'Deus e o Diabo', de Glauber Rocha, completa 50 anos

Profundamente político, filme traz uma série de inovações em sua linguagem cinematográfica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2014 | 08h27

Há exatos 50 anos (dia 10/7/1964) era lançado um dos mais importantes filmes da história do cinema brasileiro - Deus e o Diabo na Terra do Sol, do diretor baiano Glauber Rocha.

O filme foi lançado numa circunstância curiosa, para dizer o mínimo. Primeiro longa do diretor, foi apresentado à imprensa cinematográfica no dia 13 de março de 1964, mesmo dia do comício da Central do Brasil, que precipitou a queda do presidente João Goulart em 1º de abril e a instauração de uma ditadura que duraria 21 anos.

Por que houve o golpe de Estado e o que tem isso a ver com o filme de Glauber? Setores da sociedade civil e das Forças Armadas acreditavam que havia uma ameaça comunista no Brasil. Pelo menos foi a desculpa encontrada para derrubar o presidente eleito. E a obra de Glauber faria  parte desse movimento social que se supunha esquerdizante e perigoso. Formava, vamos dizer assim, parte da superestrutura cultural ameaçadora para as forças conservadoras, que também temiam sindicatos rurais e urbanos, a reforma agrária, a agitação universitária, etc.

E o que mostra Deus e o Diabo na Terra do Sol? A trajetória de um vaqueiro, Manuel (Geraldo Del Rey), que, em desespero, mata o patrão escravocrata e foge para o sertão com a mulher (Yoná Magalhães).

Encontra no caminho com o beato Sebastião (Lídio Silva) e entra para sua comunidade fanática. Depois, resolve partir para o cangaço e então se envolve com Corisco (Othon Bastos). Corisco, e todos os cangaceiros, estão sendo perseguidos por um justiceiro, Antonio das Mortes (Maurício do Vale), que já matou Lampião e agora está no encalço de outros cangaceiros, inclusive Corisco. Numa das sequências famosas do filme, Manuel aparentemente deixa o cangaço e foge em desabalada corrida rumo ao litoral.

O filme é todo uma alegoria - isto é, uma história contada para significar uma série de ideias. Como a dizer que Manuel é um homem em busca de uma consciência revolucionária. Primeiro, ele mata o patrão, mas esta violência individual não é uma solução para seus problemas e das pessoas da sua condição. Passa então pelo fanatismo religioso e se decepciona com ele. Como também será decepcionante a sua adesão a Corisco, representante do banditismo social (na acepção do historiador inglês Eric Hobsbawm). Por fim, amadurecido, seguirá em busca da liberdade (o mar) e talvez da revolução, livre dos enganos que encontrou em seu caminho.

Profundamente político, como se viu, Deus e o Diabo traz uma série de inovações em sua linguagem cinematográfica. A fotografia, bastante chapada, procura reproduzir a luz do sertão. O desenvolvimento da trama se dá como se fosse um cordel nordestino, inclusive com a presença de um violeiro cego, narrador em algumas passagens. A música, de Sérgio Ricardo, é empolgante. O tom é operístico. Usa trechos grandes de Villa-Lobos e a interpretação dos atores não é realista, e sim estilizada, não procura imitar "a vida como ela é". As referências também são muitas. Por exemplo, o beato Sebastião lembra o Antonio Conselheiro, líder religioso de Canudos, descrito na epopeia de Euclides da Cunha, Os Sertões. Inclusive, uma das prédicas do Conselheiro - "o sertão vai virar praia e a praia vai virar sertão" - é retomada, de forma um pouco diferente. O sertão vai virar mar, e o mar, virar sertão está na letra da canção, escrita por Glauber e musicada por Sérgio Ricardo.

Ela é que dá o tom da corrida de Manuel rumo ao mar, à liberdade, e à revolução...que acabou não vindo.

Essa obra-prima do cinema nacional pode ser encontrada em DVD (Versátil), com a cópia do filme restaurada, e uma excelente coleção de extras com entrevistas e análises de especialistas.

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