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'Deus e o Diabo na Terra do Sol' volta a Cannes 58 anos após primeira exibição no festival

Clássico que Glauber Rocha dirigiu em 1964 é restaurado e terá destaque na sessão Cannes Classics da mostra Francesa

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

17 de maio de 2022 | 05h00

CANNES - Em 1964, Paloma Rocha tinha quatro anos quando seu pai, Glauber Rocha, mostrou em Cannes, na competição, Deus e o Diabo na Terra do Sol. Na França, o filme recebeu outro título, Le Dieu Noir, Le Diable Blanc (O Deus Negro, o Diabo Branco). Aquele foi um ano excepcional para o cinema brasileiro, pois havia dois filmes na disputa, o de Glauber e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Cannes foi importante para o lançamento internacional da estética da fome do Cinema Novo. O Brasil era uma potência cultural. 

Passaram-se 58 anos, tempo necessário para fechar um ciclo. Deus e o Diabo está voltando a Cannes, que começa nesta terça, 17, e aureolado pela fama de clássico. Desta vez, na ausência de seu pai, morto em 1981, Paloma participará da sessão do filme em Cannes Classics com Lino Meireles. Os dois conheceram-se no Festival de Brasília.

Conversaram e o assunto só podia ser Glauber. Falaram sobre como seria maravilhoso ver a obra de Glauber restaurada em 4K. A conversa resultou em uma decisão. “Decidimos que íamos restaurar Deus e o Diabo. Nunca vi o filme numa tela grande que comportasse o seu tamanho para o cinema brasileiro e mundial”, disse Meireles. E sobre a sala Palais em que o filme vai passar, ele confessou estar ansioso. 

Aquele foi um ano glorioso para o festival. O grande Fritz Lang presidia o júri, integrado, entre outros, pelos atores Charles Boyer e Geneviève Page e por René Clément. Ao que se conta, o diretor francês que não era tido em grande conta pela Nouvelle Vague foi quem mais bateu, no júri, para que Glauber fosse premiado. É difícil conter a euforia. A trilha de Sérgio Ricardo e do próprio Glauber é um assombro. “Manuel e Rosa vivia no sertão/Trabalhando a terra com as própria mão.” E o impactante “Te entrega Corisco/Eu não me entrego não!”. Por mais novo que tudo aquilo fosse, Lang e seu júri outorgaram o Grand Prix, equivalente à Palma de Ouro, ao musical encantado de Jacques Démy e Michel Legrand, Os Guarda-Chuvas do Amor

Nino Castelnuovo parte para a guerra na Argélia. Despede-se de Catherine Deneuve na estação. Ela promete, cantando: “Je vous attendrai toujours”. Mas não espera. A jovem Deneuve e Sophia Loren foram as estrelas do festival. Sophia integrava o elenco do épico de Anthony Mann, A Queda do Império Romano, que fez a abertura oficial do evento. Quem viu não esquece a última cena - Sophia, como Lucila, corre pedindo ajuda nas ruas de Roma enquanto, no Senado, o Império está sendo leiloado. O império em transe. Glauber estava lá. Terá visto o Anthony Mann? A estética de Terra em Transe nasce daquela cena. Glauber fez história, mas a sensação veio de Nelson Pereira dos Santos. A morte de Baleia em Vidas Secas provocou comoção. Choveram protestos das associações de defesa de animais da França - Nelson teria matado Baleia. Foi preciso trazer a cachorrinha, e ela passeou na Croisette como uma estrela. Estava prenhe. Ganhou sete filhotes. 

Debate

O restauro de Deus e o Diabo na Terra do Sol será tema de muita conversa. O filme é o único representante do Brasil no 75.º festival. Além do Glauber, Cannes Classics terá, neste ano, uma seleção que já valeria a realização do festival. Cannes já teve uma edição presencial no ano passado. Em 2022, até por se tratar da data redonda 75 anos, promete grandes atrações. Cannes Classics vai mostrar a versão restaurada de La Maman et la Putain, de Jean Eustache, um filme mítico. Mostrará também Sciuscià, de Vittorio De Sica, precursor do neorrealismo. Terá homenagens a Paul Newman e Joanne Woodward - uma série realizada por Ethan Hawke - e lembrará Gérard Philippe e Patrick Dewaere. 

As atrações não terminam aí. Será possível (re)ver, em versões zero bala, O Processo de Kafka, por Orson Welles, As Pequenas Margaridas, marco da nouvelle vague checa, de Vera Chytilová, Viva la Muerte, do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, e os documentários sobre a Olimpíada de Munique, de 1972, marcada pelo terror - Visions of Eight -, e a de 2020, adiada pela covid-19 para 2021, por Naomi Kawase. Cannes Classics terá muito mais, mas Glauber é visceral, fundamental. Deus e o Diabo ressurgirão, com força.

 

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