"Deu a Louca nos Astros" é metafilme

Há um óbvio parentesco entre Deu a Louca nos Astros, de David Mamet, e o clássico de François Truffaut, A Noite Americana. Ambos têm como ponto de partida os bastidores de uma filmagem. São metafilmes - filmes sobre filmes. Mas não se limitam à metalinguagem, porque cinema também é feito por gente, que tem conflito mesmo (e às vezes sobretudo) quando está no set, trabalhando, e sob pressão no mais das vezes. Os dois podem ser considerados como declarações de amor à arte de fazer cinema, embora a de Truffaut seja mais intensa e a de Mamet, mais reservada. Cética, quase. Sinal dos tempos e também da diferença de temperamentos entre os dois artistas.Além do mais, Deu a Louca nos Astros (péssima versão em português para State and Main) joga no tom da comédia, mais adequado para uma época que já não consegue mais acreditar plenamente em coisa nenhuma. A história é a de uma equipe de filmagem que se desloca para uma cidadezinha onde vai rodar um script chamado de O Velho Moinho. Lá chegando, o diretor Wal Price (William H. Macy) descobre que o antigo moinho da cidade, a sua principal atração como locação cinematográfica, tinha sido destruído num incêndio nos anos 60. Além do mais, a atriz principal, Claire (vivida por Sarah Jessica Parker) descobre que terá de fazer uma cena de nudez e exige aumento de cachê. E o astro, Bob Barrenger (Alec Baldwin), mulherengo respeitável, envolve-se com uma moradora da cidade. Menor de idade, ainda por cima.Enfim, confusões. Fellini já havia dito que um diretor de cinema não passa de um administrador (fracassado) do caos e qualquer bastidor de filmagem confirma que não estava exagerando. Um diretor chefia uma equipe de dezenas de pessoas, que, em tese, partilham um objetivo comum, mas na prática atiram cada qual para um lado. O problema é harmonizar, quando possível essas aspirações conflitantes. Desde o roteirista, que não gosta de mexer em seu texto, e o assistente de direção, cuja mulher está dando à luz e por isso quer alguns dias de licença, passando pelo inevitável ego pesado de atores e atrizes, contumazes criadores de atritos no set. Tudo é tratado com muita leveza - e malícia - por Mamet. A começar pelas escapadelas do galã, terminando pela maneira como um dos membros da equipe falsifica uma garrafa de água mineral Evian - uma das exigências da atriz, mas virtualmente impossível de satisfazer nos cafundós onde ocorrem as filmagens.Tudo é divertido, mas não apenas isso, porque Mamet aproveita sua radiografia do set para colocar um dos personagens o roteirista Joseph Turner White (Philip Seymour Hoffman), em um complicado dilema moral - que será resolvido a seu tempo e com muita criatividade.De resto, o que se pode dizer é que Deu a Louca nos Astros é também um belo exercício de elegância, com Mamet mostrando que faz parte do cinema chique alternativo dos Estados Unidos - cujo guru e decano é, claro, Woody Allen. Faz parte desse ritual de elegância uma certa suavidade nas posições escolhidas pela câmera, a recusa aos efeitos publicitários da luz e a inteligência dos diálogos, que lembram, de vez em quando as relações, às vezes incestuosas, que o cinema, a mais comercial das artes, mantém com o irmão mais velho, o teatro.Mamet não precisa nem disfarçar sua origem. É um homem de teatro, que migrou para o cinema e a ele se adaptou. Tão bem que vez por outra comete a barbaridade de assinar o roteiro de um filme inominável como Hannibal. Quando dirige, a conversa é outra. Honra a sua arte, tanto a de origem quanto a de adoção.Deu a Louca nos Astros (State and Main). Comédia. Direção de David Mamet. EUA/20001. Duração: 105 minutos.

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