Deu cinema político no "É Tudo Verdade"

Deu cinema político na 7.ª ediçãodo É Tudo Verdade, o festival de documentários de São Paulo,considerado o mais importante da América Latina em seu gênero.Na parte internacional venceu Agosto - Um Momento antes daExplosão, do israelense Avi Mograbi. Pela seção nacional, oganhador foi Rocha Que Voa, de Eryck Rocha. Eryck é filho docineasta Glauber Rocha e recupera, no filme, a estadia do seupai no exílio em Cuba. Agradecendo o troféu, Eryck dedicou o prêmio "a todosos que acreditam no cinema de invenção e no cinema político".Demonstrou compreender o sentido da sua premiação. Rocha QueVoa toma um material inédito - um longo depoimento concedidopor Glauber em Havana - e o trabalha de maneira criativa.Primeiro, mesclando as palavras do pai com depoimentos de outraspessoas que com ele conviveram. Segundo, inventado plasticamenteem cima das imagens, como no caso do depoimento do cineastaargentino Fernando Birri, que assume a forma de um longo sonhoacordado. Porque, no fundo, o filme trata disso, do sonho deunião latino-americana, e de uma transformação social que nãohouve. Política, profundamente política é também a premiação deAgosto - Um Momento antes da Explosão, de Avi Mograbi.Falando pelo júri, o ensaísta e professor da USP Ismail Xavier,disse que o nível da competição havia sido muito alto, o quedificultou a escolha do vencedor. O critério de decisão haviasido "a maior originalidade de concepção, pressionando oslimites do documentário e abordando temas difíceis com senso dehumor". De fato, original e dono de um senso de humor exasperado Mograbi traça um painel fragmentado do seu país. A tensãosocial do Oriente Médio aparece claramente na maneira crispadadas pessoas, no medo, no ressentimento, no preconceito. Mograbise coloca ostensivamente na frente da câmera. Interpreta ora asi mesmo ora a outros personagens. Evoca a situação atual, etambém outros fatos marcantes, como o massacre de Hebron - em1994 um colono judeu, Baruch Goldstein, munido de um fuzilautomático e granadas, invadiu uma mesquita na Cisjordânia ematou dezenas de palestinos que oravam. Enfim, a nenhum lugar oclichê "barril de pólvora" se aplica com tanta propriedadecomo ao Oriente Médio. Daí a grande atualidade do filme. Oespectador acompanha e entra em sintonia com a crispação local.Mas também se entedia com a repetição de recursos, como a fusãode imagens, e que passam por "experimentalismo". Fica apergunta: sem o agravamento da crise no Oriente Médio, essedocumentário teria vencido o festival? Nem apenas de política viveu o evento, como prova amenção honrosa concedida a Um Passaporte Húngaro, belotrabalho de Sandra Kogut. Sandra é cineasta brasileira (autorado premiado média Lá e cá, com Regina Casé), descendente dehúngaros e mora atualmente na França. O filme mostra o seupercurso kafkiano para obter um passaporte húngaro. Consegue,mas a título precário. O trâmite burocrático serve de pretextopara uma amorosa pesquisa de suas raízes familiares e tambémfala a respeito de sua identidade brasileira. Em e-mail enviadoao festival, e lido durante a premiação, Sandra fala que o filmeé "de alguma maneira, a sua volta para casa". E de uma volta para casa é o que também falou anorte-americana Catherine Benamou, especialista em Orson Welles.Conforme avisou Amir Labaki, presidente do festival, Catherinerevelou que existem nos Estados Unidos trechos ainda inéditos dodocumentário de Welles, É tudo Verdade. "Esse material tem60 anos, está em nitrato e com perigo de se deteriorar; incluicenas filmadas por Welles em Minas Gerais, entre outras", dizLabaki. Como afirma o diretor do festival, "isso é audiovisualbrasileiro, é Orson Welles filmado no Brasil". Deveria voltarpara cá e aqui ser preservado.Confira a lista dos premiadosMelhor Documentário da Competição Internacional (Júri Oficial)Troféu É Tudo Verdade e R$ 7.000,00Agosto - Um Momento Antes da Explosão, de Avi Mograbi, Israel/França. Menção Especial paraUm Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut, França.Melhor Documentário da Competição Brasileira - Longa ou Média-Metragem(Júri Oficial) Troféu É Tudo Verdade e R$ 7.000,00Rocha Que Voa, de Eryk Rocha, Brasil-RJMelhor Documentário da Competição Brasileira - Curta-Metragem (JúriOficial) Troféu É Tudo Verdade e R$ 3.500,00Casa de Cachorro, de Thiago Villas Boas, Brasil-SP. Menções Especiais paraArtesãos da Morte, de Miriam Chnaiderman, Brasil-SP e Passageiros da Segunda Classe, de Luiz E. Jorge, Kim-ir-Sem & Waldir de Pina,Brasil-GO.Prêmio MinC de Documentários3 Prêmios Diploma e Prêmio de Aquisição dos Direitos de Exibição para EmissorasNão-Comerciais de R$ 5.000,00.Dadá, de Eduardo Vaissman, Brasil-RJ, Nasceu o Bebê Diabo em São Paulo, de Renata Druck, Brasil-SP eSamba Riachão, de Jorge Alfredo, Brasil-BA.Prêmio TV Cultura de Documentários 2002 para Documentário Brasileiro(Júri Próprio)Troféu TV Cultura e Aquisição de Direitos de Exibição por R$ 7.000,00.Mapas Urbanos 2 - Recife dos Poetas e Compositores, de Daniel Augusto,Brasil-SP. Menção Especial paraSilva, de Beto Sporkens, Brasil-SP.Prêmio Aquisição GNT de Renovação de Linguagem (Júri Próprio)Troféu GNT e R$ 7.000,00Passageiros da Segunda Classe, de Luiz E. Jorge, Kim-ir-Sem & Waldir de Pina, Brasil-GO.Prêmio Quanta 2 Prêmios - R$ 4.000,00 em equipamentos para a próxima produção do vencedor daCompetição Brasileira de Longas e Médias Metragens.Rocha Que Voa, de Eryk Rocha, Brasil-RJ.R$ 2.000,00 em Equipamentos para a Próxima Produção do Vencedor daCompetição Brasileira de Curtas MetragensCasa de Cachorro, de Thiago Villas Boas, Brasil-SP.Prêmio ABD-SP (Associação Brasileira de Documentaristas)Troféu ABD-SPRocha Que Voa, de Eryk Rocha, Brasil-RJ. Menção Especial paraComo Se Morre No Cinema, de Luelane Loiola Corrêa, Brasil-RJ.

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