Destino da Ancine divide cineastas

A manifesta intenção do governo Lula de mudar a subordinação da Agência Nacional de Cinema (Ancine), vinculando-a ao Ministério da Cultura (MinC), provocou um racha no meio cinematográfico. O pivô da crise é uma carta enviada ao ministro-chefe da Casa Civil da Presidência, José Dirceu, encaminhada pelo produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão - alguns cineastas desautorizaram o uso de seus nomes no documento. "Eu não gostaria do confronto no jornal, não é meu objetivo brigar com a classe, criar intriga", disse Assunção Hernandes, presidente do Sindicato da Indústria Cinematográfica e do Congresso Brasileiro de Cinema. "O (Luiz Carlos) Barreto tem 74 anos e o trabalho dele tem sido, historicamente, o de uma liderança forte. É uma personalidade do cinema nacional. Mas essa carta só reflete o pensamento e o interesse dele, não era consensual", disse a dirigente. A carta de Barreto, subscrita por 32 entre os mais destacados cineastas do País - Nelson Pereira dos Santos, Hector Babenco e Sérgio Rezende entre eles -, pede a vinculação da Ancine ao MinC e resultou no agendamento de uma reunião entre os ministros José Dirceu, Luiz Furlan (ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio) e Gilberto Gil, marcada para quinta-feira em Brasília. Os ministros devem tratar da nova vinculação da Ancine. Mas o Sindicato da Indústria Cinematográfica (SIC) questiona a legitimidade da intervenção de Barretão. Pelo menos cinco entre os cineastas que são mencionados como apoiadores da proposta não assinaram a carta. Barretão reafirma sua posição e diz que ela - assim como a dos colegas que assinaram o documento - é pessoal. "Eu me manifestei como sempre fiz na minha vida. É uma posição realista minha e dos cineastas que assinaram - eu não falo como entidade, falo como pessoa." Barretão lembra que um artigo publicado no Estado há duas semanas, assinado pelo presidente da Ancine, Gustavo Dahl, já deixava claro que a escolha da vinculação da agência é uma "prerrogativa" do governo. "É uma discussão acaciana. Eu sou pragmático. Quem teve 55 milhões de votos foi o Lula. Eles têm o direito e o dever de determinar com quem vai ficar a Ancine. Nós temos é de fazer nossos filmes e não querer administrar o governo." O produtor diz que "não é sensato" deixar a agência paralisada. "É uma imprevidência da parte de quem ainda se opõe (ao MinC). O que é mais perigoso é a inércia e o desgaste que isso está provocando." Ele afirma que 70 filmes foram lançados em 2002 e que a atual paralisia da Ancine pode fazer com que a safra cinematográfica do ano que vem seja insignificante. Assunção Hernandes diz que as entidades reconhecem que o governo é quem decide sobre a questão, mas que o ideal seria buscar uma solução de consenso e a intervenção direta de Barretão causou "constrangimento" à classe, que tinha decidido o caminho da Ancine em duas edições do Congresso Brasileiro de Cinema. "O governo está com uma forte tendência de deixar a agência no MinC, dentro de um projeto amplo de reformulação do ministério", ela diz. "Mas é um modelo que nós desconhecemos, que leva tudo a recomeçar do zero, e isso só atrapalha a vida da gente." Para marcar a posição das entidades representadas pelo Congresso Brasileiro de Cinema, foi encaminhado um novo documento para o governo. Os cineastas iriam visitar hoje a Orlando Senna, Secretário do Audiovisual, para discutir o problema. ´Mesmo compreendendo as dificuldades em proceder à transição política em um país com as dimensões do Brasil, preocupa-nos o atraso na tomada de decisões relativas à política nacional de cinema", diz o novo documento.

Agencia Estado,

19 de março de 2003 | 13h10

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