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Deu a louca na Nenê

Marieta radicaliza em sua nova ‘grande família’, que não lembra em nada a da TV

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 11h34

Há sete semanas, Marieta Severo sofreu uma queda ‘boba’ durante um ensaio do novo espetáculo no Teatro Poeira. Não rompeu os ligamentos, mas teve uma distensão e usa um protetor de metal que restringe os movimentos. “Posso fazer assim” (e Marieta movimenta a perna para frente e para trás), “mas não consigo fazer o movimento rotatório, para os lados”. Não dói mais, mas a grande pergunta é se ela estará em condições para a estreia de Incêndios, em meados de setembro.

“Credo! Claro. Nem me fale. Existem momentos de tensão e desespero na peça em que me ajoelho no palco. São marcações muito fortes. Se a perna não estiver em condições, não levanto mais” – e ela ri do que lhe parece uma piada. Marieta está feliz da vida por apresentar ao público brasileiro uma peça do dramaturgo libanês (radicado no Canadá) Wajdi Mouawad. Embora já seja autor de uma obra extensa – cerca de 40 peças –, o que foi visto dele no País foi o filme Incêndios, de Denis Villeneuve, e uma montagem mexicana num festival de teatro.

A peça originou o filme que concorreu ao Oscar anos atrás. Aborda o passado misterioso de uma imigrante árabe que deixa instruções inquietantes em seu testamento. Caberá aos filhos, um casal de gêmeos, empreender uma verdadeira odisseia em busca do pai e do irmão que nem sabiam existir e lhes entregar em mãos as cartas que ela deixou. A mãe, Nawal, foi uma revolucionária que lutou pela libertação de seu país. “Vi o filme, mas não me marcou muito. A peça é outra coisa. O Wajdi busca sua criatividade na tragédia grega, em Shakespeare. O teatro dele se faz dessas referências.” É um material sob medida para o encenador Aderbal Freire-Filho, namorado de Marieta. “Se há alguém que sabe explorar a magia do teatro é o Aderbal. É como se cada peça dele fosse um convite para a gente, os atores e o público, sonhar os espetáculos com ele.”

No texto de Wajdi, a avó diz à neta – “Se quiser encontrar seu caminho, você precisa aprender a ler, escrever, contar, falar e pensar”. Ampliar os próprios horizontes. Marieta acredita nisso, e como. Na segunda, quando conversou com o repórter num hotel da Avenida Atlântica, no Rio, ela estava num dia de relativa calma. O encontro era para falar sobre o filme Vendo ou Alugo, de Betse de Paula, que estreia na sexta, depois de vencer a maioria dos Candangos no Cine PE, Festival do Recife, no começo de maio. Houve uma coletiva, bolo de aniversário em homenagem a Nathalia Timberg, que faz a mãe de Marieta no filme – elas já foram mãe e filha há quase 50 anos, na estreia de Marieta no cinema, com Society em Baby-Doll. À noite, houve a pré-estreia carioca, seguida de jantar. Ontem, foi um dia típico da atriz. Às 9 da manhã, estava no estúdio para gravar A Grande Família. A gravação terminou no começo da noite e Marieta correu para o Teatro Poeira para ensaiar. Como ela consegue?

“Com força de vontade e disciplina. Sempre fui muito disciplinada, cuidando da casa, dos filhos, da carreira.” A filha – Sílvia Buarque, a Silvinha – contracena com ela em Vendo ou Alugo, e é a primeira vez que a chama de ‘mamãe’ na ficção. Ambas se emocionam com isso. O filme é sobre uma família, e uma casa, nos limites de uma favela. A casa pode muito bem ser considerada uma metáfora para o Brasil, que conseguiu ficar ainda mais atual com as manifestações que sacodem o País. “Quando fazia o filme, tinha a sensação de correr atrás da realidade. Quando o revi no outro dia, tomei um susto. Era como se a realidade estivesse me atropelando”, disse a diretora ao repórter.

Quatro gerações de mulheres numa família sem homens. Nathalia, a matriarca, Marieta, sua filha e mãe de Sílvia, Bia Morgana, filha de Betse de Paula, como filha de Sílvia. A velha é viciada em jogo, Marieta abre o filme fumando um charutão de maconha e lançando um despacho ao mar. Sílvia é a intelectual da família e regressa de suas pesquisas na Amazônia. Bia é a caçula, e o que faz? Convive com todas essas loucas. Diretora, produtora (Marisa Leão), técnicos e elenco, todo mundo formou outra grande família, mas, para o público da TV, talvez seja um choque ver Nenê, aquele modelo de mãe, na pele de uma socialite falida que fuma seu cigarro de maconha e espera vender a casa para um gringo interessado em montar um hotel para turistas que gostam de viver as emoções das zonas de risco. Mais do que na Nenê, deu a louca no mundo.

O que tornou Vendo ou Alugo atraente para Marieta foi o permanente desejo de mudar. Como atriz, ela se empolga diante do desafio. Se a mãe de Vendo ou Alugo fosse outra Nenê, ela não faria. “Para quê, se já faço na televisão?” Agora, uma mãe que não dispensa o baseado...? Outra mãe, trágica, em Incêndios. Isso a atrai. Marieta radicaliza. Diz que o filme não levanta bandeiras, mas, para quem quiser saber, sim, ela é a favor da legalização da maconha.

VENDO OU ALUGO

Direção: Betse de Paula

Gênero: Comédia

(Brasil/2012, 90 min.).

Classificação: 14 anos.

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