conflito é entre o faraó, que se julga deus, e o Deus dos hebreus, o menino. Como em Irmã Dulce – O Filme, pode-se dizer que Êxodo talvez careça de um conflito de verdade. Ramsés pode ser voluntarioso, mas Deus – o menino – é mais. Ao conflito de verdade, Scott superpõe camadas, isto é, no filme dele, efeitos.

Atordoado por tantos efeitos – e ainda por cima pelo 3D –, o espectador nem se dá conta de como os conflitos são tênues em Êxodo. Justamente, o 3D. O formato ainda encerra problemas, e eles são flagrantes. Uma questão de proporção, ao enquadrar o humano na paisagem. Existem momentos em que tudo parece falso em Êxodo, os personagens e suas bigas são meros bonecos e bugigangas. Talvez seja o equivalente ‘scottniano’ do distanciamento de Anne Baxter em Os Dez Mandamentos. O importante é que, durante a travessia do deserto, Moisés tem tempo para refletir – que, em Canaã, os hebreus encontrarão sua terra ocupada por outros povos, que se julgarão seus donos e, com isso, a guerra (com os palestinos?) vai recomeçar. Ridley Scott deve ter (re)visto Os Dez Mandamentos. Sua travessia do Mar Vermelho parece menos impressionante que a de De Mille. É diferente. Seu canteiro de obras das pirâmides, inspirado na iconografia de Sebastião Salgado em Serra Pelada, é mais impressionante. Mas o mais marcante desse filme, afinal de contas irregular – quem acredita em John Turturro como Seti? –, é um detalhe que pode até passar desapercebido.

Moisés, no fim, é um velho que ainda erra pelo deserto. À sua direita, por um breve momento, Deus aparece, e continua menino. A instituição ‘Deus’ é eterna, o homem é efêmero dentro da criação. E, justamente por ser transitório, ele precisa criar manifestações de sua passagem pela Terra, como as pirâmides. Para ser levantadas, elas exigiram que povos fossem escravizados, eventualmente destruídos. Em Êxodo, como em Alien, Nostromo, Cruzada ou mesmo Robin Hood, o tema de Ridley Scott é sempre o imperialismo – seja político ou religioso. Cem deuses (egípcios), um só Deus (hebreu). Morte e destruição. É apaixonante, mesmo que o filme, no limite, não seja inteiramente satisfatório.

Cinco coisas para prestar atenção em 'Êxodo'
  • Iconografia

    A iconografia do canteiro de obras das pirâmides remete às fotos que Sebastião Salgado tirou em Serra Pelada. Os hebreus escravizados de Ridley Scott inspiram-se nos cavadores de ouro da pirâmide invertida brasileira

  • Deus

    Deus como menino é uma sacada de gênio. A própria Bíblia diz que o homem precisa ter a pureza do menino para entrar no Reino de Deus, Kingdom of Heaven (o título original de Cruzada). A ironia é que o Deus-menino de Scott vira matador de crianças

  • A batalha

    Uma leitura acurada do Êxodo revela que, a par das interpretações pessoais do diretor, Deus é retratado como rei e guerreiro. A batalha não é entre Moisés e o faraó, mas entre Ramsés e o Deus dos hebreus, como no filme

  • Imaginário

    A ideia de uma Canaã ocupada tem tudo a ver com a visão de Amos Gitai em Kedma. E é preciso reportar-se ao Êxodo como um relato épico visceral no imaginário do Ocidente, como a Odisseia ou certas peças de Shakespeare, só que, talvez, com um significado re

  • Visual

    Muita coisa no filme resulta da computação gráfica, mas Ridley Scott também filmou em locações, na Espanha, também parceira na produção. A bela atriz que faz a mulher de Moisés é a espanhola Maria Valverde.

SUPERPRODUÇÕES BÍBLICAS

Hollywood sempre cultivou épicos bíblicos. Lembre-se de três e antecipe outros três, a caminho.

‘Sansão e Dalila’

De 1949. Cecil B. de Mille retrata Dalila/Hedy Lamarr como uma pantera amorosa de Sansão/Victor Mature. A quintessência da fórmula ‘demilleana’ Bíblia = sexo + violência

‘Os Dez Mandamentos’ 

De 1956. Charlton Heston, Moisés, Yul Brynner, o faraó. De Mille carrega nos efeitos (a travessia do Mar Vermelho, a entrega dos mandamentos) justamente onde Ridley Scott é discreto

‘Noé’

De 2014. O Dilúvio segundo Darren Aronofsky. Uma das maiores bilheterias do ano no Brasil. Mérito de Russell Crowe?

E o que vem por aí

‘Ben-Hur’

O russo Timur Bekhmambetov, de Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros, reconta a história de Lewis Wallace. Depois da versão de William Wyler, é uma heresia ou promessa de bom espetáculo, que o diretor sabe fazer?

‘Moisés’

O projeto de Ang Lee parou por causa do de Ridley Scott. Mas é parceria dele com Spielberg, que já patrocinou um Moisés animado, O Príncipe do Egito

‘Jesus de Nazaré’

Paul Verhoeven quer filmar seu romance nada bíblico, mas elogiado, em que Jesus, filho de Maria, é produto do estupro da mãe

Veja o trailer de Êxodo - Deuses e Reis:

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