Desejo é mostrado com eficácia estética

Vale começar com uma obviedade, que de vez em quando deve ser lembrada: o cinema é uma construção imaginária do real. No caso de Amor à Flor da Pele, isso é apenas mais evidente. Wong Kar-Wai não hesita em se servir do mais puro artificialismo para chegar onde pretende, ou seja, a uma "verdade" possível sobre o desejo humano. Como ele o faz? Construindo elipses diretamente na mesa de edição.Como o cineasta já disse em entrevistas, e seus atores confirmam, durante a filmagem a história do par vivido por Tony Leung e Maggie Cheung é muito mais linear do que aquilo que se vê na tela. Os dois se encontram. São vizinhos, descobrem-se traídos pelos respectivos cônjuges. Passam a conviver de maneira cada vez mais íntima. Tornam-se amantes ocasionais. Separam-se. Este é o tempo da filmagem. Mas não o da edição - e portanto não o do filme. Manipulando o material, decupando-o a seu gosto, o artista chega aonde quer, e tudo se torna mais ambíguo, menos direto, mais fluido. Limpidez e delicadeza, a serviço da eficácia estética.No formato que vai para a tela, o espectador sente mais a hesitação que os atos resolutos de um encontro amoroso. Vê esse sutil bailado do desejo, que nunca segue em linha reta rumo ao alvo. Tudo é construção, e tudo é tão extremamente verdadeiro. A silhueta da mulher é esculpida pela câmera, que segue amorosamente seus passos. Algumas seqüências, as de Maggie Cheung subindo as escadas estreitas do bairro de Hong Kong, são verdadeiras epifanias visuais.Tudo, nelas, contribui para essa impressão: o corpo, em si formidável, como desenhado por algum deus esteta, sem qualquer noção de responsabilidade moral. Os vestidos que o cobrem, o jogo de cores e movimentos que essas roupas produzem, como se Kar-Wai escrevesse aí um panfleto em prol da colocação da moda entre as artes superiores. A música encantatória, que segue a moça e adere ao seu corpo. Tudo faz com que o espectador se sinta na pele do personagem de Tony Leung. Faz do espectador aquilo que ele é, primordialmente: um voyeur.Mas o que o grande cinema espera do espectador é que ele seja um voyeur de classe. Não como aquele que fica espiando a vizinha pelada com um par de binóculos. Mas o que se sente mais mobilizado por uma insinuação, por uma silhueta filtrada pela cortina transparente, que se comove mais por um movimento significativo que pelo ato em si. Por isso, Kar-Wai, no trato final com o material filmado, age como o artista que é: depura, corta, retira, joga fora o excesso. Excita o espectador por aquilo que falta em sua história. São essas ausências cheias de sentido que fazem todo o encanto de Amor à Flor da Pele. Arte de retirar, dizia Da Vinci da escultura, para distingui-la da pintura. Aqui, de fato, o cinema é escultura. Kar-Wai filma em linha reta, talvez para comodidade própria e dos intérpretes. Quando filtra esse material na montagem, tira todo o excesso e joga fora o resto. Esculpe no ar, dá forma à luz.Hemingway tinha um conselho para os escritores iniciantes: atenha-se ao essencial e corte fora tudo o mais. Em outro momento, ele compara o bom texto a um iceberg: ele mostra apenas uma pequena parte do todo - o que fica oculto é o que vale, e este fica por conta da imaginação de quem lê. Ou seja, Hemingway dá de barato que deve existir um trabalho, um esforço, uma participação ativa do leitor na fruição da obra.O mesmo pode ser dito deste filme de Wong Kar-Wai. Tudo aquilo que é depurado na montagem, tudo o que é tirado imediatamente de vista, deve voltar como recriação do espectador. É esse trabalho - infinitamente prazeroso - que se pede a quem assiste ao filme. Cabe a ele recriar, retrabalhar internamente, e à sua maneira, esse processo sinuoso do desejo que se esboça em Amor à Flor da Pele. Filme sofisticado, parente próximo de algumas obras de Krzysztof Kieslowski ou Alain Resnais.Impossível não lembrar de Kieslowski na maneira como Kar-Wai movimenta a câmera e decupa o quadro. Ou no jeito como utiliza a trilha sonora na montagem final. No encontro e no desencontro dos amantes em potencial sente-se também o reflexo do grande Hiroshima, Meu Amor, um filme que marcou tantas gerações de cinéfilos e cineastas.Finalmente, há a consciência do artista, que joga sua pequena história amorosa em um painel histórico, tão sutil quanto necessário. Anos 60, a incerteza de uma Hong Kong que incha com as migrações vindas da China continental e a evocação longínqua de um centro de produção e consumo de bens materiais: o Japão, de onde vêm os objetos cobiçados pelos personagens, uma gravata diferente, uma sacola colorida, uma panela de pressão. Esses objetos intermediam sutilmente a ciranda amorosa dos personagens. E reafirmam que, apesar de tudo, eles estão no mundo natural das coisas e das gentes e que a este mundo eles pertencem.Amor à Flor da Pele (In the Mood For Love). Drama. Direção de Wong Kar-Wai. Hong Kong-Fr/2000. Duração: 98 minutos. 14 anos

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