"Deus e o Diabo" volta em cópia restaurada

O principal empecilho para a divulgaçãoda obra de Glauber Rocha pelo mundo afora começou a se resolveresta semana. Na quarta-feira, a primeira cópia de Deus e oDiabo na Terra do Sol, restaurada digitalmente, foi exibidapara um grupo de amigos e parentes do cineasta, no Museu daRepública, no Rio. A restauração é a primeira de uma série que aRiofilmes, distribuidora de cinema da prefeitura do Rio,pretende financiar em parceria com os estúdios Mega Finish e RobFilmes e a distribuidora Versátil, para lançamento em DVD e VHS,no País e no exterior. As fitas devem chegar às lojas até o fimdo ano."Sempre houve demanda de cópias dos filmes do CinemaNovo da parte de escolas de cinema e festivais no Brasil e noexterior que querem exibi-los. Então, resolvemos lançar essestítulos como manda o figurino, em DVD e VHS, com restauraçãodigital, extras, entrevistas e legendas em várias línguas.Glauber é o primeiro porque a negociação com os herdeiros foi amais fácil", conta o diretor-presidente da Riofilmes, ArnaldoCarrilho, que foi amigo pessoal do cineasta. "No início dosanos 70, quando apareceu o VHS, o Glauber chamou a atenção paraesse o veículo que surgia. Ele era muito ligado em novastecnologias e lançar seus filmes nesses suportes honra suamemória."A minúscula sala do Museu da República foi pequena paratanta emoção de quem conviveu com o cineasta e viu suaobra-prima ressurgir na tela tal como ele a imaginara. Ao chegar, a mãe dele, Lúcia Rocha, que há anos preserva seu acervo nocentro cultural Tempo Glauber, abraçou Carrilho com os olhosmarejados e agradeceu a iniciativa, enquanto Paloma Rocha, afilha, só conseguiu anunciar que a partir dessa cópia digitalpoderão ser feitas outras em 35 milímetros, o suporte habitualdas salas de exibição.O restaurador Fábio Fraccarolli, que coordenou atranscrição para vídeo do filme junto com Ely Silva, explicouque o sistema usado, o Revival, só existe em 12 estúdios, pois éuma tecnologia muito recente. "Na América Latina, só nós temos.O trabalho consiste em telecinar a melhor cópia da CinematecaBrasileira, guardiã dos filmes de Glauber, e retirar asavariações trazidas pelo tempo e, principalmente, restaurar aluz e o som luz originais", contou ele. "Foi um trabalho de ummês e meio, só possível com a colaboração de Waldemar Lima, odiretor de fotografia de Deus e o Diabo. É nossa primeiraexperiência e servirá para outros filmes."Lima revelou que, com essa restauração, finalmente ofilme terá a fotografia imaginada por Glauber, que queria umatextura como a das xilogravuras dos folhetos de literatura decordel. "Isso não aconteceu nem na época do lançamento porque,quando fomos tirar as cópias para exibição, havia a confusão dogolpe militar e não pudemos acompanhar o trabalho", lembrou,sem esconder a emoção do resultado. "Essa fotografia está deacordo com temática do filme e atende o desejo de Glauber."Apesar de o equipamento do Museu da República terapresentado problemas, Deus e o Diabo aparece em DVD com agrandiosidade que fez dele o filme brasileiro mais comentado emtodo o mundo. As imagens que levaram uma geração de brasileirosa fazer cinema e a música de Villa-Lobos e Sérgio Ricardoinundaram a sala e provocaram aplausos. "Parece até que oGlauber se chamava Deus e o Diabo, de tanto que as pessoasfalam desse filme", brincou Lúcia Rocha, confessando que, porseu gosto pessoal, Barravento abriria a série, por ser oprimeiro título do cineasta, quando ele tinha 18 anos.Ela adiantou que Neville de Almeida realiza umdocumentário sobre o Tempo Glauber, seu projeto desde a morte dofilho, há 20 anos. "Fiz tudo sozinha porque o poder público nãoajudou. A negociação para a restauração começou a dois anos,ainda com José Carlos Avellar na Riofilmes. É justo elesrealizarem essa tarefa."Carrilho defendeu a restauração digital e a distribuiçãoem vídeo (DVD ou VHS) lembrando que o cinema brasileiro ocupaespaço ínfimo nas salas brasileiras. "No último ano, 98% docinemas exibiram os arrasa-quarteirões americanos e os outros 2%ficaram para os filmes menos famosos dos Estados Unidos e deoutras cinematografias", enumerou. "Sobrou para nós uma poeirae, além disso, o público de cinema retraiu, enquanto o de vídeocresceu. Hoje qualquer comunidade pobre ou cidadezinha dointerior tem sua locadora."Ele anunciou que ainda este ano começa a restauração deTerra em Transe, o segundo filme mais famoso de Glauber eainda pretende lançar os outros (são 16 ou 18, conforme a formade contar), a obra de Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman,Davi Neves, Roberto Santos e Luiz Sérgio Person (atualmente emretrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo),além de documentários lendários como Arraial do Cabo eMaioria Absoluta e produções recentes nesse gênero, que nãoencontra espaço no circuito comercial.A Riofilmes entrou com R$ 70 mil no projeto, que teveainda financiamento da distribuidora de Glauber, a Versátil, eum belo desconto da Mega e da Rob, que se lançam nesse mercado."Eu vou contra a corrente que privilegia a exibição em película, em detrimento do vídeo", comentou Carrilho. "Hoje, com aredução do tamanho das telas de cinema e o agigantamento doshome theaters, além da rápida evolução digital, não faz maissentido esse tipo de divisão."

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