Focus Features/AP
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Desigualdade foi um dos grandes temas do Festival de Veneza

Evento que se encerra hoje teve variações sobre esse tema em filmes de diversos cineastas

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

11 de setembro de 2021 | 05h00

Um festival de cinema é como uma bolha. Lá dentro, uma produção americana sobre um jogador de cassino em busca de redenção é comparada com três dias da princesa Diana no tumultuado casamento com o príncipe Charles. Quando se cobre a distância, pois a pandemia corre desigual pelo globo, essa bolha não existe. A conversa com colegas do mundo inteiro não acontece. O que sobra são a tela do computador e os filmes aos quais se tem acesso. Mas ainda dá para sentir o que vai na cabeça dos cineastas e assistir a obras para as quais talvez não houvesse tempo se estivesse no Lido, onde se encerra hoje o 78.º Festival de Veneza

No caso de Paul Schrader, o que está em sua mente não é muito diferente do que sempre esteve, desde seus primeiros roteiros, como Taxi Driver – Motorista de Táxi, de 1976: um cavaleiro solitário traumatizado e culpado em busca de redenção, talvez por meio da salvação de outro. Neste filme noir cheio de estilo, o homem é William Tell (Oscar Isaac, a estrela do festival), um ex-interrogador militar – ou melhor, torturador –, que hoje corre os cassinos do Meio-Oeste americano. Tell poderia ganhar milhões, mas ele quer apenas o suficiente para se manter. É uma maneira de ficar fora do radar, mas também uma recusa dos ideais americanos e do capitalismo. Tell transita entre cidades de prédios uniformemente horrendos e motéis tão mal decorados quanto os cassinos que representam o luxo e a riqueza para aquela América do meio. Tem uma imagem clara de seu país, ao contrário do jogador conhecido como EUA, que se veste com a bandeira e, quando ganha, grita, triunfante: E-U-A! 

O personagem de Isaac em The Card Counter é diferente daquele que o ator faz na série Scenes From a Marriage, que estreia amanhã na HBO Max no Brasil e é uma versão de Cenas de um Casamento, a minissérie de Ingmar Bergman da década de 1970. Criada por Hagai Levi (In Treatment), a adaptação inverte os sinais: a Mira de Jessica Chastain é a mulher ambiciosa, com uma carreira bem-sucedida na área de tecnologia, e seu marido Jonathan (Isaac) é um professor de filosofia que cuida da filha. A vida dos dois é bastante confortável, financeiramente. Mas o vazio ainda está lá. E como se doar a um relacionamento quando há um oco dentro de si?

Em dado momento, Mira diz: “Você necessita de uma testemunha para sua vida, alguém que está sempre lá, fazendo o registro”. Não é diferente do cômico napolitano Eduardo Scarpetta (o excelente Toni Servillo) em Qui Rido Io, filme do italiano Mario Martone. Este homem precisa não só de muitas testemunhas de sua vida – a companhia de teatro, a mulher e os filhos e as várias amantes e sua prole – como também do aplauso do público e a admiração de seus pares. 

É esse respeito que procura Daniele (Daniele Barison) em Atlantide, do italiano Yuri Ancarani. O rapaz pode estar à margem, mas não das exigências da sociedade capitalista e da masculinidade, aqui representadas pela cultura do “barchino”, ou lanchas. Toda a existência de Daniele gira em torno do objetivo de chegar aos 85 km/h. Há um embate entre a Veneza local e aquela que os turistas preferem ver de longe, a partir de seus imensos navios de cruzeiro, e entre a modernidade e a antiguidade da cidade, que periga deixar de existir a não ser na memória. 

Essas questões aparecem de formas distintas em Piedra Noche, do argentino Iván Fund, e Karmalink, dirigido pelo americano Jake Wachtel, mas ambientado no Camboja. Os dois utilizam elementos de gênero: fantasia no primeiro, ficção científica no segundo. Piedra Noche fala de um casal que precisa lidar com a perda mais insuportável, enquanto veem a praia da tragédia assombrada por monstros vários, incluindo a plataforma horrenda que vira um triste ponto turístico depois de degradar a área. Karmalink se passa em uma Phnom Penh do futuro, em que as comunidades cada vez mais miseráveis são empurradas para dar lugar a condomínios. Um adolescente busca a salvação da família no budismo e no passado, com um artefato valioso que acredita ter escondido em uma vida anterior. Aqui também o trauma das guerras americanas está embutido nas pessoas e no país. 

Em Les Promesses, de Thomas Kruithof, Isabelle Huppert é uma prefeita que tenta lutar pelos moradores de conjuntos habitacionais inabitáveis. Mas suas boas intenções esbarram nas tentações da ambição pessoal e nas realidades da política, a arte do possível. 

Como o presidente do júri da competição oficial do Festival de Veneza deste ano, Bong Joon-ho, disse na época do lançamento de seu Parasita, o capitalismo é a nossa vida. E isso significa lidar com a pressão pela busca desenfreada por riqueza, desigualdade, guerra, trauma, destruição, vazio. A presença de Duna, de Denis Villeneuve, também estrelado por Oscar Isaac e exibido fora de competição, faz todo o sentido: uma história futurista sobre colonialismo, exploração de riquezas, espera pelo messias, em um lugar inóspito. Dado o nosso passado e o nosso presente, por que o futuro haveria de ser diferente?

Filmes brasileiros falam de solidão e afeto

Com tanta crise e dor na tela, o gosto que fica da maioria dos filmes é de tristeza, ou pelo menos melancolia. Não é muito diferente no caso dos brasileiros. O curta Ato, de Bárbara Paz, por exemplo, reflete sobre a solidão e a perda, por mais que o grito final contenha beleza.

Em 7 Prisioneiros, de Alexandre Moratto, o cenário é brutal: tráfico de pessoas e trabalho análogo à escravidão. Vale tudo em nome do dinheiro. Mateus (Christian Malheiros) descobre que no ferro-velho de Luca (Rodrigo Santoro) estará para sempre preso a uma dívida impagável. O rapaz busca uma saída. Mas que tipo de escolha há para quem luta pela sobrevivência? Com belas atuações de seus protagonistas, o filme parte de aparentes certezas sobre as posições de vítima e algoz e complica aos poucos as decisões dos personagens, desafiando o espectador a se colocar em seu lugar. 

Salamandra, de Alex Carvalho, parece querer abordar as desigualdades oriundas do colonialismo por meio do romance entre um jovem negro brasileiro (Maicon Rodrigues) e uma francesa em vazio existencial (Marina Foïs), no Recife. Mas o filme baseado no livro do francês Jean-Christophe Rufin se enrola em clichês sobre as mulheres e sobre as relações entre classes sociais, colonizadores e colonizados, brancos e negros. 

Um dos raros filmes sem medo de terminar em sorriso é o belo Deserto Particular, de Aly Muritiba, vencedor do Prêmio do Público. Ele até começa cinzento e chuvoso, como é a vida do policial curitibano Daniel (Antonio Saboia), afastado por conta de um episódio de violência. Mas seu mundo se abre para o sol e a cor quando, sufocado, decide ir atrás da misteriosa Sara, com quem fala pelo celular, na Bahia. O filme faz questão de manter o suspense sobre ela, porque o encontro vai estilhaçar as certezas de Daniel. Mas o diretor claramente quer dizer com seu melodrama que o encontro é possível, por mais diferentes que sejam a criação, o lugar de origem e a visão de mundo. E que dá para mudar. Com amor e afeto se combate não apenas o ódio, mas também, quem sabe, o vazio, a crise, o trauma. É a esperança.

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