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'Desde Allá', de Lorenzo Vigas, deu o Leão de Ouro de Veneza ao cinema da Venezuela

Longa é um drama surpreendente, finamente escrito e interpretado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2015 | 04h00

Não poderia haver sintoma melhor de que o cinema venezuelano mudou de patamar do que a vitória de um filme desse país em um dos três grandes festivais do mundo. Desde Allá, de Lorenzo Vigas Castes, faturou o Leão de Ouro de Veneza que, ao lado da Palma de Cannes e do Urso de Berlim, completa a coroa das premiações mundiais dos filmes de empenho artístico (o Oscar é outra coisa).

Desde Allá é um drama surpreendente, finamente escrito e interpretado. Fala do complexo relacionamento entre um protético rico, Armando (Alfredo Castro), e Elder (Luis Silva), jovem chefe de uma gangue de delinquentes em Caracas. Armando gosta de levar rapazes ao seu apartamento. Faz isso também com Elder e, apesar do desfecho violento do encontro, não perde o interesse pelo jovem. Pelo contrário. De atração, torna-se fixação. Parêntese: Elder, personagem de Luis Silva, tem um tipo cheio de energia e ar insolente. Lembra os “ragazzi di vita” de Pier Paolo Pasolini. A marginalidade tem lá seus atrativos.

Vigas consegue manter a história desse relacionamento envolta num ar de mistério, o que lhe confere densidade. Se Elder é uma figura dúbia, Armando não parece menos intrigante. O grande ator Alfredo Castro (chileno, protagonista de vários filmes de Pablo Larraín) flutua na ambiguidade. Ora parece muito frágil. Apenas um senhor de certa idade com um fraco irresistível por rapazes, e com frequência vítima da violência destes. Ora parece alguém com passado um tanto nebuloso, que irá aparecendo muito aos poucos e, no limite, jamais se entrega por completo.

Tudo passa pela evolução do relacionamento entre os dois. Elder é um pequeno marginal, mas que pode ser cativado por gestos precisos. E nisso Armando é um especialista. Esse ponto merece atenção. O diretor é hábil na exposição da personalidade de Armando. Ela não é descrita por palavras, mas por atos. Ambientes e gestos. Revela-se, em especial, quando exerce meticulosamente seu ofício. Esse é o sentido de a câmera mostrar longamente como suas mãos hábeis moldam próteses dentárias. Armando é detalhista. Falamos de ambiguidade: ele é alguém que pode ser arrastado à beira do abismo por paixões perigosas. Pode ser também alguém capaz de planejar algo com antecedência e minúcia.

O próprio filme parece bem controlado. Quer dizer, conscientemente ou não, algo da personalidade do protagonista entra na própria linguagem da obra. O filme é bem desenhado, em planos precisos e elegantes. Muito dos traços de caráter de Armando se desenham quando ele leva o primeiro rapaz à sua casa. O garoto é convencido a fazer o que ele deseja e Armando se satisfaz. A dinâmica do filme se altera nas cenas de rua, quando se torna mais frenético, com planos mais curtos, como a incorporar algo da febril realidade social de Caracas, onde vivem esses garotos sem muito futuro e que ganham algum dinheiro depenando carros ou enganando trouxas. Estão à beira da criminalidade. As ruas são precárias, lembram muito algumas da periferia de São Paulo. No fundo, esses países se parecem muito, pelo aspecto provisório de tudo e a pouca atenção dada à juventude. São países que falam muito em futuro, mas se aferram ao presente como se no fundo duvidassem da construção de um porvir.

Esses elementos entram no trabalho de Vigas sem qualquer ranço retórico. Não é chavista e nem antichavista. Apenas registra, como um fotógrafo, a realidade que as “calles” expressam com maior veemência que muitos discursos juntos.

Mas, se liga a sua proposta ao aspecto social, é mais na subjetividade que Desde Allá se concentra. Em especial nessa gangorra afetiva que liga Armando a Elder. Ela é muito sutil e envolve a arte da conquista que, como se sabe, raramente se dá de maneira direta. Há volteios, recuos e avanços táticos, e requer muito senso de estratégia. Mesmo assim, nem sempre tudo sai como planejado. Ainda mais quando os personagens envolvidos nada têm de banais, embora o espectador possa se enganar a esse respeito. Um protético, um menino de rua – como imaginar par mais desinteressante? Vigas mostra que, pelo contrário, há um universo de surpresas rondando um relacionamento como este. O espectador não deixará de participar dessas surpresas.

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