Detentos filmam o seu próprio Carandiru

Com o fenômeno Carandiru ultrapassando a marca dos 4 milhões de espectadores, batendo já nos 5 milhões, aumenta o interesse pelo documentário que Paulo Sacramento realizou com internos da penitenciária que serviu de massacre para o célebre (e brutal) massacre no fim de 1992, em cartaz hoje no Centro Cultural Banco do Brasil. No final da sua adaptação do livro de Drauzio Varella, Hector Babenco reproduz uma afirmação do escritor: "Só Deus, os policiais e os presos sabem o que ocorreu no Carandiru. Eu ouvi os presos." É o mesmo partido de Sacramento, só que ele radicaliza ainda mais em O Prisioneiro da Grade de Ferro. O diretor deu a detentos do Carandiru fundamentos de técnica cinematográfica, emprestou-lhes a câmera e deixou que eles próprios filmassem suas histórias.É uma maneira forte e original de dar voz aos que são excluídos pela sociedade. E o interessante é que as histórias narradas em O Prisioneiro da Grade de Ferro entram em choque com o que afirma o personagem de Milton Gonçalves no Carandiru de Babenco. Ele pergunta ao médico interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos se não percebeu que ali dentro todo mundo é inocente? É uma forma de dizer: desconfie dessas histórias. No filme de Babenco, as histórias reais viram ficções que o cineasta encena com grande força dramática, sendo elas - as histórias individuais - melhores do que o filme como um todo. No de Sacramento, os presos falam e, mesmo que eventualmente estejam mentindo, tudo o que aparece no documentário é impressionante.O Prisioneiro da Grade de Ferro é o cartaz de hoje do projeto Encontros do Cinema Brasileiro, no CCBB. Você conhece o formato: às 18h30, passa o filme e, na seqüência, o crítico e professor de Cinema na USP, Ismail Xavier, comanda o debate do diretor com o público. Sacramento terá muito a dizer, desde o processo de feitura do filme, realizado com tecnologia digital, até a polêmica cena final, que mostra o governador Geraldo Alckmin inaugurando um presídio. Alguns críticos deploram esse final, achando que ele é institucional demais para um documentário que, até então, vinha se pautando pela crítica às instituições. Outros acham que é o fecho perfeito, vendo nele uma ironia macabra. O governador fala em vagas, como se o presídio fosse uma escola. Conhecendo-se as condições nos presídios brasileiros - que o filme de Babenco e o próprio documentário de Sacramento expõem tão bem -, o que fica no ar é a idéia de que, se são vagas numa escola, certamente não são numa escola de reeducação e sim de aprimoramento para o crime, por força das deficiências do próprio sistema correcional.Sacramento trabalhou com os detentos do Carandiru durante sete meses, um ano antes da desativação do presídio. Sob a sua supervisão, os detentos aprenderam a utilizar câmeras de vídeo, com as quais documentaram o cotidiano do maior presídio da América Latina. É isso que faz toda a diferença. O Prisioneiro da Grade de Ferro, com o subtítulo de Auto-Retratos, venceu o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, em abril. Venceu duplamente, nas categorias nacional e internacional. Na sua justificativa, o júri internacional destacou que se trata de um filme que permite aos próprios prisioneiros revelar seus corpos abafados. "É um trabalho em que o ponto de vista do cineasta não é o mais importante. É fruto de um contrato passado entre duas partes: a dos presos, de fabricar sua imagem; a do cineasta, de revelar uma realidade."Com distribuição internacional da Sony, o Carandiru de Babenco está tendo todo apoio da empresa para tentar uma expressiva carreira no mercado americano. Extra-oficialmente, o que se comenta é que há uma certa apreensão pela reação das platéias americanas justamente pelo partido do cineasta, que foi o de Drauzio Varella no livro, de ouvir só os presos. É o mesmo de Paulo Sacramento. Faz com que Carandiru e O Prisioneiro se destinem a espectadores capazes de buscar no cinema algo mais que o tranqüilizador maniqueísmo hollywoodiano. O mundo não se divide entre bons e maus e os mocinhos também nem sempre são os que parecem ser. A realidade é mais complexa. É preciso um cinema adulto para retratá-la.Encontro do Cinema Brasileiro. Exibição de O Prisioneiro da Grade de Ferro (Auto-Retratos), de Paulo Sacramento, que participa de debate. Quinta, às 19 horas. Grátis - distribuição de senhas 30 minutos antes da sessão. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651.

Agencia Estado,

26 de junho de 2003 | 10h40

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