"Deus É Brasileiro", a nova cara do País

Carlos Diegues não planejou ascoisas dessa maneira, mas não esconde a felicidade. Há cincoanos ele vinha trabalhando no projeto de Deus É Brasileiro.Não poderia imaginar que o filme estrearia justamente no quadrode um Brasil cheio de esperança, como está sendo nesse início dapresidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Deus É Brasileirotem a cara deste País novo, que olha para dentro de si mesmoesperando um renascimento. Nem por isso o filme idealiza o povoe o Brasil. "Meu filme faz o elogio da imperfeição."Não técnica, que o filme é muito bem acabado, comefeitos de ponta, produzidos na TeleImage. A imperfeição é dohomem, que transformou o mundo numa bagunça tão grande que opróprio Deus vem à Terra em busca de um santo para substituí-lo.Deus está estressando, é a verdade. Precisa de férias. Escolheum santo brasileiro e descobre que justamente ele, o escolhido,não acredita em Deus. Chama-se justamente assim, O Santo Quenão Acreditava em Deus, o conto que deu origem ao filme. É umrelato curto, de três páginas, de João Ubaldo Ribeiro em Livrode Histórias, rebatizado, na reedição, como Já Podeis daPátria Filhos. Cacá queria aproveitar ao máximo os personagensdo livro, fundindo todas as histórias num só roteiro. "Nãoencontrei a forma ideal de fazê-lo", ele admite. Optou entãopor O Santo Que não Acreditava em Deus e pelo próprio JoãoUbaldo, para ajudá-lo a desenvolver a história e os personagens,quase todos criados especialmente para o filme: o Taoca deWagner Moura, a Madá de Paloma Duarte."Conheço o João Ubaldo desde os anos 1960 e o consideroum grande criador de tipos populares brasileiros", diz. Os doisforam apresentados por Glauber Rocha e, nos últimos anos,trabalharam juntos no roteiro de Tieta do Agreste, que Cacáadaptou do romance de Jorge Amado. João Ubaldo trabalhou algumtempo com o diretor em Deus É Brasileiro, mas não ficou atéo fim do projeto. "Ele não acha a menor graça em escreverroteiros", explica Cacá. "Aquela coisa do sujeito que entrapor uma porta parece muito boba para ele; não tem a menordensidade, a menor profundidade." Mesmo abandonando o projeto,João Ubaldo continuou apadrinhando o filme e gostou do resultado, informou Cacá na coletiva realizada na semana passada, no HotelCaesar Park.Estavam com ele os atores Antônio Fagundes e WagnerMoura, a produtora Renata Almeida Magalhães e a cúpula daColumbia, que distribui o filme em cerca de 130 salas de todo oBrasil. É um projeto que já dura cinco anos. João Ubaldoapresentou seu primeiro rascunho de sinopse a Cacá em 1998,quando o diretor mixava Orfeu nos EUA. Justamente Orfeu.Ao fazer o filme com Toni Garrido, Cacá queria exorcizar aprofunda impressão que teve ao assistir à peça de Vinicius deMoraes, nos anos 1950. A música, o morro, o elenco negro, tudoaquilo mexeu muito com a cabeça do garoto de 16 anos, que quisfazer cinema em boa parte movido por aquele impacto.Pouco antes, ao fazer Tieta, Cacá também exorcizavaoutro fantasma, o do escritor Jorge Amado, decisivo nodesenvolvimento do seu conceito de brasilidade. Dois filmes comfantasmas demais, mas que tendem a crescer com o tempo e asrevisões. Cacá não se surpreende com isso. Gosta de citar ocrítico francês Serge Daney, que dizia que as obras se modificamcom o olhar do público. Fica feliz da vida ao saber que orepórter gosta bem mais de Tieta do que na época dolançamento. Não esconde seu carinho por Orfeu, a ponto deter chamado Toni Garrido para o papel de porteiro do céu emDeus É Brasileiro. "Precisava de um homem bonito",explica.Desta vez, trabalhou livre das pressões de fantasmas.Fez um filme de estrada, inspirado pela cultura da margemesquerda do Rio São Francisco, percorrendo vários Estados, deTocantins a Alagoas, onde nasceu. Cacá já havia feito deBye-Bye Brasil um filme de estrada. Foi seu maior sucessointernacional e ele gosta da fórmula porque lhe permitedescobrir o Brasil e os brasileiros. É uma herança do seupassado cine-novista, quando seus companheiros de geração e eletinham idéias revolucionárias muito firmes. A utopiacine-novista pode ter mudado, mas não morreu. A idéia de Deus, ocriador, ele reconhece, atua como uma óbvia metáfora da condiçãodo diretor de cinema, que também (re)cria na tela o mundo e oshomens. E o bom é que Cacá nunca se sentiu mais leve e livre.Contrário a todo dogma, recusa as idéias da pesquisadora IvanaBentes, que vê no cinema brasileiro atual uma cosmética da fomeque estaria na contramão da estética da fome defendida peloCinema Novo, nos anos 1960. Cacá acha que esse tipo de dogmaassassina a criatividade de toda uma geração de novos diretores.Lembra que o próprio Glauber Rocha não ficou atrelado ao seumanifesto da estética da fome. "Ele passou a defender depois aestética do sonho", conta. Seu lema é liberdade. Deus ÉBrasileiro nasceu assim, com essa idéia. O sonho de Cacá échegar ao coração do público, com seu filme que tem tudo a vercom o Brasil atual.

Agencia Estado,

30 de janeiro de 2003 | 17h17

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