Destaques da Mostra de Cinema no fim de semana

Há uma dimensão particular do tempo no cinema de Theo Angelopoulos, que volta à Mostra de São Paulo com Trilogia - O Vale dos Lamentos. O cinema desse diretor tem buscado, com freqüência, inspiração na tragédia. Ele já fez sua Orestíade (o sublime Paisagem na Neblina) e transformou a odisséia de Ulisses numa tragédia de Ésquilo (A Eternidade e Um Dia). Angelopoulos apropria-se agora do mais grego dos mitos - Eleni. O cineasta explicou, no ano passado, quando seu filme concorreu em Berlim, que Helena, a mulher de Menelau, amada de Páris, representa na literatura grega o tema da mulher desaparecida. Helena, ou Eleni, aparece em vários mitos. Depois de A Eternidade e Um Dia, que se passava no fim do século 20, com a tragédia dos refugiados, Angelopoulos teve a idéia de refazer a história do século, vista pela vida de uma mulher, primeiro na Grécia, depois no mundo e, finalmente, em Nova York. Foi assim que começou a escrever a história de Eleni, que chega à Grécia em 1919, ainda garota, como integrante da comunidade grega de Odessa que foge ao Exército Vermelho. Ela vira mulher, tem dois filhos que se matam na guerra civil. Parte para o mundo. Sua história termina em Nova York, no alvorecer do século 21. (Luiz Carlos MerttenTrilogia - O Vale dos Lamentos. Sábado, 15h, Unibanco Arteplex 1. Sábado, 19h20, Cinesesc. Segunda (24), 15h, Faap. 5.ª(27), 17h20, Reserva Cultural 2. Mostra homenageia o despojamento de Manoel de Oliveira Numa época em que filmar equivale a acumular penduricalhos técnicos, sempre é bom voltar à sobriedade. E, que não seja apenas uma rima, à profundidade. Por exemplo, Espelho Mágico, o mais recente Manoel de Oliveira, não deixa de ser surpreendente em seu despojamento aparente. Temos aqui uma história de fundo religioso. Uma ricaça (Leonor Silveira) tem como maior desejo na vida ser contemplada com a aparição da Virgem. O enredo é tirado do romance A Alma dos Ricos, de Augustina Bessa-Luís. Alfreda, nome da personagem de Leonor, desenvolve um raciocínio lógico: se Nossa Senhora apareceu para aqueles "pastorinhos lá de Belém", por que não para ela? Se o milagre acontece com os pobres, por que não aconteceria com os ricos? Isto seria contra as leis mais elementares da religião. A partir dessa situação um tanto satírica, Oliveira desenvolve uma história que fala tanto de uma obsessão religiosa quanto dialoga com uma visão crítica do social. (Luiz Zanin Oricchio) Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira. Sábado, 20h20, Unibanco Arteplex 2. Domingo, 16h10, Cine Bombril 1. 2.ª (24), 17h40, Cineclube Vitrine 1. 3.ª (25), 19h, Faap. Documentário sobre Maria BethâniaMaria Bethânia - Música É Perfume é uma das atrações deste sábado da Mostra. Georges Gachot mostrou seu filme no recente Festival do Rio. Documentarista de TV na Suíça, Gachot fez muitos filmes sobre os grandes compositores da música erudita. Música É Perfume assinala sua aproximação da música popular. "Crio impressões musicais, o que me permite, ao mesmo tempo, ser pessoal e universal. Falo sobre os artistas, espero que sem didatismo, e me projeto no trabalho deles para construir a minha linguagem, que é a do cinema." Gachot reinventa Tolstoi - "A arte só é universal quando nasce de dentro." Ser artista é lançar pontes. Como Maria Bethânia faz. (Luiz Carlos Merten)Ang Lee tira seus caubóis do armárioBrokeback Mountain é a atração deste domingo na Mostra. A ala gay vai baixar em peso no Frei Caneca para ver Heath Ledger sodomizar Jake Gyllenhaal numa cena que, essa sim, nunca houve no faroeste. Mesmo sem nudez nem sexo explícito, Ang Lee tira seus caubóis do armário e torna evidente o que o gênero reprimia. É o mérito e o limite de Brokeback Mountain. Ang Lee fez o mais triste dos westerns. Não é um western desenrolado no período clássico do gênero, mas contemporâneo. Os mocinhos alternam cavalos e carros. Vão cuidar de um rebanho de ovelhas num lugar distante. Começam os amassos. Eles fazem tudo aquilo e repetem - ?Não sou gay?, ?Eu também não?. Tentam construir a vida com mulheres. Não conseguem. Os raros momentos felizes dessas vidas solitárias são aquelas escapadas na montanha Brokeback (sem volta, destroçada), na qual os heróis de Ang Lee conseguem ser o que realmente são. A própria definição de western gay é uma simplificação - o diretor de Taiwan fez muitos filmes sobre homossexualismo no começo de sua carreira (Banquete de Casamento, Comer Beber Viver), mas aqui o momento é outro, a circunstância é outra. (Luiz Carlos Merten)

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