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Destaque na Mostra, filme ‘A Terra e a Sombra’ tem poética desolada

O filme é dirigido pelo colombiano César Augusto Acevedo, que usa o tom seco que, em momento algum, cede ao sentimentalismo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2015 | 03h00

Mais uma prova do excelente momento do cinema colombiano, A Terra e a Sombra, do estreante César Augusto Acevedo, foi vencedor do prêmio Caméra d’Or, do Festival de Cannes. Reconhecimento internacional é bom. Ainda mais quando se mostra plenamente merecido, como no caso. O filme é despojado, sem deixar de ser intenso. Aponta uma situação de injustiça social, sem cair no miserabilismo (ou seja, na exaltação estética da pobreza). É político, sem esquecer que, no cinema, o humano aparece antes de tudo, das convicções pessoais e teses sociológicas.

A história começa com um longo plano em que vemos um caminhante, já de idade, percorrendo a estrada que corta um canavial. Trata-se de Alfonso, que regressa ao lar depois de uma ausência de anos. Ele volta para ajudar a família a cuidar do seu filho, doente e jogado numa cama. Como é composta essa família? Da ex-mulher de Alfonso, seu filho doente, a nora e um neto. Por um lado, o filme aponta a questão familiar, a tentativa de reatar laços rompidos há muito tempo. Não interessam as razões desse corte. Elas ficarão em suspenso.

Mais marcantes, segundo a própria percepção do homem que volta, são as mudanças do local e suas consequências. Antes rodeada por uma floresta, a pequena propriedade agora foi abraçada por um canavial. O corte da cana e as queimadas periódicas para limpar o terreno causam uma terrível poluição – razão da doença pulmonar no filho. Com o homem doente, as duas mulheres da casa – sogra e nora – precisam se incorporar ao exército de boias-frias no corte da cana.

Em termos de linguagem cinematográfica, Acevedo exibe domínio de câmera. Sóbrio, usa o tom seco que, em momento algum, cede ao sentimentalismo. A opção estética é sóbria, e por isso o filme emociona sem chantagear. “Quero meu público comovido, mas lúcido”, diz o grande cineasta argentino Fernando Birri. É isso.

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